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Caneca de Letras

Caneca de Letras

18
Nov19

A Última Carta De Um Velho...

Filipe Vaz Correia

 

A lareira acesa...

A noite que cairia e eu ali sentado, no mesmo sitio de sempre, por entre, o infinito vazio.

Esse vazio que respira e se faz sentir, nesta casa outrora repleta de gritos e movimentos, de calor humano e alegria.

Ainda aqui estou...

Só.

A velha manta ao meu colo, repleta de buracos de cinza ardida, destes cigarros que continuam a ser o laço que me une a esse passado.

O copo de Whisky a meu lado...

A luz do candeeiro, o rádio ligado enquanto as mãos me tremem, tremendo cada vez mais.

Como passou tão depressa...

Como passou?

Oiço as mesmas canções, melodias que significaram tanto, tamanho querer que desvaneceu.

Os meus olhos cansados já não conseguem discernir as letras do jornal sem a ajuda de uma lupa, para me manter informado das novas que o mundo tem para contar, esse mundo que tanto mudou, se transformou, radicalmente se transmutou.

Faltam-me as forças, aquelas que antigamente me sobravam, num entrelaçado enigma em que se pincelou a minha vida.

Foram ficando para trás todos os momentos, rostos e pensamentos, até sobrar este nada que tanto significa, tanto abrange, tanto me sufoca.

É a ele, este nada, que me agarro com todas as forças para viver, num desconexo, incompreensível e inexplicável querer.

O meu coração já não pulsa, somente soluça, aqui e acolá enganado por uma ou outra pastilha receitada pelo Senhor Doutor...

Doutor?

Agora são todos “Doutores”...

Desde a empregada doméstica até ao moço dos jornais.

Não percebo nada deste mundo...

Aqui estou rodeado de retratos e rostos, feridas abertas em meu peito, dores e aflições que chegam e partem silenciosamente.

Já vos perdi, sem nunca me ter apercebido de vos ter tido...

Era tudo tão corrido, mesmo os jantares, mesas repletas, nessa azáfama que desassombradamente me escapou.

A lareira acesa...

Tenho tanto frio, tanto sono, tanto medo.

Já não sei escrever nem decorar o saber, perdido que me encontro neste labirinto de emoções que me persegue.

Para onde foram os amigos?

Os filhos?

E tu meu amor...

Para onde foste?

Todos partiram para esse lugar incerto, tantas vezes explanado na fé, essa que me foi abandonando à medida que só me encontrava, nesse desabitado coração meu...

Estou solitariamente entregue a este refúgio, nesta sala, neste museu de relíquias minhas, empoeiradas e amordaçadamente sombrias.

Estou só...

À espera de partir, de finalmente sentir esse encontro prometido na infinita sabedoria de Deus.

Deus?

Só espero que também Tu, não me tenhas abandonado...

Deus Meu.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

30
Ago19

”Velho”

Filipe Vaz Correia

 

Vai velho...

Vai velho que ainda caminhas, peixe sem espinhas pois os dentes já não ajudam, como se dentes ainda existissem, ao invés dessa dentadura meio gasta, que insiste em habitar na enrugada boca que vejo ao espelho.

Quem és tu?

Quem se mostra desse lado do reflexo de mim mesmo?

Os olhos sem cor, quase esbranquiçados, escondendo no fundo da alma a tristeza que um dia tomou conta, chegou de mansinho e se tornou presença insistente no dia a dia desesperançado do destino.

Vai velho que ainda aguentas com o fardo, mesmo que não fosse o tamanho fardo, maior do que a dor que se esconde em cada esquina, nessa ausência de rostos e cheiros, carinhos e palavras que foram desaparecendo com o tempo, levados por esse vento chamado vida...

Essa vida que brinda e arranca, que amarra e afasta, nos trespassa e beija.

Estou velho...

As mãos custam a fechar, as pernas a desinchar, os olhos a ver, o coração em parar de sofrer, nesse ardor ou viver que se aparenta com a angústia de um querer que escapou, esmoreceu, se perdeu por entre a incompleta vontade de sentir saudade.

Já não voltam as gargalhadas, nem as sentidas e emocionadas interrogações desse futuro por construir, correndo pela planície da alma, carregando os planos de um horizonte que não tardaria a vislumbrar.

A caneta a secar, as letras a escassear, por entre, as divagações de um velho poeta...

Estou velho...

Fechei a porta e deixei de sonhar. 

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

22
Nov18

Velha "Alma"...

Filipe Vaz Correia

 

Chuva molhada que cai melodiosa, numa esplendorosa forma de poesia...

Mas o velho chora.

Enquanto cai e torna a cair, essa chuva abençoada parece transformar-se nas lágrimas poéticas, de um qualquer "divino" Deus...

Mas continua o velho a chorar.

Do lado de dentro da janela parece bela a pequena miragem, qual aguarela em forma de canção, tendo os pingos da chuva como o batuque de um tambor...

E só o velho chora.

Os trovões e raios chegam de soslaio, encantando o céu, amarrando sem véu a esperança de um poeta.

Porque, tanto, chora o velho?

De encontro à janela, onde se escondem os curiosos olhos, teus, desaparecem os pedaços de água que atrevidamente despencam desse céu, calado, envergonhado, desesperadamente desesperado por dar lógica a tamanhas interrogações...

Quem sois?

Quem foste tu, triste velho?

Continua a chover, talvez sem saber que molhado fica aquele rosto, marcado, enrugado, enregelado, estremecido por tantas memórias, contidas histórias, traços e feridas de um tempo. 

Esse tempo correu...

Findou.

Mas com ele regressou um singelo vento, apressando o presente rumo ao futuro, tornando ausente esse mesmo presente, agora passado.

Esse velho ficou lá atrás...

Perdido nas linhas e traços de textos que outrora foram vida, que se foram embora sem esperar.

Esse velho sou eu...

Ou o que sobrou, do que outrora fui.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

 

22
Jun18

Velho...

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Vejo nessas rugas;

A passagem do tempo,

Alegrias e tristezas,

Marcado sofrimento,

Que ficou aprisionado ao rosto...

 

Nessas mãos enrugadas;

Palavras e feridas,

Mágoas passadas,

Lágrimas sentidas,

Inesquecivelmente...

 

Nesse olhar distante;

Amarguradamente gasto,

Regressam memórias sufocantes,

Que pareciam silenciadas...

 

Em cada parte de ti;

Ó velho...

 

Em cada parte de ti;

Vivem pedaços dos teus,

De cada um que contigo se cruzou,

Nesse pedaço de vida,

Que foi a tua história...

 

Em cada parte de ti;

Ó velho.

 

 

 

 

 

 

23
Jul17

Eternamente Criança...

Filipe Vaz Correia

 

A imaginação sempre me aproximou de um mundo só meu, guardado por entre os monstros que me acompanham desde criança, dos amigos imaginários que sempre estiveram presentes, nas milhares de aventuras que percorri no recato do meu quarto ou nas correrias por aquelas ruas de Santa Luzia...

Ainda hoje quando fecho os olhos facilmente me transporto para uma sala escura, pejada de cortinados feitos de asas de morcegos, com as paredes cravejadas de olhos, atentos, que parecem me observar, enquanto eu aguardo...

Esperando que o mistério se desfaça e possa finalmente me bater num duelo com um qualquer rival.

Ou mesmo, um campo florido a perder de vista onde cavalgo no meu cavalo branco, de crina castanha e com as asas recolhidas, preparadas para voar se necessário for.

Como regressar por instantes a tempos onde podemos ser quem queremos, como queremos, sempre que queremos...

Momentos onde a vida não esmagava essa criança interior que por vezes insiste em permanecer, insistindo em ficar, nesse estranho direito que temos de não deixar de brincar.

Como pode ser estranho neste mundo tão sério e enfadonho, deixar que dentro de nós, ainda viva uma criança?

Aquela criança que um dia fomos?

Por vezes sinto-me assim...

Ou melhor, recordo como me sentia, nesses tempos distantes.

Será que assim permanecerei, se chegar aos 90 anos?

Ou será que acharão que se tratará de uma qualquer loucura, própria da idade?

Pois bem, até lá, prefiro percorrer os trilhos da minha imaginação, sonhar acordado, buscando através destas linhas o reencontro com esse pedaço de mim, que se nega a deixar de ser criança.

 

 

Filipe Vaz Correia

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