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Caneca de Letras

Caneca de Letras

14
Dez20

Alzheimer...

Filipe Vaz Correia

 

 

 

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Já não sei quem sou;

Nem adivinho o que me dizem,

Já não sinto a minha alma,

O meu querer, a minha vontade...

 

Deixei de ser quem era;

Deixei para trás o meu destino,

Já não fujo, já não corro,

Já não sei quando morro...

 

Os meu olhos esmoreceram;

Pálidos, com falta de cor,

Já me esqueci para onde foram,

Aqueles que me davam amor...

 

Estou sozinha, sem nada;

Buscando nos dias uma razão,

Recordando desanimada,

A razão da minha desilusão...

 

Já não conheço esta gente;

Já nem sei o que escrevo,

Sei que o vosso olhar me mente,

Mas não sei o porquê...

 

Porque às vezes ainda penso;

Pensando e às vezes sentindo,

Parecendo que às vezes vejo,

Aquilo em que me vão mentindo...

 

Assim, rascunhando estas linhas;

Com essa angústia que me fica,

Pois não sei se me irei recordar,

Do que pensei ou escrevi,

Quando este poema terminar!

 

 

 

 

24
Jul17

Velhice!

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Vejo o mundo através destes olhos envelhecidos;

Recordo o tempo que para trás ficou,

Questiono os sonhos esquecidos,

Que a minha memória não resgatou,

Se perderam, perdidos...

 

Vejo os rostos que partiram;

Os que ficando se escaparam,

Mágoas que feriram,

Que ardendo, ficaram...

 

Vejo a outrora juventude que se foi;

A velhice que então chegou,

Os carinhos que já não me pertencem,

A solidão que restou...

 

Vejo tanto;

Restando tão pouco,

Enquanto,

Serenamente deixo voar o tempo,

Desta minha velhice.

 

 

 

 

25
Mar17

Desencontros...

Filipe Vaz Correia

 

Abeiro-me à distância, escondido, envolvido pela neblina que se descerrou sobre o passado que um dia nos ligou...

Tão distante...

Tão nosso.

Vislumbro-te à distância nestas recordações, nos olhares presos ao coração que algures no tempo nos pertenceu...

Foi nosso.

Através daquelas árvores, daquelas pessoas, daquele constrangedor momento, recuo dezenas de anos, uma vida, até à encruzilhada maior que nos haveria de separar para sempre...

Tantas perguntas, me acometem, me perseguem, sem saber se a ti também...

Se também os medos, os desejos, te perseguem da mesma maneira?

Como permaneces bela, discretamente bela, depois de uma eternidade nos ter ultrapassado no tempo, nos ter transformado em resquícios do que um dia fomos, nesse momento que existiu em nós.

Caminhos diferentes prosseguimos, destinos diferentes percorremos, rumos diferentes tomamos, sem saber como isso mudaria tudo...

Os cabelos brancos que já não conseguem esconder, o tempo, a lentidão dos passos, que não conseguem disfarçar a idade, tudo aquilo, que para trás ficou.

E aqui permaneço, escondido, ao longe, secretamente sonhando com a realidade inexistente, com aquele beijo gravado na memória, entrelaçado às promessas que naquela noite trocámos, sem saber que seria a derradeira, mesmo tendo sido a primeira...

Como ainda tremo, em tua presença, com o receio de cruzar contigo o olhar e por um instante regressar, sem voltar verdadeiramente, àquele menino cheio de esperança na alma, de querença no coração, de vontade e determinação no querer.

E assim, volto as costas, parto outra vez, sem falar, sem me aproximar, sem saber se também um dia sonhaste com os destinos que ficaram por cumprir.

E devagar, devagarinho, procuro nas recordações, essa vida que me fugiu...

Que nos fugiu...

Sem nunca chegar.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

21
Dez16

As Mãos de uma Velha...

Filipe Vaz Correia

 

Vi-te velhinha;

De mãos ao vento,

Vazias, calejadas, penduradas,

Contando o tormento,

E há muito abandonadas...

 

Sentada na porta de uma casa;

Com o desespero estampado no rosto,

À espera que a morte dê asa,

E lhe chame para o seu posto...

 

Nesse dia quem passar;

Não mais a irá ver,

Provavelmente sem notar,

Que a velha acabou de morrer...

 

Mas o que importa uma mulher;

Imunda, suja, desesperada,

O que importa querer ver,

Aquela alma cansada...

 

Esquecemos é que um dia;

A velha já foi gente,

Era nova e até sorria,

E tinha sonhos na mente...

 

Por partidas do destino;

Encontrou a solidão,

A tristeza levou-lhe o tino,

E a dor o coração...

 

Assim que Deus nos proteja;

De tamanha maldição,

E que longe o dia esteja,

De nos levarem ao caixão...

 

E vazia ficou a porta;

Mais limpa aquela rua,

Pois já não sofre a velha torta,

Nem a sua alma nua...

 

Aqui passou uma vida;

De lágrimas, desgostos, sofrimento,

Acabou coitada, perdida,

Por entre a chuva e o vento...

 

Adeus velho coração;

Que Deus a todos nos guarde,

E que nos evite a emoção,

De igual, destino cobarde!

 

 

 

 

 

15
Dez16

Espelho...

Filipe Vaz Correia

 

Estou velha;

Um pedaço do que fui,

Uma parte de mim mesma...

 

Sou essa imagem presa nesse espelho;

Aquele reflexo nos meus olhos,

A poeira do tempo a passar,

Trazendo esse vento que não tardará a chegar...

 

Já não ando sem cansaço;

Já não paro de tremer,

Ainda aguardo sem pressa,

Esse instante de morrer...

 

Tantos anos se passaram;

Fugiram-me por entre os dedos,

E eu presa nos tormentos,

Nas minhas amarras,

Nos meus medos...

 

Fui feliz mas já esqueci;

Amargura bem trancada,

Por entre aquilo que vivi,

O que sonhei,

O que perdi...

 

E assim Velha imagem;

Que te escondes no meu espelho,

Sei que não és uma miragem,

Sou eu...

 

 

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