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Caneca de Letras

Caneca de Letras

As Mãos de uma Velha...

Filipe Vaz Correia, 21.12.16

 

Vi-te velhinha;

De mãos ao vento,

Vazias, calejadas, penduradas,

Contando o tormento,

E há muito abandonadas...

 

Sentada na porta de uma casa;

Com o desespero estampado no rosto,

À espera que a morte dê asa,

E lhe chame para o seu posto...

 

Nesse dia quem passar;

Não mais a irá ver,

Provavelmente sem notar,

Que a velha acabou de morrer...

 

Mas o que importa uma mulher;

Imunda, suja, desesperada,

O que importa querer ver,

Aquela alma cansada...

 

Esquecemos é que um dia;

A velha já foi gente,

Era nova e até sorria,

E tinha sonhos na mente...

 

Por partidas do destino;

Encontrou a solidão,

A tristeza levou-lhe o tino,

E a dor o coração...

 

Assim que Deus nos proteja;

De tamanha maldição,

E que longe o dia esteja,

De nos levarem ao caixão...

 

E vazia ficou a porta;

Mais limpa aquela rua,

Pois já não sofre a velha torta,

Nem a sua alma nua...

 

Aqui passou uma vida;

De lágrimas, desgostos, sofrimento,

Acabou coitada, perdida,

Por entre a chuva e o vento...

 

Adeus velho coração;

Que Deus a todos nos guarde,

E que nos evite a emoção,

De igual, destino cobarde!

 

 

 

 

 

Espelho...

Filipe Vaz Correia, 15.12.16

 

Estou velha;

Um pedaço do que fui,

Uma parte de mim mesma...

 

Sou essa imagem presa nesse espelho;

Aquele reflexo nos meus olhos,

A poeira do tempo a passar,

Trazendo esse vento que não tardará a chegar...

 

Já não ando sem cansaço;

Já não paro de tremer,

Ainda aguardo sem pressa,

Esse instante de morrer...

 

Tantos anos se passaram;

Fugiram-me por entre os dedos,

E eu presa nos tormentos,

Nas minhas amarras,

Nos meus medos...

 

Fui feliz mas já esqueci;

Amargura bem trancada,

Por entre aquilo que vivi,

O que sonhei,

O que perdi...

 

E assim Velha imagem;

Que te escondes no meu espelho,

Sei que não és uma miragem,

Sou eu...