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Caneca de Letras

Caneca de Letras

03
Nov17

No Meu Tempo, Não Era Nada Assim!

Filipe Vaz Correia

 

No meu tempo, não era nada assim!

Esta frase um pouco bafienta, poeirenta, que ao longo de gerações se vai ouvindo de Pais e Tios, caracterizando a diferença entre esse tempo nostálgico, onde foram felizes, e o rebuliço indecifrável por onde se perdem as novas gerações...

Esta frase que neste texto, tomo como minha.

Ao ver e rever em todos os telejornais, as imagens das agressões à porta do Urban Beach, não posso deixar de agarrar na memória e voar através dos pensamentos para um tempo tão meu, em que era tão jovem, em que tudo parecia perfeito.

Sempre gostei de sair à noite, de beber um copo com amigos, dar um pezinho de dança, navegar por entre a folia imortal de uma imberbe idade...

A Kapital, o T-Club ou o Stones eram os meus locais de eleição, sítios onde me sentia em casa e onde os porteiros se mantinham os mesmos ao longo de anos, ao longo dos tempos.

De Smoking vestido, ali estavam de pé, noite após noite, reconhecendo rostos, limitando abusos, demarcando o terreno.

Existiam problemas?

Claro...

Por vezes umas bofetadas?

Com certeza...

Mas jamais assisti a este tipo de indignidade, meio cobarde, numa ignóbil aberração plasmada naquele cenário de selvajaria.

Ao ver estas imagens, o que mais me chocou foram as agressões com os rapazes caídos no chão, indefesos, sem hipótese de se defenderem daquela barbárie, a que tantos assistiam.

Foi para mim, verdadeiramente chocante.

Por tudo isto, não consigo parar de recordar e ao mesmo tempo gritar:

No meu tempo, não era nada assim!

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

 

14
Out17

Adeus Adolescência...

Filipe Vaz Correia

 

Estive na festa de anos de um grande amigo, um almoço descontraído, bem aproveitado, 40 anos de histórias e recordações...

Um dia de encontros, reencontros, pessoas que há muito havia perdido, nos havíamos desencontrado, neste labirinto chamado vida.

Por entre conversas e opiniões, uma me desarmou, deixou estupefacto, desarmadamente incrédulo, perante a memória dessa minha meninice:

- Fechou o T-Club!

- Fechou... Deixei sair de dentro da minha espantada alma...

Perdoem-me o desabafo, mas aqui vai:

Cresci em Lisboa, e parte dessa minha descoberta da noite alfacinha, foi feita no T-Club de Lisboa, nesses momentos guardados por entre os segredos de uma adolescência feliz, pejada de amizades, de vagabundas imagens.

Há muito que havia compartimentado o trauma do adeus ao T-Club de Lisboa, assim como ao Stones, no entanto, juro que jamais me passou pela cabeça, que seria possível o T-Club da Quinta do Lago ou a Trigonometria encerrarem...

Na minha mente isso era impossível.

Era impossível na mente e no coração, por tudo o que ali vivi, por tamanhas histórias guardadas de tantos de nós, que perfazem a minha vida.

Mas fechou...

Mostraram-me o leilão de coisas à venda na Internet, pedaços de memórias minhas, de histórias de outros, de vidas.

Como se atrevem a desarmar o meu passado, num futuro, que jamais adivinharia?

Como encerram, os amores e desamores que vivi na varanda da trigonometria, os momentos em que o mundo me pertencia, na pista do T-Club?

Naquele espaço guardo pessoas que estimo sem tamanho:

Meu Pai, Jaime, Manel, Zé Miguel, Bordini, Daniela...

Não esquecendo o meu querido Tio Jaime, com quem ali partilhei algumas das melhores histórias da minha vida.

Tantos e tantos momentos, encerrados numa frase, num momento, numa vontade dos tempos, em alterar o que jamais imaginei ser alterado.

Ficam as memórias, os tempos áureos, a saudade que ninguém poderá apagar...

Mesmo que tenha de, finalmente, dizer adeus à minha feliz adolescência.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

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