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Caneca de Letras

26.10.22

 

 

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No dia 21 de Outubro fez 26 anos que perdi o meu maior amigo de infância, aquele que me ajudou a moldar desde a mais tenra idade.

O Luís partiu depois de 3 anos inenarráveis numa luta árdua e corajosa contra um cancro, na espinhosa caminhada de um adolescente que se debatia contra o "non sense" de um tão brutal destino.

O tempo passou tão depressa e de forma tão imensa que por vezes nem sei o que escrever, não sei rabiscar em letras ou palavras o que me dita o sentir, essa ausência tão esmagadora que se transformou em silêncio, esse esquecer que insisto em recordar.

Tento recordar o seu rosto a cada dia, tento memorizar cada história a cada instante, tento imaginar o inimaginável sempre que a cada tropeço me recordo...

Sei bem o que representava para ele, o quanto ele gostava de mim, nesse fraterno amor que nos ligou, buscando tantas vezes na fraqueza dessa saudade um sentido para tão precoce partida.

O Luís era leal e corajoso, o mais corajoso que conheci, era destemido e alegre, era gigante...

Gigante no ser, na querença, na destemida forma como viveu até ao instante derradeiro, na singela presença do seu olhar.

Pouco tempo antes de morrer foi beber café comigo ao antigo centro Roma, quando provavelmente pesaria uns 40 quilos, contrariando o que todos achariam aceitável, ou seja, que ficasse no recato de sua casa, debilitado recebendo um amigo de sempre...

Mas isso não seria o Luís.

Montou-se na sua BWS, percorreu o curto caminho entre a sua casa na Frei Amador Arrais e o Centro Roma e ali nos encontrámos, para o último café, o nosso momento de despedida.

Se eu soubesse...

Acho que nunca lhe disse o quanto gostava dele, não que ele não o soubesse, mas de forma aberta, sem amarras ou subtilezas, num sincero e simples:

Amo-te meu irmão!

Chorei imenso nesse dia 21 de Outubro de 1996, desabei no recato de meu quarto, depois de falar por telefone com sua mãe que me deu a triste notícia...

Hoje 26 anos passados escrevo estas linhas para que se avive a memória, para lhe prestar um tributo de mim para ele, guardando comigo essa espécie de tradição de em prosa ou verso sublinhar nesta Caneca o quão privilegiado fui por um dia se ter cruzado em meu caminho esse amigo de uma vida.

Enquanto for possível escrevinhar aqui estarei para gritar com todas as palavras a saudade que sinto e o amor que sempre senti por ti.

Até sempre meu irmão.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

 

02.06.22

 

A minha Mãe faria hoje 87 anos, partiu há quase 12...

O tempo na sua infinita crueldade e contraditória calmaria traz esse doce amargo de boca que é a relativização da dor, da perda.

No entanto, pelo menos no meu caso, a ferida permanece aberta, flamejante, pujante na saudade, nesse arfar quase sufocante de um adeus que não pode ser real, do cortar de um cordão umbilical que se torna espiritual.

O dia de sua partida foi o mais triste de minha vida, este dia 2 de Junho era habitualmente um dos mais felizes do ano.

Ia quase sempre à casa batalha onde facilmente encontrava um presente que fosse a cara de minha querida Mãe, colares, anéis, encharques...

Hoje apenas escrevo estas linhas, perco-me no pensamento, busco em mim partes que lhe pertencerão.

Parabéns Mãe.

Amor da minha vida.

 

Do sempre teu;

 

 

Pipo

 

 

21.10.21

 

 

 

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25 anos!

Assim de forma crua se desnuda essa verdade que esmaga e corrói, acelera o tempo e compassa a saudade.

Faz hoje 25 anos que morreu uma das pessoas que mais amei em minha vida, um amigo de mão cheia, alguém que marcaria em dez anos cada pedaço de minha alma.

O Luís era corajoso e desbravado, o mais corajoso de todos nós...

Não pelo singelo murro numa briga ou pela força que o poderia caracterizar, nesse aspecto tanto o Nuno Pereira Campos ou eu éramos mais adequados para a função mas pelo que a vida nos obrigou a ver, nesse significado de  coragem através de uma realidade que aquele menino de 16 anos teve de confrontar.

Guardo a primeira conversa que tivemos sobre esse maldito cancro que te perseguia...

Guardo o teu olhar, o meu tremor, o nosso abraço, esse pequeno instante que se tornou eterno.

Guardo a minha espera à porta do Curry Cabral para ganhar coragem para entrar naquele famigerado quarto onde lutavas tão bravamente...

E era eu que precisava de coragem?

Guardo cada silêncio que nos chegava, era o nosso mundo, cada vez que após uma sessão de quimioterapia te punhas a caminho, na tua BWS, para vir almoçar comigo ao Dom Pasolini em Picoas.

"Meu querido amigo!"

Guardo o olhar de minha Mãe no dia em que partiste, assim como as lágrimas de meu Pai.

Guardo a última vez que estivemos juntos...

Sendo que imaginar a tua morte seria para mim impossível, no intimo sabia aquilo que lutava para desvalorizar, acreditando que a maldita doença jamais te iria vencer.

Sempre a teu lado nesse campo de batalha acreditando que a nossa esperança seria a única verdade possível.

Perdemos.

Tenho saudades tuas, mesmo 25 anos depois, tenho saudades do tempo em que era possível pegar no telefone e ligar, ouvir a tua voz e desabafar, acreditar e sonhar num futuro carregado de ilusão.

Meu querido Luís Miguel sou hoje um homem com mais dúvidas do que certezas, com mais receios do que bravuras, com mais saudades e poemas, porém nesse viajar que se tornou esta vida, este continuar de dias e noites, tenho como certo que o nosso encontro, naquela sala de aula, pequenos e traquinas, se tornou num dos mais importantes momentos de minha vida.

Sem ti não tinha feito nenhum sentido.

Até um dia, numa outra vida, daqui a muitos anos...

Com amizade; do sempre teu,

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

23.09.21

 

 

 

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Nos retratos de um tempo;

vivem tantos que desconhecemos

que conhecendo guardavam segredos

novelas e enredos

que se perpetuam.

 

Nos retratos ao vento;

esvoaçando na correria

se soletram estrelas e firmamentos

de angustias e alegrias.

 

Olhos tristes e solarengos;

como tardes de verão

fantasmas e desamores

amarrados à velha canção.

 

E em todos os retratos;

se repetem as histórias

letras soltas na eternidade

de tamanhas memórias.

 

Retratos e mais retratos;

folhas de papel

segredando em lágrimas de tinta

o verdadeiro significado da palavra...

 

Saudade.

 

 

 

 

 

 

26.02.21

 

 

 

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A vida é misteriosa, assim como, misteriosa é por vezes esta imensa vontade de aqui escrever.

Em desabafar palavras que se seguram, sentimentos que ouso guardar em mim, para mim.

Enfim...

Só em mim.

Tenho dias em que penso mais nas despedidas que tive com aqueles que me marcaram...

Tem dias assim.

Por razões e desatinos, recordo vezes sem conta Minha Mãe e aquele sorriso que me acalentava, aquecia, trazia esse imenso amor que só ela me sabia dar.

Nada se compara a essa expressão maior...

Nada!

Um amor maior do que a extensa dimensão de um texto, do que a densidade descrita numa singela poesia, do que a incessante  busca por um encontro entre o pensamento e a palavra.

Foi através de minha Mãe que herdei este gosto pela escrita, pela forma poética de expressar o que dentro da alma habita, seja em grito, em sussurro ou simplesmente em silêncio...

Num silencioso desejo de desabafar.

Tem dias em que a tristeza é maior, tem dias que não...

Tem dias em que me recordo mais desse instante final, outros dias em que tudo me traz o brilho que sempre subsistiu em seu olhar.

Tem dias em que se esconde  a um canto, essa tristeza, sempre presente mas que se fingindo ausente, vai deixando a alegria voltar, o sorriso permanecer maior...

Tem dias que não, que essa tristeza se agiganta, volta a ser maior do que o bater da alma, regressando a dor, a invasiva e esmagadora dor.

Tem dias assim...

Mas no meio desses dias, pego numa caneta ou ligo o computador e aqui desabafo umas linhas, perco-me neste pedaço de mim.

Tem dias que sim...

Tem dias que não.

Mas essencialmente sobra a memória, a recordação constante de tantos e tantos dias passados, indescritíveis dias que trazem consigo a imensa certeza...

De que valeu a pena.

Valeu sempre a pena, minha querida Mãe.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

21.10.20

 

 

 

Faltou-te tempo para viver;

Faltou-te tempo para amar,

Faltou-te tempo para crescer,

Faltou-te tempo...

 

Sobrou tempo para esta dor;

Sobrou tempo para tamanha Saudade,

Nesse tempo sem temor,

De levar esta amizade...

 

Destino ladrão;

Vagabundo,

Cancro maldito,

Sem vergonha,

Nesse grito profundo,

Que se liberta...

 

Caminho inacabado;

Uma vida por cumprir,

Planos, desejos imaginados,

Sonhos a fugir...

 

Ainda recordo o teu olhar;

A esperança e a frustração,

Que por vezes tinha lugar,

Dentro do teu coração...

 

Tantos anos se cumpriram;

Já não voltam,

Não regressam,

Desde essa tua despedida,

Que não sara, ferida...

 

Não consigo trazer-te de volta;

Nem voltar a te abraçar,

Nessa espécie de revolta,

Que por vezes quer escapar...

 

Ainda sinto a tua falta;

Ainda recordo aquele abraço amigo,

Aquelas travessuras de criança,

Que passei contigo...

 

Saudades, eternas, tuas;

Amigo que sempre quis,

Dessas lembranças nossas;

Luís!

 

Meu querido Luís Miguel, parece que foi ontem, 24 anos se passaram desde que nos vimos pela última vez, nesta saudade que não finda, somente adormece ligeiramente, sempre presente na alma.

Os anos passaram e com eles sobram estas datas que nos marcam, o dia de teus anos, o dia de tua partida, por entre, tantas outras memórias que nos ligam à nossa infância.

Este poema escrito, para ti, há anos atrás, regressa a esta Caneca de Letras numa singela homenagem, num abraço fraterno deste teu "irmão" que sempre te quererá bem...

Um abraço tão imenso como esta saudade que nos separa.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

 

 

01.04.19

 

Num gesto meio perdido, por entre, as estranhas coincidências da alma, resolvi ir ao Facebook do meu antigo Colégio, lugar onde me formei, onde recebi as bases que me ajudaram a ser o homem que hoje sou.

Neste entrelaçado gesto, longe me encontrava de imaginar a notícia que receberia, numa tristeza só minha, tão minha, descrita levemente, por entre, as palavras que ali aprendi.

Morreu a Professora Jesuína, a minha professora...

Directora e fundadora do Colégio, minha directora de turma, professora de Português, inspiradora na língua e nos princípios que ainda tento praticar.

Morreu no dia 28 de Março, no dia em que fazia 99 anos...

Minha querida Professora Jesuína, parcas serão as palavras para lhe dizer o que por si sinto, nas memórias que de si guardo, neste carinho que por si nutro.

Saiba que a sua presença se faz notar neste meu gosto por escrever, por me perder nas palavras que consigo aprendi, nesse querer que me fez escolher a disciplina de Latim ou no Arroz de Atum que descobri através de sua mão.

Minha querida Professora Jesuína, recordo tantos momentos e tamanhas palavras, gestos seus que me tocaram sem fim, silêncios que marcaram intemporalmente.

Minha querida Professora, muito obrigado...

Por tudo sem excepção, pela expressão de amor em cada abraço, pelo carinho num sorriso, em cada castigo merecido ou palavra dura no momento exacto.

Por cada instante, sempre nobre, como não poderia deixar de ser, no exemplo do carácter, na correcção das atitudes, na excelência da educação.

Jamais a esquecerei, assim como, tenho a certeza que todos os seus alunos a guardarão onde, certamente, mais importa...

Junto ao coração.

Um beijinho do sempre seu...

Pipo.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

09.02.19

 

 

 

Já não sei sentir;

Nem desejo escrever,

Não conseguindo medir,

Este estranho sofrer,

Num querer a fugir,

Desesperado perder,

Que insiste em surgir,

Neste leve bater,

Da alma...

 

Porque é maior do que a ferida;

Esse pedaço de ardor,

Que arde de maneira desmedida,

Desmedidamente amor...

 

Mas já não sei...

Se um dia soube.

 

 

 

 

 

 

19.12.18

 

 

 

Tenho as mãos dormentes;

A voz tremula,

Um batuque insistente,

Que não pára de bater,

Dentro de mim...

 

Parece que é o coração;

Assustado com o que está a sentir,

Uma espécie de emoção,

Que persiste em fugir...

 

Insiste em escapar;

Por entre os dedos,

Como areia no mar,

Como o mais puro dos segredos...

 

Mas na folha em branco;

Na singela pureza desnudada,

Não sobra espanto,

Sobrando a certeza...

 

De que não existe beleza;

Maior...

 

Do que este tímido querer;

Chamado amor.

 

 

 

 

 

09.12.18

 

Como teria sido diferente se tivesse escolhido outro rumo, outro caminho a percorrer, outras voltas...

Se tivesse voado mais cedo e mais cedo escapasse pelo mundo, abraçando a imensidão de um destino, tão vasto como a imaginação mundana da alma.

Mas o que teria perdido?

Como poderia resgatar o que me preenche, quem me preenche?

Tantas interrogações, sendo que pelo meio das dúvidas sobram as certezas, as incertas querenças que se transformam em vontades, entrelaçadas saudades do que desconheço...

Ou que conhecendo não quis perder.

É assim a mundana caminhada de um olhar, de uma alma.

No íntimo desse existir que me pertence, sei bem que nada mudaria ou mudando...

Aqui queria, voltar, a estar.

Como diz a canção:

"Eu quero partilhar, a vida boa com você..."

Assim sem mais, sobra à imaginação, pincelar num quadro de aguarelas, os pequenos traços de um destino, curiosamente preguiçoso, carregado de uma saudade desse passado que adoraria voltar a viver.

Como escreveria minha Mãe:

"Viveria tudo novamente, se soubesse que me traria até ti."

Que saudades.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

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