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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Obrigado Nour Machlah!

 

Numa altura de gritos e crises em relação a migrantes e refugiados, nada melhor do que as palavras de Nour Machlah para nos acalmarem a alma, darem esperança ao olhar e verdadeiramente sentir orgulho nesta espécie de imensidão que se amarra ao "Ser" Português.

Num texto no Facebook que se tornou viral, Nour enalteceu o gesto de Cristiano Ronaldo, naqueles instantes finais do jogo entre Portugal e o Uruguai, onde o craque Português ajuda de forma fraterna Cavani a sair de campo.

O jovem Sírio compara essa situação, àquela que o mesmo viveu em 2014, tentando fugir de um País dilacerado por bombas e mortos, tendo então recebido uma bolsa de estudo do Estado Português, assim como, outros 50 companheiros seus, acolhidos nesta terra tão nossa.

As palavras de gratidão, amizade e amor, espelham a forma como este jovem foi recebido e integrado, num gesto que diz muito da generalidade deste nosso Povo...

Nour vai mais longe, recordando as dificuldades económicas e a crise que então atravessava o País para reforçar o gesto e dar dimensão ao peso que isso teve na sua vida.

" Nunca vou chamar este País de segunda casa, nunca vou chamar este povo de segunda família."

" Portugal é a minha casa e o seu povo é a minha família."

São estas as palavras com que Nour Machlah decidiu finalizar o seu texto, deixando pouco espaço para alguém acrescentar outras, tal a beleza e amplitude de tamanha gratidão.

No entanto, corro o risco...

Obrigado Nour.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

Vidas A Correr!

 

 

 

As bombas ensurdeceram o meu sentir;

A dor emudeceu o meu carpir,

A mágoa escureceu esse intenso colorir,

Fugindo sem fugir...

 

O sangue pintou cada morte,

Cada desaparecer ensurdecedor,

Destino sem sorte,

Fétido fedor...

 

Cada olhar,

De uma vida vazia,

Intenso desesperar,

Dia após dia...

 

Ainda não fiz doze anos;

Nem sei se os farei,

Por entre feridas e danos,

Perdendo tantos que amei...

 

E continua a vida a correr;

A vida a correr,

E eu parado,

No meio deste meu eterno sofrimento.

 

 

 

Pedaço Despedaçado...

 

 

 

Libertem-me das amarras;

Soltem-me destes gritos que me perseguem,

Arranquem os grilhões que me aprisionam,

Apaguem as imagens que me atormentam,

Tirem dentro de mim os olhares despedaçados,

Os pedaços de gente esventrados,

As almas desalmadas,

Que enfim se encontravam perdidas,

Naquelas estradas,

Reféns do seu destino...

 

Pedaços de gente;

Despedaçados...

 

Despedaçados;

Pedaços de gente...

 

Caminhei sem parar;

Olvidei sem olvidar,

Ousei continuar,

Deixando para trás,

O meu coração...

 

Viajando no meio da poeira;

Da cinzenta tristeza tão minha,

Vendo mortos na fogueira,

Num fogo interminável...

 

Fugi desse terror;

Mas aprisionado a cada um,

Daqueles que comigo se cruzaram,

Ali ficou também,

Um pedaço despedaçado,

De mim.

 

 

 

Crianças No Daesh!

 

 

 

Quando te vejo criança;

Nesses campos desalmados,

Cede a esperança,

Por entre os malfadados,

Sofrimentos teus,

Que escondidos no passado,

São assim revelados,

Pelas imagens cruéis,

Que não cansam de a todos contar,

Esse horror...

 

Como se pode soletrar a palavra Deus;

Aterrorizando aquelas almas,

Meninas e meninos,

Sonhos roubados,

Imberbes destinos,

Que não tiveram o direito de viver...

 

Cada vez que recordo aqueles campos de refugiados,

Sinto em mim,

Cada lágrima vossa,

E rezo para que enfim,

Jamais se repita.

 

 

Henrique Cymerman: Jornalismo De Excelência!

 

O documentário transmitido ontem, pela SIC, levado a cabo por Henrique Cymerman é um exemplo do ponto de vista jornalístico, uma peça de excelência num tempo onde o verdadeiro jornalismo de investigação parece em vias de extinção no nosso País...

Crianças no Daesh, revela o outro lado das vitimas deste regime de um Califa, Califado do mal, que vitima muito mais do que aqueles que perecem ao som das bombas suicidas que aterrorizam o nosso mundo ocidental.

Esta visão, dá uma dimensão intrínseca daquelas crianças preparadas para morrer, em nome de um ideal que não desejam, de meninas transformadas em objeto, ao serviço dos desejos daqueles soldados de Alá.

Ao ver aquela reportagem, recordei uma das primeiras vezes que me apercebi da credibilidade deste jornalista, um Português Judeu ou um Judeu Lusitano...

Numa casa clandestina, no auge de mais uma Intifada, ali estava Henrique Cymerman, algures na faixa de Gaza, entrevistando o Xeique Yassin, fundador e líder espiritual do Hammas, figura intrigantemente maquiavélica e que ali se dispunha a receber, a conversar com ele, apesar de Cymerman ser Judeu.

Cymerman consegue mover-se nestes territórios com a segurança que lhe advém da gigantesca qualidade do seu profissionalismo, da maneira séria com que aborda e respeita, entrevistados, assuntos, os vários lados de um mesmo problema...

Foi assim, quando o Papa o recebeu no Vaticano e acabou por o convidar para almoçar consigo, quando entrevista o Primeiro Ministro Israelita ou o Presidente Iraniano, quando se move em Telavive ou é recebido em Ramallah.

Crianças no Daesh é na verdade um relato impressionante, esclarecedor, sobre como o sofrimento Humano reaparece sempre, quando o fanatismo impera, sendo quase sempre as crianças os alvos mais fáceis para tais algozes.

Pelo meio ficam vidas roubadas, famílias destroçadas, sonhos perdidos, laços esquecidos, obrigados a obedecer às divagações de uns quantos que se sentem legitimados para falar em nome de um Deus, sem piedade.

Que venha a segunda parte...

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Muro da Vergonha

 

 

 

Tantos foram os quilómetros que percorri;

Os sonhos que deixei para trás,

Aqueles que perdi,

Perdendo-me sem querer...

 

Tantas as estradas que palmilhei;

As dores que esqueci,

As mágoas que guardarei,

Nesta amargura que vivi...

 

Tanta esperança perdida;

Vontade de ser,

Lágrima ferida,

Medo de morrer...

 

E depois de tamanha ilusão;

De caminhar sem parar,

Encontro este muro de desilusão,

Que me impede de continuar...

 

E aqui morro;

Na sombra deste muro da vergonha.

 

 

A Barcaça da Esperança!

 

 

Uma jangada molhada, cheirando o medo que se apoderou de todos nós, daqueles desventurados que impelidos por essa vontade maior, não deixaram de acreditar.

Os olhares baixos, cerrados, apenas ouvindo o bater daquela ondulação, dessas ondas de esperança que amiúde chegam, levando com elas esse futuro que anseio encontrar.

Ao meu lado uma jovem mulher, com um lenço à volta da cintura, onde adormece aquele menino, seguro, nos braços de sua mãe...

A noite se apodera do nosso destino, os sons que se calaram no meio de tantas bocas, ali fechadas, cumprindo as ordens, daqueles rudes mercenários, que nos guiam perante a incógnita escondida, desta lotaria a que chamamos de vida.

O barulho do motor é o único ruído permitido, naquela imensidão ruidosa, compassadamente reunida por entre o silêncio de tantos medos, que insistem em ficar...

Deixei tanto para trás...

Tanta miséria, tamanha fome, desespero e lágrimas mas também o amor por minha mãe, banhada na intranquila saudade, que já sentia antes mesmo de eu partir, a voz emocionada do irmão que ensinei a caminhar, os amigos que escolheram a certeza de ficar, no mesmo lugar, na mesma violenta obrigação de ceder à vontade, de algo melhor.

- Calados! Ouvia se a voz daquele homem com os olhos encovados e o rosto marcado pelas cicatrizes, de uma vida de contrabando...

Luzes apareciam ao longe, distantes e ao mesmo tempo, cada vez mais perto, mais presentes, no desespero que se instalava...

Por incrível que pareça, só ali no meio daquele mar, pela primeira vez se apoderou de mim, este pensamento de que era possível algo correr mal...

Algo impedir o mirífico momento em que pisasse terra firme, neste sonho por cumprir, chamado:

Europa!

Um tiro e depois outro...

Um grito e depois muitos outros...

Um terramoto naquela noite sombria, que irrompia sem cantar as doces fábulas da minha eterna esperança.

Abanava a barcaça...

Abanavam a barcaça, qual casca de noz engolida por aquelas ondas que aparentavam ser maiores do que o céu estrelado que por cima de nós, silencioso, observava.

Pés pisavam o meu rosto, sensação de um desgosto que ainda não chegara, mãos que insistiam em me prender os movimentos, sacudindo essa mistura de sentimentos, gritando em mim, vozes sem fim, nesse salto que nunca quis dar...

E no meio desse salto, amarrado àquela barcaça de esperança, entre vozes e mar, cai naquela água gelada, naquele negrume refletindo a noite, na calmaria que outrora ali estivera.

Vozes cada vez mais silenciosas, ruídos cada vez menores, engolidos na imensidão daquele mar.

Misturava me com aquela água, que me envolvia, circundava, seduzindo-me numa espécie de abraço que me esmagava o coração, acelerado, desnorteado, desiludido...

Adormeci, deixei-me levar, desaparecendo nas profundezas solitárias, gélidas e salgadas, deixando enfim, que o destino tomasse conta deste seu filho...

Até que uma mão me agarrou, resgatou, nessa distância que parecia minha, só minha...

Ao respirar novamente, o mundo chegou até mim, acordou-me, despertou novamente os meus sentidos, a minha eterna gratidão.

Mas ao olhar em meu redor, apercebi-me, que no meio de tantos gritos, de tantas vozes, de tantos olhares, de tantas vidas, de tamanha esperança...

Apenas eu, sobrevivi!

E agora, aquela barcaça de esperança, era apenas eu...

O legado de tantas almas, com os sonhos perdidos nesse mar.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Rostos...

 

Rostos carregados de sal;

Olhares, meio fugidos,

Almas que afinal,

Haviam desistido,

De ter esperança...

 

Rostos escondidos do tempo;

Esquecidos desse passado,

Onde talvez, por um momento,

Possam ter acreditado,

Que era possível ser feliz...

 

Rostos gretados;

Mostrando as marcas da dor,

Desse caminho iniciado,

Fugindo de um horror,

Que não consegue ser contado...

 

Rostos aprisionados;

Em imagens, fotografias,

Muitas vezes emoldurados,

Em exposições, romarias,

Mas nunca libertados,

Dessas noites e dias,

Que os perseguem...

 

E no fim de tantos rostos;

De tantas histórias por contar,

De tantos dramas e desgostos,

Eles continuam a marchar,

Esquecidos por entre as linhas,

Dos seus destinos!