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Caneca de Letras

Caneca de Letras

18
Jul19

Memórias Soletradas...

Filipe Vaz Correia

 

Nunca imaginei que doesse;

Como dói,

Que silenciasse,

O que ruidosamente ainda existe,

Que pulsasse,

O que prometia ser eterno...

 

Jamais desejei perder;

O que desenhei na imaginação,

Sentir morrer,

O que gritava o coração...

 

E nas entrelinhas de uma poesia;

Se guardará a memória,

Desse pedaço de história,

Ilusionada magia...

 

Findam assim de uma vez;

Palavras e sentimentos,

Os nossos momentos,

De outrora.

16
Jul19

Poema Do Desapego Ou O Desapego De Um Poema

Filipe Vaz Correia

 

Cada vírgula ou história;

Cravada no semblante,

Escondida na memória,

Torpor cavalgante,

Se eterniza nesse temor,

Que invade discretamente,

Esse esmagador fervor,

Que amarra imensamente,

Mas na curva de um destino,

Que se confunde à distância,

Esse querer ou desatino,

Ansiada ânsia,

E regressando sem partir,

Por entre frases elaboradas,

Vai chorando nesse ferir,

Nessas feridas bem salgadas.

 

Escrevinhando desordenado;

Gritando os silêncios,

Caminhando desencontrados,

Por esse encontro em suspenso...

 

Suspenso num desesperante assomo de liberdade.

 

 

08
Jul19

Rimas Em Poemas

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Busquei rimas em poemas;

Palavras em canções,

Procurei em cada teorema,

Perdidas emoções...

 

Quis soletrar cada pedaço de saudade;

Do que ainda não tinha vivido,

Essa interrogativa verdade,

Do que ausente seria perdido...

 

Desenhando o mundo colorido;

Numa tela encantada,

Sussurrando sem sentido,

O que sentido poetizava...

 

Busquei rimas em canções;

Dores e ilusões,

Amores e desilusões,

Tudo de uma vez...

 

Busquei rimas em poemas...

 

 

 

 

 

 

 

23
Jun19

Monólogo Poético

Filipe Vaz Correia

 

Não tenho nada a perdoar;

Nada para escrever,

Tudo para recordar,

E nada para esquecer...

 

Não tenho nada para silenciar;

Nada para reescrever,

Nada tenho para apagar,

Ou para me arrepender...

 

Nada quero soletrar;

Ou nos versos me perder,

Nunca mais te encontrar,

Nunca mais sofrer...

 

Nada poderá sobreviver;

Por entre a doce maresia,

Esse mar a revolver,

A ingénua poesia...

 

E sem mais nada para acrescentar;

Deixemos voar a melodia desse rufar do tambor,

A bela história terminar,

Extinguindo, silenciosamente, o prometido amor.

 

 

 

 

 

 

22
Jun19

O Meu Piano

Filipe Vaz Correia

 

O som do piano vai continuando a percorrer os corredores da casa, como se ainda nele tocassem, como se ainda a luz invadisse aquelas paredes, como se ainda aqueles cortinados fossem descerrados, como se ainda vida por ali existisse.

Nada mais do que o silêncio sobrevive ao tempo, àquele tempo que decorreu entre os radiosos anos que se extinguiram.

O som do piano, agora corcomido e velho, parece ganhar a batalha da eternidade, da solitária eternidade por entre aquelas bafientas paredes, onde só o pó parece reinar.

Nem mãe nem pai, muito menos avós ou amigos, filhos ou netos, jantares ou almoços, risos ou lágrimas...

Escuridão, arrebatadora escuridão, que se impõe esvoaçando entre o relógio de pé, parado nas horas, no tempo, sem asa ou momento, altivamente acompanhado pelos frescos no tecto, meio pálidos escondendo as vivas cores que outrora marcavam cada recanto daquele lugar.

Vidas e sonhos ali perdidos, desencontrados, naqueles cantos agora tristonhos, pouco risonhos, meio medonhos, como se aquele quadro não tivesse ali espaço, desabitado regaço de um destino.

Portas trancadas, janelas cerradas, palavras fechadas a todo o custo, encerradas a sete chaves nesse secreto lugar da memória...

Tudo ali tem história, secretamente entrelaçada em outra vida, talvez perdida, numa espécie de despedida eterna, sem fim.

O som do piano vai continuando a ecoar...

Ecoando como se nada mais tivesse importância, como se ainda os bailes ali tivessem lugar, como se ainda eu ali permanecesse.

O barulho das máquinas a chegar, o ruído da manhã a ecoar, as vozes de homens acelerando o epílogo de tantas noites e dias, pequenas melodias que prometiam não findar.

O piano calou-se...

As máquinas começaram a trabalhar e a cada instante insistentemente a derrubar cada parede de minha casa...

Naqueles escombros, por entre aqueles retratos se desvanece a minha empoeirada alma.

Já não toca o piano...

O meu piano deixou de tocar.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

21
Jun19

Palavras Ao Vento

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Palavras ao vento, num singelo momento, entrelaçando num instante esse perder constante que se assemelha na verdade com essa saudade, esquecida querença esvaída esperança, somando estranhezas, por entre as confundidas certezas, de mansinho soletradas, explicando as emoções sussurradas de uma vida. Palavras ao vento marcando um tempo, secreto segredo, disfarçando o medo que reluz no horizonte para lá de um monte, onde se esconde o sonho, outrora risonho e que agora... Agora permanece irrequietamente provocador, sem macula, sem dor, insistindo através do olhar nesse sentido amar descrito nos livros. Palavras ao vento, misto de arrependimento, sincera vontade de um tristonho sentimento, por entre perdido sentir, ameaçando fugir nesse breve abraçar que nos esmaga. Palavras ao vento, sempre elas, contando sem receio cada partícula segredada de um imenso querer. Como te quero? Quanto te quero?

Palavras ao vento celebrando este amor.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

20
Jun19

Só, Li, Dó

Filipe Vaz Correia

 

Só,li, dó;

Letra musical,

Pedaços de nó,

Nessa arte especial...

 

Numa letra da canção;

Outrora virgem iludida,

Soletrando só, li, dó,

Solidão desferida...

 

E cantando a plena voz;

Esquecendo a tamanha dor,

Reescrevendo essa pena atroz,

Que vai ardendo sem pudor...

 

E repetindo o refrão;

Escrito pelo poeta,

Vai soltando o coração,

A vontade já deserta...

 

Deserta e afinada;

Uma e outra vez,

A cantiga apaixonada,

De um singelo amor cortez.

 

 

 

 

 

 

16
Jun19

Os Solitários Versos De Um Poeta

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Não quero mais sorrir;

Doce forma de mentir,

Num ápice a fingir,

Disfarçando o ferir,

Que se instala...

 

Não quero mais caminhar;

Abrir os braços e voar,

Soletrando o divagar,

Tão imenso renegar,

De um abraço...

 

Não quero mais querer;

Nem tão pouco insistir,

Somente entorpecer,

O leve resistir,

Que ainda subsiste...

 

Entre pinceladas;

Nesse quadro vazio,

Palavras adiadas,

Como peixes num rio,

Se dilui a encruzilhada de tamanhos versos...

 

Solitários versos de um poeta.

 

 

15
Jun19

Confissões

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Quando se enterra algo que nos é querido, tão querido que nos custa respirar, sobra sempre um pedaço de amargura amarrada à incerta certeza do inevitável adeus.

Essa presença presente do que jamais voltará a ser vivido ou que outrora se desejava realidade, vai se diluíndo no tempo, diluíndo cada parte escrevinhada nas páginas, outrora, em branco...

Talvez esse doer arda mais por isso mesmo, por essa certeza que sendo agora finita, não deixou de ser o que mais importava.

Nessa dicotomia vive a dor, a ardente sensação de tristeza, repetidamente aterradora e cerceadora.

Tanto tempo passado, marcas indeléveis de um querer tão intenso e desmedido, um sentir maior que esmagava o pensamento, abraçava o olhar, guardava por si mesmo todos os instantes numa singela aguarela à beira-mar.

Ainda pulsa esse querer, talvez amor, mas já não flui da mesma maneira, da mesma ingénua forma.

O coração aprendeu a se defender, apercebendo-se da solitária penumbra de tamanhos afectos, recusando a alfinetada permanente, nesse ausente mundo que tardou em chegar.

Por entre palavras e silêncios, sonhos apagados, gestos que se estimaram, se perderam os retratos da memória, os escrevinhados dessa história, as verdades tão sinceras como intensas.

É nesse fim que fica o medo, medo desse vazio que sobra após esse nada que ameaça sobressair no lugar de um desmesurado amor, no entanto, não se encontra rancor, mágoa ou ressentimento...

Talvez indiferença, esforçada indiferença que alcança cada momento, cada passo dado de forma insegura.

A vida continua, o mundo caminha e nós ficaremos por aqui...

Para lá deste epílogo, sobram lágrimas, a triste constatação de tamanho texto, de letras e frases soletradamente inquietas, na certeza de que amanhã o sol brilhará, o mar voltará a partir e chegar, numa dança permanente, sorridentemente provocadora.

E o escrevinhador voltará a escrever, a sorrir, a escrevinhar outra vez o pulsar do seu coração.

E esse coração voltará a ousar sentir e voar...

Sem medo de voltar a cair.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

 

 

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