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Caneca de Letras

Caneca de Letras

A Minha Jangada De Pedra...

Filipe Vaz Correia, 05.05.21

 

 

 

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Mar acima, mar adentro, na minha jangada de pedra, no meio dessa imensidão de água, azul cristalino que me rodeia, num horizonte longínquo, sem fim.

Na minha jangada de pedra, navego por esse mundo a fora, numa viagem sem fim, por entre o que desconheço, sabendo somente que dentro de minha alma, pulsa a curiosa, curiosidade, de um solitário rapazinho.

Nessa solidão, onde me encontro, nascem e renascem fantasmas e animais, gigantes animais, que submersos aguardam por um instante para se revelarem, desnudarem a face e surgirem como um cabo das tormentas, numa sinuosa vertigem, inesperada.

Continuo a remar, sem olhar para trás, fixamente querendo flutuar sobre as águas, gélidas e ameaçadoras, buscando uma razão para interligar o sentir ao querer, o desejar ao temer, o recordar ao viver...

Sempre navegando, sempre continuando.

No meio desse interminável querer, enfrento medos e receios, perco pedaços de um passado desconhecido, meio perdido, por entre, as lágrimas de outrora...

Lágrimas que se foram embora, antes que delas me pudesse recordar, antes que essa parte de mim, escapasse da razão e partisse juntamente com a emocionada emoção de uma criança.

Eu sei lá, se continuarei a percorrer as águas da imaginação ou se nunca mais irei acordar de tamanho pesadelo, pesado desvelo que me amarra sem calar, que me afoga sem nadar, que se entrelaça numa singela jangada de pedra.

Num momento, tão pequeno, ali estou...

Num outro, tão velho, ali me encontro.

Passou, tudo passou, sem rasuras, sem retornos, sem regressões.

Numa jangada de pedra, comigo levo os livros de minha vida, capítulos sem fim do que vivi, por entre, romance e drama, comédia e ficção, desabafos soletrados que me pertencem.

São os livros de minha vida, contando a minha vida, flutuando nessa jangada de pedra...

Numa jangada de pedra.

Na minha jangada de pedra!

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

O Mar E Eu...

Filipe Vaz Correia, 25.08.19

 

Volto sempre ao mar como se dele nunca tivesse partido, exausto de percorrer os dias, incontáveis dias, que nos separam, todos os anos.

Sempre que regresso, submerso nessa água salgada, me envolvo numa espécie de regressão pelos secretos trilhos de minha alma, pelos silêncios que se misturam naquele momento, os barulhos que reaparecem em mim num abraço que se amarra.

Parece que dali nasci, que aí nasci, àquele lugar pertenço.

Nada é mais exacto ou perfeito do que um singelo mergulho, um inquieto perder e reencontrar, escapar e regressar, infinitamente sedutor...

Não existem vozes silenciosas ou mistérios perturbadores, medos ou receios que se transformem em gigantes Adamastores, somente lágrimas num mar salgado, coleccionando cada sentir, desmedido querer, sem explicação.

Nesse mar, aonde regresso, pareço sentir que fui feliz, saber que fui feliz, buscando nesse encontro cada palavra, cada som ecoando nesse infinito lugar, num entrelaçado beijo terno e solitário.

As memórias que chegam e partem, se aproximam e escapam, parecem brindar aos amores doloridos, aos sonhos perdidos, aos beijos esquecidos, numa mistura salgada de um impreciso destino.

Como é bom regressar aqui...

Misturo-me nesse Oceano repleto de vida, de vidas, vezes sem conta, repleto de olhares que se cruzam sem avisar, almas que se perpetuam sem quebrar, agridoces pedaços de um filme, nesses vários filmes que se repetem.

Aqui estou eu, no meio dessa imensidão de mar, onde anteriormente estive, onde outros estiveram, onde tantos ainda estarão...

Repetindo a magia, perpetuando esse mar que nos completa.

Nessa encruzilhada, banhando a alma, as várias almas, podemos esquecer ou recordar, querer ou resgatar os enigmáticos segredos do Universo.

Ali tudo faz sentido...

Mesmo ignorando onde começa ou termina essa busca pelo desconhecido destino, esse ansiado caminho de todos nós.

Ali me encontro em cada parte dessa tela por pintar pois de azul se preenche cada partícula desse céu e desse mar num encontro ao fim da tarde.

 

Filipe Vaz Correia

 

O Mar Da Minha Infância!

Filipe Vaz Correia, 05.07.19

 

Tenho saudades do mar, da água cristalina que nos cobre e revigora, nos inebria e faz renascer, nos seduz e desnuda.

Existe em mim um fascínio pelo mar, uma espécie de reencontro insistente nesse abraçar silencioso por entre o rebuliço da maresia.

Ao olhar para o horizonte, nessa mistura salgada de intensidade, se descobre desmedidamente esse viajar de memórias, sinceras lembranças...

Ali me perco, me encontro, insisto ficar, como se naquele lugar o mundo pudesse recuperar a sua ilusão.

Tenho saudades do mar, desse mar da minha infância.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

Noite Estrelada...

Filipe Vaz Correia, 18.12.18

 

 

 

Em alto mar espreitei o céu;

Desesperadamente estrelado,

Num brilho desmedido,

Que acendia em mim,

Um desejo sem fim,

De reencontrar...

 

O que não sei.

 

Nesse misterioso sentir;

Amarrei na alma,

Cada pedaço de estrela envergonhada,

Que brindava a minha curiosidade,

Numa mistura encantada,

De amor e saudade...

 

E em alto mar;

Sonhei...

 

Do alto desse mar;

Chorei...

 

No sobressalto daquele mar;

Acreditei,

Que poderia voar...

 

E voando;

Sobrevooei a tamanha eternidade,

Para te encontrar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Recantos...

Filipe Vaz Correia, 20.11.18

 

Sentado à Beira-mar, com essa imensidão diante de mim, escondendo os meus pés na areia molhada...

O escurecer vespertino que convida a nostalgia, numa dança imperfeita, que se entrelaça com a perfeita perfeição de um leve imaginar.

O mar vai e vem, regressa e se afasta, se aproxima e se distancia, abraçando intermitentemente a minha alma.

Na areia escrevo desconexamente palavras ao acaso, num sentido partilhar de algo que nem eu sei...

Fecho os olhos e deixo avivar os sons que parecem se libertar em mim, através da gigantesca força daquele mar azul.

Sou tão pequeno...

Tão insignificante parece ser um destino, por entre, o turbilhão  de vidas que se escapam na bruma das ondas, por entre esse encontro de passados e futuros...

Por entre este presente que é agora...

Só agora.

E já passou...

Se escapou, eternamente, sem regressar.

Mas naquele ondular primaveril se acalma a alma, se enternece o olhar, amacia o coração, cansado de amarguras, desventuras, agruras que se pintam nos céus.

Seria tão mais fácil, se por um instante, o tempo parasse e num momento, em cada regresso das ondas, pudéssemos escolher para a eternidade, aquele segundo, onde por ventura, fomos verdadeiramente felizes.

Talvez por isso, aqui volte sempre...

Sempre.

Esperando escolher esse momento, essa misteriosa vontade de não ter mais saudade...

Ou tendo, sacia-la de uma vez, amarra-la definitivamente e não mais chorar, misturando as minhas lágrimas nesse mar salgado que insiste em chegar.

Todas as lágrimas do mundo nessa imensidão de água a meus pés.

A meus pés...

Parte de mim.

Levantei-me...

Caminhei de volta para a realidade, para o mundo onde não cabem os sonhos, os pequenos contos de criança.

Caminhei, sabendo que ali voltaria, como sempre, carregado de uma desesperançada esperança, de me entrelaçar com essa eternidade perdida...

Perdidamente repleta de reencontrados reencontros, de anseios e planos, amores e danos, memoráveis sonhos ou recordações.

E a cada passo...

Me afasto desse regaço ou abraço, somente entregue à doce imaginação de cada espaço, em cada letra, por cada palavra, de cada linha.

No mar ou pelos recantos do coração.

 

 

Filipe Vaz Correia