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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Não Existe Tempo, Para O tempo Voltar Atrás...

 

São tantas as palavras que parecem se perder em mim.

Parecem perdidas aguardando que as escolha, sem escolher...

Que as pinte, sem pintar...

Que as soletre, sem falar...

Que as perpetue no papel, sem que o tempo as apague.

Neste misto de contradição amarrada à imensidão de memórias, se mistura a desmedida vontade, entrelaçada com os sonhos que ficaram, por entre, o tempo...

Essa viagem de vida onde, por vezes, se confunde o viver com a passagem dos dias e noites.

Sentei-me à janela, nessa janela onde tantas vezes ousei sonhar, vendo o mundo lá fora correndo sem parar.

Mas ousei quedar-me em espera, aguardando serenamente por um destino enevoado, com receio de que as asas, minhas, se quebrassem nesse voo desconhecido.

As estrelas permanecem nos mesmos sítios, mas não as mesmas, o céu permanece silencioso, talvez o mesmo silêncio, acompanhado pela lua...

A lua que continua altiva, brilhante, capaz de arrebatar um qualquer, perdido, coração.

Terá valido a pena sonhar, sem que fosse capaz de caminhar, por entre, esse desejo de fugir sem temer, de ousar sem voltar, de escapar destemperadamente...

Terá valido a pena?

Se calhar sim, se calhar não.

Nunca o saberei...

Pois não existe tempo, para o tempo voltar atrás.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

Já Foste Feliz?

 

Tantas vezes me questiono...

Onde será que fui feliz?

Verdadeiramente feliz...

Sentimento esse que mistura mistério, com a interrogação constante ou a busca insana pelo desejo impossível.

Tantas palavras, segredos presos à alma, momentos e instantes que se somam, sem que o tempo pare, sem que nos seja permitido voltar atrás, e novamente pintar esse quadro que eternamente fará parte de nós...

Será o nosso infinito destino.

Essa palavra, felicidade, que estranhamente rima com saudade, lugar imenso mas distante, onde ao longe, num mirifico horizonte, o tempo se encarrega de embelezar a memória.

Por vezes fica um bater mais acelerado do coração, um respirar mais ofegante por entre uma errante lágrima, por outras vezes, apenas um solitário reencontro com a perdida alma que nos completa.

É tão difícil explicar à infeliz felicidade, felicidade presente, o quão feliz estou neste instante...

Ou o quão triste estarei, por o tempo insistir em não parar...

Não ter parado.

Por vezes seria imensamente belo, parar por segundos o presente, degustando cada cor, cada cheiro, cada pedaço de nós, misturado com o contentamento maior que nos sufoca...

Seria tão bom, pedir ao futuro que aguardasse por um momento, para regressando ao passado, beijar alguém ausente nesta viagem finita.

Tantas coisas boas...

A mão segura de minha Mãe, o seu cheiro, o seu ternurento olhar...

A voz austera mas aconchegante de meu Pai, perdendo-se por entre as infindáveis histórias, que ainda hoje me moldam.

As saudades que eu tenho dos natais, em casa de meus Pais.

A praia de Odeceixe, onde passei maravilhosas férias de verão, onde me apaixonei e sorri, chorei e fugi..

Odeceixe.

Tantas e tantas vezes, tantas e tantas pessoas, tantos e tantos momentos, entrelaçados com essa palavra dificil de decifrar...

Felicidade.

Uma música a tocar, o abraço de um amigo, o beijo da pessoa amada, o olhar escondido e reflectido no espelho, só teu...

Somente teu.

Tantas e tantas vezes pensei ser feliz...

Tantas e tantas vezes me esforço por recordar que fui feliz, nestes pedaços de história, que fazem parte de mim.

Tantas e tantas vezes fui feliz...

Mas sempre passou.

Viva o futuro...

 

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

Perdida Inocência...

 

 

 

Vagas de mar;

De espuma e areia,

Ondas a gritar,

Essa força inteira,

Que invade devagar,

A dor derradeira,

Da minha perdida inocência...

 

Imagens escondidas;

Arrepios segredados,

Palavras repetidas,

Em quadros pintados,

Lágrimas esquecidas,

Amores adiados...

 

E secretamente;

Por entre as linhas de uma carta,

Discretamente,

Pelos traços de um quadro,

Insanamente,

Nos coloridos desejos de um sonho...

 

Vou recordando;

A perdida inocência,

Que me fugiu.

 

 

 

Adeus Adolescência...

 

Estive na festa de anos de um grande amigo, um almoço descontraído, bem aproveitado, 40 anos de histórias e recordações...

Um dia de encontros, reencontros, pessoas que há muito havia perdido, nos havíamos desencontrado, neste labirinto chamado vida.

Por entre conversas e opiniões, uma me desarmou, deixou estupefacto, desarmadamente incrédulo, perante a memória dessa minha meninice:

- Fechou o T-Club!

- Fechou... Deixei sair de dentro da minha espantada alma...

Perdoem-me o desabafo, mas aqui vai:

Cresci em Lisboa, e parte dessa minha descoberta da noite alfacinha, foi feita no T-Club de Lisboa, nesses momentos guardados por entre os segredos de uma adolescência feliz, pejada de amizades, de vagabundas imagens.

Há muito que havia compartimentado o trauma do adeus ao T-Club de Lisboa, assim como ao Stones, no entanto, juro que jamais me passou pela cabeça, que seria possível o T-Club da Quinta do Lago ou a Trigonometria encerrarem...

Na minha mente isso era impossível.

Era impossível na mente e no coração, por tudo o que ali vivi, por tamanhas histórias guardadas de tantos de nós, que perfazem a minha vida.

Mas fechou...

Mostraram-me o leilão de coisas à venda na Internet, pedaços de memórias minhas, de histórias de outros, de vidas.

Como se atrevem a desarmar o meu passado, num futuro, que jamais adivinharia?

Como encerram, os amores e desamores que vivi na varanda da trigonometria, os momentos em que o mundo me pertencia, na pista do T-Club?

Naquele espaço guardo pessoas que estimo sem tamanho:

Meu Pai, Jaime, Manel, Zé Miguel, Bordini, Daniela...

Não esquecendo o meu querido Tio Jaime, com quem ali partilhei algumas das melhores histórias da minha vida.

Tantos e tantos momentos, encerrados numa frase, num momento, numa vontade dos tempos, em alterar o que jamais imaginei ser alterado.

Ficam as memórias, os tempos áureos, a saudade que ninguém poderá apagar...

Mesmo que tenha de, finalmente, dizer adeus à minha feliz adolescência.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

O Primeiro Amor!

 

Queria que esta noite não acabasse;

Que a musica não parasse de tocar,

Que esta dança continuasse,

Sem parar,

Eternamente...

 

Queria que os teus olhos não mais me fugissem;

Que o tempo ficasse suspenso,

Que os segundos resistissem,

À viagem do futuro...

 

Queria prender-te junto a mim;

E não mais te deixar partir,

Neste ardor sem fim,

Que insiste em se fazer sentir...

 

Queria ter a certeza;

Que não me roubaria o destino,

O encanto e a beleza,

Deixando-me a tristeza,

Desse meu primeiro amor...

 

Queria tanto;

Como queria...

 

 

Aborto...

 

Tive o teu destino, em meu poder;

Decidi nada fazer,

Acabei por te perder,

Dei esse dinheiro, para te esquecer...

 

Fui eu que paguei;

Essa morte, a tua vida,

E achei que apaguei,

Sem apagar, tamanha ferida...

 

Era jovem, inconsciente;

Com a consciência de um cobarde,

E agora, bem presente,

Esta terrível verdade...

 

Tive medo, sem saber;

Ou talvez sabendo temer,

Que o destino não me iria perdoar,

Essa tristeza a recordar...

 

Penso sempre, neste vazio;

Que me persegue constantemente,

Esta dor, esse desafio,

De te saber ausente...

 

Como poderias ter sido;

A tua cara, minha expressão,

O orgulho hoje perdido,

Que invade o meu coração...

 

Se eu pudesse voltar atrás;

E apagar este arrependimento,

Preferia eu morrer,

Do que meu filho,

Não te ter!

 

 

 

Juventude...

 

Tenho saudades;

De não ter sono mas sonho,

De não ter medo mas coragem,

De nada me ser enfadonho,

Do horizonte me parecer risonho,

Sem dor, ardor...

 

Tenho saudades;

De tantas noites e de tantos dias,

Desse desejo ardente,

Me preencher de alegria,

E de voar constantemente...

 

Tenho saudades;

De estar sol ou a chover,

Dessas histórias a escrever,

Numa vida a viver,

Sem ter medo de morrer,

Tendo amigos para fazer...

 

Tenho saudades;

De olhar para o meu espelho,

E reconhecer aquele reflexo,

Aquele pedaço tão complexo,

De mim...

 

Tenho saudades, tuas;

Minha imensa inquietude,

Minha perdida juventude...