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Caneca de Letras

Caneca de Letras

25
Set19

Poderia Ter Sido Diferente? Ainda Bem Que Não Foi...

Filipe Vaz Correia

 

Espero sempre que o telefone toque...

Que seja a tua voz que se encontra do outro lado, nesse encontro perdido e que amiúde me invade, buscando reencontrar o doce timbre de um aconchegante passado.

Olho pela porta entreaberta, por entre, as frestas da janela nessa imaginada procura que não chega, não chegará e que se perdeu sem compreender o tempo que o tempo traz e leva, resgata e afasta, mata e esventra, em cada pedaço do que fica na desprendida memória.

Como poderia ser diferente?

Vezes sem conta ligo para aquele número gravado na memória do telefone, ouvindo repetidamente aquele gravador, como se algo, por um segundo, se tivesse alterado, modificado, sendo diferente, nesse perder que ainda amarga e dói, queima e arde, esmaga e faz arrepiar.

Tenho saudades...

Por vezes esqueço, mesmo não querendo, pois o tempo na sua infinita crueldade, acaba por atenuar a dor, acalmar o ardor que constrói a solitária imensidão de um desesperado vazio...

Mas aqui regresso.

Como poderia ser diferente?

Como poderia?

Se de cada vez que respiro, o faço também por ti, se de cada vez que sorrio, o faço também contigo, se de cada vez que choro, contigo o faço no pensamento.

Se de cada vez...

Se de cada vez que te procuro e não te vejo, sei bem que foi verdade, a crua realidade de uma despedida eterna.

Mas mesmo assim continuo a procurar, a questionar, a tentar reencontrar cada momento marcante nesse destino partilhado, desencontradamente preciso.

Poderia ter sido diferente?

Se calhar não...

Porque foi intensamente perfeito.

Amo-te, minha querida Mãe...

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

06
Nov18

Carta De Um Filho...

Filipe Vaz Correia

 

Minha querida Mãe...

Tantas vezes te escrevi e tantas parecem ser tão poucas, para corresponder a tamanho querer...

Essa forma de amar que me ensinaste no gesto, em cada gesto, em cada pedaço desse amor sentido por mim, em mim, somente em mim.

Vi-te chorar, enquanto, para todos sorrias...

Também isso, contigo, aprendi.

Vi-te, sendo fiel a ti mesma, e como essa dignidade me bastava...

Escrevendo, escrevendo, reescrevendo, sempre descarregando em cada letra, um pedaço de ensinamento, mesmo que de forma desgarrada, desesperado contentamento do Ser.

Minha amada Mãe...

Numa carta pejada de saudade, estreita-se a singela vontade de gritar:

Que jamais te esqueço, te esquecerei...

Não por vontade ou escolha, simplesmente, porque é impossível esquecer quem nos pertence, quem inesquecível se torna como o nascer de um dia, a cada passo de tempo, nesta intemporal jornada de tantas vidas.

Serei sempre teu, eternamente teu, tão teu...

Como meu, sempre foi esse amor teu.

Roubaram-me a tua presença, o teu cheiro, esse sorriso inteiro...

Mas a lembrança minha, essa que me alimenta, guarda-te, preserva-te, protege-te.

E nesse lugar, só nosso, recordar-te-ei como sempre te vi...

Encantado com o encantamento de tão belo olhar.

Amo-te.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

 

03
Jun18

Saudades Tuas...

Filipe Vaz Correia

 

Minha Mãe...

Num dia como este, 2 de Junho, dia dos teus anos e também da Avó Alice, as saudades tornam-se maiores, apertam um pouco mais, sendo que jamais desaparecem, se esquecem.

Tantas coisas para escrever, te dizer, nesta distância de oito anos, quase oito anos que marcam a partida tua, que se tornou nossa separação imposta...

Tão dolorosa como sufocante, numa mistura constante, constantemente na alma minha, que eternamente será tua.

Tenho saudades de tudo e de nada, dos momentos de risos e tristezas, dos olhares só nossos e daqueles silêncios ruidosos, escondidos por entre as gargalhadas sonoras que apenas a nós pertenciam.

Tenho saudades do cheiro aconchegante, que se tornou no aconchego que sempre conheci, do calor da tua mão, da fragilidade da tua voz, que sendo frágil escondia a firmeza do carácter que sempre em ti apreciei...

Tenho saudades do carinho, do amor incondicional que sempre soube em ti ter, da segurança imensa que somente contigo parecia existir, da imensidão de dias e noites só nossas que agora parecem pequenas...

Parecem distantes e ao mesmo tempo tão poucas.

Quase oito anos...

De saudades, soletradamente saudades que jamais acabarão.

Neste dia que sempre foi o teu, deixo-te aqui através deste jogo de palavras denominado de escrita, amor esse que também de ti recebi, este infindável amor que sempre te pertencerá...

Um beijinho deste teu filho que eternamente te amará.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

27
Dez17

Carta Para O Meu Filho!

Filipe Vaz Correia

 

Estou deitado numa cama de papel...

Perdido nos pensamentos que um dia me pertenceram, pertencendo àqueles que fazem parte de mim.

Nos teus olhos meu filho, nesse olhar que um dia foi de teu Bisavô, de teu Avô e meu...

Nesse olhar que busco, encurtando as diferenças que nos separaram, tento encontrar as palavras que teimam em se calar, as justificações que não sou capaz de encontrar, as desculpas que nunca soube dar.

É difícil expressar o quanto errei, o quanto falhei, sem saber o que essa palavra significava, sem compreender o quanto em mim, te pertencia.

Um dia meu filho, serei capaz de gritar ao mundo, sem que grite, verdadeiramente, o que significa este amor que se prende despudoradamente.

Estou deitado numa cama de papel...

Onde está escrevinhado cada pedaço deste ardor, desta dor destemperada, que um dia nos afastou.

Tantas palavras por dizer, sem esquecer, o que esquecido nos separa, o que separando nos amargura, o que amargurando nos impede de sorrir.

Ao ouvir a tua voz...

Essa voz que me embarga, silencia, amarra, sinto como nunca senti, o que expressa a alma entristecida, entristecidamente feliz, por te ouvir.

Pela primeira vez meu filho, quero ouvir...

Pela primeira vez, quero sentir as palavras que são as tuas, a voz que te pertence, o sonho guardado em cada linha das tuas frases, embevecidamente amarrando o soletrar deste destino.

Tantos pecados que não expurguei, tantas duvidas que jamais contei, tantas hesitações que nos separaram.

No fim destas linhas, por entre os caminhos que ouso aqui percorrer, fica a memória, deste beijo dado em palavras, deste afago entregue em prosa, deste imenso orgulho por ti...

Nestas linhas, adormecem as palavras que nunca fui capaz de te dizer:

Amo-te, filho meu.

 

25
Out17

Cartas Do Meu Passado.....

Filipe Vaz Correia

 

Através dos olhares de outros, viajo vezes sem conta por entre as realidades esquecidas, por entre vidas esvaziadas de presença, mas imensas no sentido, naquele sentir eterno.

Descobri cartas e mais cartas de um passado distante, com mais de 100 anos...

Cartas e postais, palavras soltas e apertadas, saudades distantes e lágrimas disfarçadas, em cada uma das suas letras esborratadas, de uma qualquer linha, daquele postal.

Naquelas cartas encontrei a minha Avó, minha Bisavó, amigas e sonhos, desilusões imprecisas, numa mistura de vida, cumprido destino.

Encontrei as saudades imensas de minha Mãe, uma menina que desconhecia que de si viria, aquele que nesse instante lia, palavras e sentimentos explanados em tão antiga carta...

Presente carta...

Voz que tanto amo.

Cartas e mais cartas, impregnadas dos meus, cheias de mim.

Porque o que somos nós senão esse pedaço, demasiados pedaços, daqueles que um dia, ao longo de vários destinos, nos pertenceram...

Serão eternamente parte de nós.

Assim continuo aprisionado, às letras, aos desabafos, à formalidade inerente a tempos que já passaram...

Continuo buscando partes de mim, que ainda não conheço.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

07
Mai17

Dia da Mãe!

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Dia da Mãe;

Que tive e perdi,

Que guardo dentro de mim,

Em cada memória,

Passado sem fim...

 

Desse amor sem igual;

De tantos beijos eternos,

Carinho maternal,

Momentos fraternos,

Saudade imortal...

 

Das nossas palavras, da tua voz;

De cada chegada ou adeus,

Desse imenso nós,

Meu e teu...

 

Do teu olhar;

Embevecido,

Caloroso aconchegar,

Algures perdido,

Na vontade de te abraçar,

Abraço desmedido...

 

Na partida;

Que te levou ao entardecer,

Na ferida,

Que ficou sem esquecer,

Na despedida,

Que não desejei acontecer,

Na sentida,

Vontade de te rever...

 

E doendo sem parar;

Vou escrevendo este poema,

Apenas para declamar,

O quanto te amo!

 

 

 

 

06
Mar17

O Filho Do Meu Coração...

Filipe Vaz Correia

 

Não nasceste do meu ventre;

Mas da minha alma,

Não te esperei nove meses,

Mas uma vida inteira,

Não te reconheci ao nascer,

Mas na esperança desse encontro,

Não soube do teu sofrimento,

Até te encontrar...

 

Não descobri essa palavra;

Até te conhecer,

Não senti a amargura,

Até ter medo de te perder,

Não entendi a ternura,

Até perceber,

A desentendida procura,

De te ter...

 

E assim;

Encontrada com os meus desencontros,

Com os recantos de mim mesma,

Descubro em cada sorriso teu,

Parte desse destino,

Só nosso!

 

 

22
Fev17

Medo...

Filipe Vaz Correia

 

Esse medo que tinha de te perder;

Chegou...

Essa ausência a temer,

Ficou...

O receio a crescer,

Recordou...

Aquele pesadelo que sem saber,

Me levou,

Até à minha feliz infância...

 

Como me libertar desta dor;

Que ilude a minha expressão...

Asfixiado por tamanho temor,

Que regressa ao meu coração...

Recordando o horror,

Naquele serão...

Que não cala o amor,

Calada imaginação...

 

Sobra este medo;

As sombras desse dia...

Sobra o segredo;

Por entre a solidão que arrepia...

A intensa tristeza,

Que habita em mim...

 

Porque ainda te vejo;

Presa naquele olhar,

Que tanto me queria falar...

 E que tanto,

Eu queria abraçar!

 

 

01
Fev17

Aborto...

Filipe Vaz Correia

 

Tive o teu destino, em meu poder;

Decidi nada fazer,

Acabei por te perder,

Dei esse dinheiro, para te esquecer...

 

Fui eu que paguei;

Essa morte, a tua vida,

E achei que apaguei,

Sem apagar, tamanha ferida...

 

Era jovem, inconsciente;

Com a consciência de um cobarde,

E agora, bem presente,

Esta terrível verdade...

 

Tive medo, sem saber;

Ou talvez sabendo temer,

Que o destino não me iria perdoar,

Essa tristeza a recordar...

 

Penso sempre, neste vazio;

Que me persegue constantemente,

Esta dor, esse desafio,

De te saber ausente...

 

Como poderias ter sido;

A tua cara, minha expressão,

O orgulho hoje perdido,

Que invade o meu coração...

 

Se eu pudesse voltar atrás;

E apagar este arrependimento,

Preferia eu morrer,

Do que meu filho,

Não te ter!

 

 

 

26
Jan17

Mãe...

Filipe Vaz Correia

 

Poesia na ponta de uma pena;

Onde recordo esses sonhos,

Soltando-se em mais uma cena,

Guardada na minha memória...

 

Uma vida de sorrisos e alegria;

Recordações repletas de amor,

Dessas noites e desses dias,

Em que choro sem pudor...

 

Queira o divino e a sorte;

Que jamais tal tristeza sinta,

Que nunca mais presencie a morte,

Nem que a vida me minta...

 

Não podia permitir;

Que tal perda fosse verdade,

Mas o que poderia eu sentir,

A não ser tamanha saudade...

 

Ó triste partida;

Ó fim maldito,

Que puseste um ponto à vida,

Àquele amor infinito...

 

Ainda hoje, te vejo;

Ó minha Mãe, querida,

Ainda hoje, te beijo,

Nesse sonho, ferida...

 

Até sempre, com amor;

Mãe, com carinho,

Ninguém calará esta dor,

Do teu filho, Pipinho!

 

 

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