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Caneca de Letras

Caneca de Letras

18
Set19

A Menina, O Cão, A Cegueira...

Filipe Vaz Correia

 

O mundo visto a cores ou as cores que se transformam em preto, branco, nada...

Estava a tomar o pequeno almoço, tardio, quando chegou um grupo de três meninas e um cão.

Olhei enquanto escrevia uma ou outra palavra, num texto que acabaria por apagar...

E ali, num segundo, o meu maior medo, não sei se maior mas um dos mais antigos, se dispunha diante do meu olhar, num quadro transparente de um vazio assustador.

A cegueira!

Uma daquelas meninas, jovem senhora para ser exacto, era invisual, completamente amarrada a esse mundo que parecia não lhe toldar o caminho, impossibilitar o destino, prender o passar do tempo que lhe pertence.

Não consegui deixar de estar atento aos pormenores, numa espécie de atracção pelo absoluto medo que desde criança sempre me perseguiu.

O cão, um labrador preto, ali estava, deitado a seus pés, impecavelmente comportado, parecendo saber, antecipadamente, cada movimento...

O pé que balançava, a mão que amiúde o acarinhava ou até o preciso instante em que lhe dariam o tiro de partida.

Olhei para ela com esse misto de admiração e receio, admirando cada pedaço de normalidade traduzida em seu rosto, plasmada em cada palavra por si trauteada e ao mesmo tempo esse receio pelo medo que sempre senti...

Existe uma coragem naqueles gestos, uma ternura na extensão de um olhar amarrado àquele animal que se transforma no porto seguro do destino de alguém.

Não pude deixar de olhar, de sentir, de escrever...

Escrever sem parar, retratando aquele ardor triste, aquele corajoso cenário de uma beleza sem fim.

Neste entrelaçar que une aquelas duas vidas, Cão e Menina, resiste a mais bela conjugação de cores, desenhadas na imaginativa imaginação de um conto...

De uma vida.

Levantaram-se e partiram, de “mãos” dadas, enquanto o meu olhar os acompanhava nesse rumo infinito pelo Campo Pequeno, num quadro tão intenso como a imensidão desse mundo que só a eles pertencerá.

Tantas cores e sonhos que desconhecemos conhecer...

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

13
Ago19

As Revolucionárias Letras Da Minha Imaginação

Filipe Vaz Correia

 

Se as letras pudessem se misturar, sem regras, que palavras nasceriam?

Que pedaços de sentir se formariam?

Quantos significados brotariam desse papel para fazer nascer um outro olhar, um outro buscar na imensidão de um texto?

Palavras que inundariam a imaginação, nesse espaço estelar que cobriria toda a galáxia de uma qualquer Caneca de Letras, repleta de sonhos e atrevimentos.

Vírgulas e pontos destituídos de controlar essas letras, palavras que se despiam de medos e anseios, livremente voando pela folha em branco, como se fossem, somente, as donas de cada nota ou apontamento, de cada poema ou prosa, de cada declaração de amor.

As letras...

Sempre elas aparecendo na minha mente, pejando a minha imaginação dessa lata construção de palavras que repetidamente me invadem, sem calar, invadindo cada pedaço desta ousada forma de querer, esta sedutora querença que me amarra.

Letras e mais Letras despejadas nesta Caneca, numa partilha desgarrada, compulsiva, desse mundo que em mim habita.

Letras e mais letras...

Nesse mundo de imaginação que desde sempre me deslumbrou.

Letras...

Somente Letras...

Sempre, desnudadamente, letras.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

15
Jun19

Confissões

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Quando se enterra algo que nos é querido, tão querido que nos custa respirar, sobra sempre um pedaço de amargura amarrada à incerta certeza do inevitável adeus.

Essa presença presente do que jamais voltará a ser vivido ou que outrora se desejava realidade, vai se diluíndo no tempo, diluíndo cada parte escrevinhada nas páginas, outrora, em branco...

Talvez esse doer arda mais por isso mesmo, por essa certeza que sendo agora finita, não deixou de ser o que mais importava.

Nessa dicotomia vive a dor, a ardente sensação de tristeza, repetidamente aterradora e cerceadora.

Tanto tempo passado, marcas indeléveis de um querer tão intenso e desmedido, um sentir maior que esmagava o pensamento, abraçava o olhar, guardava por si mesmo todos os instantes numa singela aguarela à beira-mar.

Ainda pulsa esse querer, talvez amor, mas já não flui da mesma maneira, da mesma ingénua forma.

O coração aprendeu a se defender, apercebendo-se da solitária penumbra de tamanhos afectos, recusando a alfinetada permanente, nesse ausente mundo que tardou em chegar.

Por entre palavras e silêncios, sonhos apagados, gestos que se estimaram, se perderam os retratos da memória, os escrevinhados dessa história, as verdades tão sinceras como intensas.

É nesse fim que fica o medo, medo desse vazio que sobra após esse nada que ameaça sobressair no lugar de um desmesurado amor, no entanto, não se encontra rancor, mágoa ou ressentimento...

Talvez indiferença, esforçada indiferença que alcança cada momento, cada passo dado de forma insegura.

A vida continua, o mundo caminha e nós ficaremos por aqui...

Para lá deste epílogo, sobram lágrimas, a triste constatação de tamanho texto, de letras e frases soletradamente inquietas, na certeza de que amanhã o sol brilhará, o mar voltará a partir e chegar, numa dança permanente, sorridentemente provocadora.

E o escrevinhador voltará a escrever, a sorrir, a escrevinhar outra vez o pulsar do seu coração.

E esse coração voltará a ousar sentir e voar...

Sem medo de voltar a cair.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

 

 

05
Jun19

Bom Dia Amor!

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Na minha alma vazia;

Nesse recanto de um dia,

Se ouve o som da maresia,

Como versos de poesia,

Hesitando por entre a vociferia,

Agitada calmaria...

 

Nessa desnudada parte de mim;

Confundidas lágrimas sem fim,

Se impõe esse reflexo empedernido,

Ardor desmedido,

Que grita intensamente,

Arde ardentemente...

 

E por entre as letras de uma canção;

Cravada na desgostosa memória,

Se apaga o coração,

Apagando a velha história...

 

E fugazmente ao luar;

Encerrando a insistente voz,

Ninguém irá recordar,

Essa parte de nós,

Que um dia ousou amar...

 

Ousou amar.

 

 

 

 

 

 

24
Mai19

Camões e Chico: Uma Infindável Dança Poética...

Filipe Vaz Correia

 

Chico Buarque da Holanda venceu o Prémio Camões 2019...

Ao receber esta notícia senti aquela sensação de pertença que só os grandes génios conseguem transmitir.

Não poderia estar mais distante de Chico Buarque ideologicamente, no sentido político da coisa, pensando diferente, sentindo diferente, posicionando-me quase sempre nas antípodas do seu pensamento político.

No entanto, a arte tem destas coisas, a mistura da beleza e pureza de um artista é fazer encurtar etapas, amarrar proximidades, entrelaçar sentimentos de forma discreta mas intensa, certa mas carregada de uma incerteza que nos faz suster a respiração.

Chico Buarque era ouvido em minha casa, nesse local conservador mas sempre aberto à genialidade de todos, com precisão, com insistência, com um intemporal gosto que até hoje me persegue.

Nesse berço, que era o meu, Chico foi Rei, acompanhado por Vinicius, Drummond de Andrade, Caetano, Bethânia, Elis Regina, entre outros que nos chegavam do outro lado do Atlântico, brindando através da língua Portuguesa  a esse esplendor maior de escrevinhar.

Parabéns Chico Buarque...

Parabéns Poeta.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

 

12
Jan19

Beijo Na Alma...

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Uma partilha de dor;

Dolorido tormento,

Num momento, um ardor,

Noutro sofrimento,

Caminhando sem pudor,

Despudoradamente ao vento...

 

Por entre a ventosa timidez;

Que insiste em chegar,

Com tamanha desfaçatez,

Se amarra ao olhar,

E de quando em vez,

Se atreve a magoar,

Esse vazio sem tamanho...

 

Porque é vazio;

O que esburacado permanece,

O que do outro lado de um rio,

Levemente se entristece...

 

Porque é vazio;

O que sem sentido,

Fere,

O que proibido,

Mata,

O que desmedido,

Transborda...

 

Seja loucura ou ternura;

Sede ou amargura,

Desejo ou aventura,

Fel ou candura...

 

E da salgada maresia;

Vai fugindo a mais doce lágrima,

Como letra em poesia,

Como beijo na alma.

 

 

 

 

25
Set18

Linhas, Traços, Desenhos E Rabiscos...

Filipe Vaz Correia

 

Escrever uma carta nem sempre é fácil, ficando pelas entrelinhas, tantas vezes, letras perdidas, palavras meio feridas e moribundas ideias que permanecerão soltas por entre o papel.

A cada linha se encontram virgulas e "entretantos", desconexas vontades...

Em cada parágrafo uma mudança de linha que nem sempre representa uma mudança de texto, de sentir, de querença.

Por entre a tinta que acarinha cada palavra se entrelaçam gritos e silêncios, memórias e saudades, jamais desnudadas por completo.

A complexidade de escrever uma carta, quando ela se pinta da mesma cor da alma ou segreda o que habita no coração, será esse desvendar do Ser, esse despir da tímida alma.

Num abraço em forma de desenho ou num carregado adeus desenhadamente derradeiro, se perde a temporalidade que se transformará nessa intemporal inevitabilidade...

Da intemporalidade do que escrito está.

É assim mais difícil, por vezes, escrever do que gritar...

Falar com esse espelho de nós mesmos que se reflecte a cada instante quando revês o que se foi libertando de ti, ganhando forma, cor, intensidade.

E como por vezes é belo?

Outras dolorosamente belo?

Outras ainda...

Apenas vazio.

E assim neste desabafo em forma de carta se revê a tímida desesperança, carregada da imensa esperança que se prende a quem escreve...

Numa carta repleta de linhas, traços, desenhos e rabiscos, salpicados com uma pitada de poesia.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

17
Set18

Voando Pelas Estrelas!

Filipe Vaz Correia

 

Olho para as estrelas...

Só.

Com o cair da noite, vislumbro em cada uma delas pequenos momentos tão meus, alguns que esforçadamente gostaria de esquecer mas que se avivam, assim como, aviva a tamanha dor que se prende à memória, desgostosamente reluzente em cada pedaço de luz que nessa noite me preenche.

Mas também sorrisos, momentos imprecisos, melodias desafiantes, beijos asfixiantes, abraços inebriantes, querer...

Esse querer que apenas naquele momento, nesse pedaço de tempo em que suspenso parece estar o mundo, soletra devagarinho um silêncio profundo transformado em ruído...

Silencioso ruído dos nossos corações.

Como parece simples escrever, deixar o coração soletrar estas palavras...

Este conjunto de frases que insistem em soltar-se e nelas esvoaçar a imensa vontade de dizer que te amo.

Olho para as estrelas...

Só.

Sorrindo desmedidamente somente porque na minha memória permanece intacto esse cheiro teu, esse sabor teu, esse entrelaçar tão nosso.

E nessa memória...

Tudo será intemporal, meu amor.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

10
Mai18

Tantas Estrelas...

Filipe Vaz Correia

 

Todas as estrelas caídas no chão, transformadas em pedra da calçada, sem brilho, sem luz, sem vida...

Todas as estrelas do céu se desprenderam, perderam as invisíveis asas que as sustentavam ali em cima, no alto dos sonhos, tão perto de Deus.

O vento intensificava a sua vontade, arremessando a saudade de um brilho que se esfumou, extinguiu.

A escuridão abraçava o horizonte, carregando de desesperança o olhar de todos, os que sem pressa, se afundavam no breu...

Num breu desesperante que insistia em arrancar dos silêncios, o injustificado sentido desse destino.

Caminhei por entre esse silêncio, por entre tantas estrelas mortas, mortificadas, esquecidas desse sentido que outrora parecia eterno.

Como não chorar, deixando que dentro de mim se liberte a inesperada razão, para que continue a bater esse coração meu, perdido por entre as estrelas que insisto em descrever...

Por entre o brilho ausente que insisto em referir...

Por entre essa estranha dor que aumenta sem parar, que não pára de aumentar, que desmedidamente me sufoca sem silenciar o grito surdo de tamanho abismo...

Como?

Caminhei sem olhar para trás...

Como se lá atrás, ficasse guardada eternamente a mágoa, a indiferença de erros e contradições, de desejos perdidos, perdidamente apaixonantes.

Nada poderia mudar, nem o brilho das minhas estrelas resgatar...

Nada.

Continuei a caminhar, olhando para o céu, despido de tudo, coberto de nada, dos tamanhos nadas que constroem esta história...

Tantas historias que ficando por escrever, poderiam aqui encaixar.

Talvez um dia o meu céu volte a brilhar, a ter estrelas nele a cintilar, mas até lá...

Vou continuar a sonhar.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

18
Jan18

Um Mundo De Sabores E Palavras...

Filipe Vaz Correia

 

Nada é mais terapêutico do que cozinhar...

Ou melhor, nada é mais terapêutico do que escrever...

Adoro cozinhar, aquele singelo momento em que um conjunto de alimentos, misturados de acordo com a tua imaginação, acabam numa combinação perfeita, imprevisível, deslumbrante.

Umas simples favas transformadas em sabor alentejano, uma bela feijoada despertando o palato para danças imperfeitas, um insignificante hambúrguer, envolvido em mozzarella e tomate, deslizando por entre um piscar de olhos.

Um texto é também isso, um desafiar da folha em branco, a procura por um momento de inspiração, mesclado com a vontade de ousar, opinar, observar despudoradamente, despudoradamente questionando.

Um prato vazio, despido de sabores, é o sinonimo da folha em branco, esse questionar constante, interrogar opinativo da alma.

Adoro cozinhar, adoro escrever...

Mas o que verdadeiramente me dá um gosto imenso, é sentir no olhar daqueles que provam um singelo prato, ou lêem um tímido texto, o significado de tais iguarias, ou de tão hesitantes palavras.

E por entre um cozinhado ou uma sopa de letras, apresentada nesta Caneca de emoções, me realizo, realizando os simples anseios, de mim mesmo.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

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