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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Demência

Filipe Vaz Correia, 17.09.20

 

Estou voando para além do que seria imaginável, caminhando por entre o que não seria expectável, reescrevendo aquilo que não adivinhava escrito...

De mãos dadas com a intrínseca vontade de correr, correr sem parar, de pulmões abertos, respirando tudo de uma vez.

Nas entranhas da alma a querença de viver tudo intensamente, como se fosse o último pulsar de esperança, nessa correria de indiferença que nos circunda, nos entrelaça, nos espera.

Corro, corro imensamente na busca do prometido oásis, essa felicidade descrita na ingénua imaginação que um dia a todos iludiu, esse olhar pincelado de cores, sabores... amores.

O tempo...

Tic tac, tic tac, tic tac.

Os abraços agora perdidos, o afago agora esquecido, o gélido afastamento agora imposto, vai marcando a fria constatação desse solitário egoísmo cada vez mais marcado nos rostos do mundo, um fracturante partilhar que ameaça esse futuro desconhecido.

Estou voando para além do que seria imaginável, buscando esse amanhã que será sempre indecifrável, nas entrelinhas de um futuro ansiadamente melhor...

Até lá, se Deus quiser.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

 

Carta “Perdida” Nas Ondas De Uma Vida...

Filipe Vaz Correia, 02.05.20

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Antigamente...

Palavra crua, dura e sentida, meio perdida, inebriada, que reflecte o sentir pulsante do que ficou por viver ou sendo vivido se perdeu, esboroou, na penumbra do passar dos dias.

Não posso voltar atrás, não o posso fazer, nem reescrever cada pedaço de beijo entrelaçado, cada abraço embaraçado, cada olhar calado incapaz de soletrar esse amor esmagado por tanto, por tão pouco, por gigantes passos de outros...

Mesmo assim, escrevo silenciosamente as linhas mal escritas de um texto desgarrado, desgarradamente gritando à poesia a solidão de um destino desejado, emocionado, envergonhado, nebulosamente guardado nas melodias da velha canção.

Amar-te, sem reticências, foi mais do que um conto a meio da noite, um poema à beira-mar, uma bebedeira que surgiu na esquina de um sonho...

Amar-te é a palavra maior de um redesenhado desenho, um pincelar singelo, por entre, a solidão dessa imensa pintura no meio da multidão.

Tantas pessoas, tantos passos, tamanhas as palavras libertas no querer, nesse querer que se cala, esconde...

Mas sei que num recôndito lugar, distante, no horizonte de tantas vidas, ele sobreviverá, existirá sempre, longe de todos, perto de nós, mesmo que esse nós seja longínquamente difícil de decifrar.

Um dia...

Voltaremos a ser nós.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

União Europeia: Para Onde Caminhas?

Filipe Vaz Correia, 09.04.20

 

É com pena que aqui escrevo estas linhas...

Aquilo a que assistimos, por parte da União Europeia em tempos de Pandemia, sobre a forma como iremos todos responder à crise económica, é no mínimo deplorável.

Os Ministros da Finanças da U.E. conseguiram estar 16 horas reunidos para chegarem a nenhum consenso.

Quando olhamos para esse futuro que se aproxima, observando esta incapacidade do Euro-grupo em dar passos em frente, após Cinco reuniões, podemos infelizmente concluir que a Europa não se terá apercebido do seu moribundo estado.

A ausência de planos determinados e destemidos, de solidariedade ou construção comum, ameaça finalizar este projecto Europeu que nasceu na segunda metade do Século passado e que tanta prosperidade trouxe para os Povos Europeus.

Estou, cada vez mais, convicto de que a entrada para a União Europeia dos Países vindos do outro lado do muro de Berlim, assim como a Unificação Alemã, contribuíram para o bloqueio em que hoje vivemos, desequilibrando a balança de influência em relação aos Países do sul desta velha Europa.

A Unificação Alemã, unificação essa que muito beneficiou do apoio da U.E., acrescentou peso político e económico, tornando a Alemanha, não a RFA, o centro de decisão de toda a Europa, num desequilíbrio que retirou importância a França ou Itália nesse espectro de influência que servia de contra-poder.

Países como a Holanda ou a Áustria beneficiaram da proximidade territorial e política do seu vizinho, caminhando nesse divisionismo Europeu que lhes dá uma maior credibilidade nos mercados e empresas de Rating mas que esmaga a solidariedade e esventra o Futuro de todos.

Não perceber isto é persistir no erro que torna as pessoas cada vez mais distantes do projecto Europeu...

Admiram-se das taxas de abstenção em eleições Europeias, na casa dos 60%, 70% ou 80%?

Admiram-se?

É a resposta das gentes, vulgo Povo, a essa falta de orientação e fé neste caminho comum.

Nada aprendemos...

Nada parecem querer aprender.

Se continuarem sem respostas, Eurobonds, Coronabonds ou outro nome qualquer...

Mas se a União Europeia não aceitar a mutualização das dívidas soberanas dos seus Países, num plano comum, solidário e determinado, não restarão duvidas de que este projecto terá chegado ao seu fim.

Poderá definhar lentamente...

Mas definhará.

Uma "esquizofrénica" questão me persegue...

União Europeia, para onde caminhas?

 

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Gritar...

Filipe Vaz Correia, 20.11.19

 

Queria gritar...

Selvaticamente gritar...

No horizonte trancado esse querer que se liberta.

Queria gritar...

Selvaticamente gritar.

Nesta gruta onde me encontro, enjauladamente peregrino, peregrinadamente ansiando cada ritual carregado de hipocrisia, tão impiricamente ensaiado ao pormenor.

Queria gritar...

Selvaticamente gritar...

Mas no meio do pó, nesse pó transformado em quadro, não sobra espaço para sentimentos, emoções ou verdade.

Queria gritar...

Selvaticamente gritar...

As palavras, sempre elas, amordaçadamente cedendo às linhas do papel, a esse enquadramento sintomático que espartilha e esventra.

Queria gritar...

Selvaticamente gritar...

Mas não tenho força, não tenho voz, tão solitariamente sós na imensidão da folha em branco.

Queria gritar...

Selvaticamente gritar...

Mas não sobrou tempo nem momento para a tamanha vontade, nessa perdida saudade de um destino que jamais o foi.

Gritar...

Gritar!

 

 

Filipe Vaz correia