Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Caneca de Letras

Caneca de Letras

Sonho Meu...

 

Um frio imenso, intenso, amarrado a um vento que parecia cobrir todo o horizonte que diante de mim se encontrava e que ameaçava se tornar infinito.

Ao meu lado o vazio, a solitária solidão, neste caminho que necessito percorrer, impulsivamente buscando o que desconheço e que desconhecendo parece me pertencer.

Continuo sem parar...

Esforçadamente querendo, cerrando dentes, fechando os punhos, orando bem alto...

Bem alto dentro de mim, sem gritar ofegantemente, como queria fazer, deveria fazer ou desejaria sentir.

O manto branco que cobre o chão, onde enterro os meus pés, abraçados pela neve imensa que se formou...

Não tenho medos, tendo tantos, não tenho desesperos, estando coberto por eles, na imensidão silenciosa que me acompanha.

Olho para todos os lados em busca de um destino, buscando também, nesse destino, os fantasmas prometidos em cada pesadelo, a cada meu receio.

Não tenho medos...

Repito sem parar, tentando convencer a alma minha de que é verdade esta mentira que sinto, que não me aprisiona este tão grande silêncio.

O barulho do vento, dessa gigantesca presença ausente, parece apoderar-se sem dizer, de tudo e ao mesmo tempo de nada, de mim e de ninguém, de todos os que sendo meus, há muito, me abandonaram.

Vou andando...

Vou esperançadamente caminhando.

Ao longe, neste destino que se tornou viagem, oiço o trautear da minha infância, das vozes perdidas em mim, dos sonhos que um dia me pertenceram...

Uma casa pequena, com as luzes reflectidas nas janelas, a lareira acesa e o fumo saindo da chaminé.

Naquelas paredes, no meio do nada, daquele nada gélido e branco, parece existir um pedaço que conheço, uma parte que sempre reconhecerei.

Aproximo-me daquelas janelas e espreito para lá dos seus vidros...

Sinto cheiros que conheço, vozes que me embalaram, sorrisos e abraços que tanto me ensinaram.

Naquela casa vejo Avós e Mãe, Tios e até amigos...

Vejo gente que tanto quis...

Que tanto quero.

Num instante o meu olhar se cruza com o de minha Mãe, com o seu terno e querido olhar, repleto daquele carinho que me tornava o centro do mundo...

Do seu mundo.

Um sorriso que me abraçava, somente abraçava, como se aquele abraço fosse o que nesse mundo mais importava, nesse mundo que se encontrava dentro daquele abraço.

Acordei...

Acordei, acordando, sabendo que esperava não mais acordar.

Naquele gélido sonho, naquelas palavras que não disse, nem escrevi, se encerrava um breve encontro, desencontrado amor que sempre me amparou, entrelaçado com as imensas saudades que para sempre perdurarão...

Como é bom sonhar, com quem sempre connosco sonhou.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

Terra Queimada

 

 

 

Terra queimada;

Dor abrasadora,

Cheiros de nada,

Mágoa destruidora...

 

Terra queimada,

Ao som de um ardor,

Vidas ceifadas,

Desnudado pudor...

 

Terra queimada;

Vazio que sobrou,

Tragédia cantada,

Que na memória ficou...

 

E já não voltam os mortos;

Filhos ou Pais,

Amigos ou amores,

Eternamente perdidos,

Por entre chamas de horrores...

 

Nesta nossa terra queimada,

Descansará um pouco de todos nós,

Num silêncio Lusitano,

Num imenso grito sem voz.

 

 

 

 

 

 

Amigo...

 

Como confiar em alguém?

Como saber que é essa a pessoa, em quem poderás confiar?

Questões difíceis, atormentadoramente difíceis e que desnudam a essência duvidosa do sentimento Humano...

Não tenho muitos amigos, direi mesmo que tenho poucos, no entanto, conheço muitas pessoas, gente que aprecio, com quem simpatizo, com quem troco sorrisos e graçolas, em ambiente descontraído, confiante, por vezes intimista.

Mas confiarei nessas pessoas?

Nunca...

Jamais!

Para mim, essa questão nunca me acrescentou dúvidas, provocou hesitações, interrogações da alma...

Sempre tive a noção até onde poderia ir a minha entrega emocional, o desnudar da minha verdadeira alma, essência das minhas fraquezas, sinceras fragilidades.

Tenho verdadeiramente poucos amigos na vida, poucas pessoas em quem depositaria a minha vida, o meu coração...

Sem nunca esquecer aquele amigo que perdi há mais de vinte anos.

Amigos em quem confio sem barreiras, sem máscaras, sem timidez, completamente entregue à essência, do meu verdadeiro eu.

No mundo de hoje, onde as pessoas têm mil amigos, vinte mil gostos ou coisa que o valha, contenta-me saber que através de um olhar alguém me reconhece, entende o que sinto, sente o que por vezes, ainda não entendi...

A amizade para mim é isso mesmo, o abraçar para lá do entendimento, estar presente na ausência do questionamento, questionar sem deixar de estar ao lado.

Este texto é uma homenagem a essas poucas pessoas que me pertencem, assim como, também eu sou parte deles, na confiança, na extrema entrega e essencialmente na infindável forma de amar...

Pois a amizade, nada mais é do que uma bela forma de amor, incondicional, emocional, eternamente leal...

Eternamente presente.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

Amigos!

 

Um amigo é tão valioso como o respirar de uma vida, como o acreditar de um sonho...

A amizade é a expressão maior da raça Humana, ou seja, um amor intemporal de vidas que insistem em se fazer cumprir.

Ao rever na minha mente esta vida que é a minha, recordo os poucos amigos que preenchem o meu coração, aqueles que ali estando me acompanham nesta viagem, por vezes incompreensível.

Por entre dores e desamores, alegria e conversas, desgostos e euforias, atravessando intensamente os dias que vão chegando, como a espuma das ondas...

Os poucos amigos que guardo comigo, atravessaram os dias de uma vida, contemplando o enternecedor olhar que não falando se expressa, que não gritando segreda esse imenso partilhar.

Uns mais do que outros nessa expressão maior desse amor não explicável, contemplando neste texto esse privilégio tão meu.

As lágrimas por vezes escondidas, amarguradas desventuras compostas em cada sílaba, decompostas nessa atribulada viagem de cada alma e acompanhadas das memórias que preenchem a história de cada um de nós, amarradas a esses olhares, que tornam único, esse nobre sentimento...

Essa partilha incondicional.

Já perdi amigos eternos, desaparecidos por entre a luta de uma vida, no entanto, os que me restam, os poucos que escolhi como meus, permanecem insistentes nesse desgaste que o tempo insiste em percorrer.

Porque a amizade é isso mesmo...

Uma viagem constante através das vidas, que o destino escolheu cumprir.

E vida após vida, nos reencontraremos e voltaremos a acreditar nesse olhar que nos faz sentir inseparáveis.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

Memórias do Areeiro!

 

Muitas vezes estou sentado na praça do Areeiro, na Pastelaria Cinderela, contemplando esse mundo inexistente, de um tempo onde fui feliz...

Muitas vezes estou ali pensando, em tempos que não regressam, em amizades que fugiram, em momentos que guardarei intemporalmente.

Como escrever sobre pessoas que marcaram essa imberbe vida, que representaram tanto, sentindo cada instante hoje fugaz...

Ainda parece que aqui lancho todos os dias, que a cada mês a minha querida mãe aqui vem pagar os suspiros e dedos de dama que me deleitavam.

Como passaram rapidamente trinta anos, como se escaparam sem dizer, por entre, os dias encobertos da minha imaginação...

De lá para cá ganhei amigos para a vida, desilusões eternas, buscas infindáveis que tinha como certas e certezas tão incongruentes que era incapaz de decifrar.

Mas ali se mantêm as janelas, as pedras da calçada, caladas, serenas, segredando as aventuras e agruras pelas quais passei...

Ainda guardo dentro de mim sorrisos daqueles que desapareceram, lágrimas sentidas por aqueles que na minha mente ainda moram, memorias intemporais que não desejo apagar.

Ali ainda moram professores, colegas, amigos...

Ali ainda te vejo sorrir, meu caro Luís, contemplando este amigo que sempre te foi leal, pois essa partilha é o que nos tornou absolutamente ligados, sem exceção, sem limite .

Ali estão guardadas as memórias da minha meninice...

E com elas grande parte de mim mesmo!

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

As Noites E As Minhas Eternas Saudades!

 

Muitas vezes me aproximo da janela, à noite, esperando reconhecer nas estrelas que brilham intensamente, um rosto conhecido por entre o desconhecido enigma deste destino que nos envolve...

Tantas e tantas vezes procuro naquela escuridão impregnada de cristais cintilantes, um pedaço de mim mesmo, desse passado e das pessoas que já partindo, eternamente fazem parte da minha alma.

Procuro assim atenuar as saudades que insistem em sobreviver, acorrem vezes sem conta à minha mente para recordar a falta que ainda sinto, de cada um...

Por vezes nesse constante reencontro com os momentos que já fugiram, relembro sorrisos e lágrimas, resgato tristezas e alegrias, tentando preencher um vazio que sempre acaba por reaparecer.

Nessas noites, tendo a lua como testemunha, converso com o misterioso desconhecido que insisto em crer será repleto de reencontros ansiados...

E se assim não for?

As dúvidas e anseios próprios desta imensa incerteza que por vezes me invade, fazendo-me olhar novamente para aquelas estrelas, para aquele brilho e através dele voltar a perder-me na crença de que me ouçam.

A noite permanece, as estrelas ali continuam e eu volto a esconder as intensas saudades guardadas em mim, daqueles que para sempre meus, infelizmente, partiram para longe.

Mais uma noite, nesta eternidade pejada de enigmas...

 

 

Filipe Vaz Correia