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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Solitário Gatilho...

 

Pistola na mão...

Na mão calejada de tristeza e desilusão, de uma amargurada história que se incompleta, na incerta certeza que tarda em chegar.

Um quarto vazio, tão intensamente vazio, que se quebra o silencio com a tamanha solidão que não cala, ruidosamente maior do que o desejo em mim de a silenciar.

Na rua um rebuliço carregado de esperança, essa que há muito me abandonou...

No quarto ao lado, beijos e abraços, desejos soltos, gritos e gemidos perdidos, ecoando pelas paredes desnudadas, desnudando esse pedaço de vida esquecida.

E eu preso a tamanhos fantasmas...

A estes fantasmas que me perseguem.

Pistola na minha mão...

Lágrimas escorrendo pelo rosto, recordando cada uma delas, as alegrias, pequenos pedaços onde fui feliz, carregadas de rostos que me pertenceram, me preencheram.

Já nada faz sentido...

Encosto a mim o cano da pistola, num gesto lento, moribundamente lento, como que desejando que alguém por ali entrasse e impedisse este acto desesperado.

Sustenho a respiração...

Fecho os olhos...

O rebuliço na rua, os gemidos do quarto ao lado e um gigantesco quadro na minha alma, repleto de imagens, de memórias.

Primo o gatilho...

Primo o gatilho daquela pistola.

Um rebuliço na rua, por entre, desejos e gemidos no quarto ao lado...

E continua o tempo a passar, a vida a correr, o destino a percorrer o seu curso, desmedidamente egoísta para perceber que se perdera uma poética alma...

Na ponta de um solitário gatilho.

 

 

Filipe Vaz Correia