Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Caneca de Letras

Caneca de Letras

Indecifrável Olhar...

 

Não imaginaria escrever as indecifráveis paginas que se escondiam na lamentação deste singelo e desmedido orgulho.

Não imaginava...

As árvores permaneciam caladas, gritantemente silenciadas nessa mistura de sentimentos guardados em mim, nas muitas noites de solidão...

Por entre janelas, mágoas encobertas, conversas passadas, olhares disfarçados, memórias...

Tamanhas recordações.

As mesmas janelas, as mesmas árvores, o mesmo singelo lugar, sem que as almas que um dia ali estiveram permanecessem, acompanhassem essa lembrança minha que se extingue...

Como se de uma chama se tratasse, como se de uma parte de mim fosse, neste bater incessante da alma, de certa forma solitariamente amarrada a mim...

Em mim.

O vento incansável agitava as duvidas, realçava as interrogações, avivava o que há muito se queria esquecido, relutantemente perdido, numa busca amedrontada que reprime a escrita, que apaga a poesia envergonhada, acentuando desmesuradamente a timidez das palavras.

Nada se perde, mesmo que perdido se encontre, desencontradamente segredado na angustia de tempos intemporais.

A meia luz da velas que iluminam o papel, que sombreiam o rosto, meu, por entre as sombras na penumbra de tamanhos anseios inauditos...

Desenhos rabiscados em tristes retratos, lágrimas disfarçadas em sorrisos imperfeitos, imperfeições envoltas na mais rebuscada contradição.

Valeria a pena ter perdido o tempo, sem questionar por um momento, se voltaria atrás esse fragmento de instante só nosso?

Voltaria a ser presente, esse segundo intemporal, onde entrelaçámos as mãos?

As mesmas árvores, o mesmo céu, a mesma incerteza...

Perdida beleza de um sagrado querer.

Não imaginaria escrever as indecifráveis paginas de tamanho amor, desmedido sentir que apenas no olhar se mantém.

Nesse indecifrável olhar que para sempre te pertencerá...

Nos pertencerá.

 

 

Filipe Vaz Correia