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Caneca de Letras

Caneca de Letras

A Ilha Deserta

Filipe Vaz Correia, 13.07.17

 

Uma ilha deserta, sem ninguém...

Um pedaço de terra no meio do oceano, rodeado de mar, da imensidão do silêncio que percorre vezes sem conta, a solidão.

O azul daquele mar, beijando a areia que o recebe, o sol abrasador que o acompanha e o meu olhar expectante que insiste em aguardar um sinal...

Alguém!

Por vezes ao longe pareço vislumbrar um navio, uma imagem que provem da imaginação que ainda em mim resiste, do ardor intenso de poder acreditar.

Esta luta constante entre a realidade e o sonho, entre o desejo e a vontade, entre o ser e o existir...

Tantos enigmas, incompreensíveis melodias escondidas em cada recanto desta ilha sem nome, deste lugar encantado em que se guarda o desencantado, desencantamento meu.

Tantas palavras para escrever, nesta folha que ainda me pertence, tantos desabafos para eternizar nessa garrafa que lançarei ao mar...

Esperando que esse imenso azul, o leve para o mundo, que o liberte por entre as nuvens que não consigo aqui descrever e um dia possam através delas libertar-se em forma de chuva, esta parte mais esquecida da minha alma.

E assim nesta ilha deserta, neste recanto imaginado, fica guardado este pequeno pedaço de um naúfrago.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Nova Iorque...

Filipe Vaz Correia, 03.07.17

 

Sempre detestei aviões, viajar por entre as nuvens nesse animal inventado pelo homem, no entanto, estranho será dizer que a viagem que voltaria a fazer, foi precisamente a mais longa que algum dia fiz...

Um contra-senso?

Talvez seja, no entanto, é a mais pura verdade.

Sempre achei que ao entrarmos num avião arriscamos a vida, um género de fobia muito minha, o que faz com que reze constantemente durante a viagem, acreditando até que de forma irritante para quem comigo viaja, mas é importante na minha mente garantir toda a ajuda possível para que nada corra mal.

Sinceramente jamais arriscaria que no meu epitáfio ficasse registado que ia num avião que tombara a caminho da Republica Dominicana, Recife, Cancun ou outro destino que tal, pois entendo que para arriscar a vida é necessário mais do que uns mergulhos numa qualquer praia...

Para praias não preciso sair de Portugal.

Atenção, sempre respeitando outras opiniões...

No entanto, arriscaria São Petersburgo, Paris, Roma, Cairo, Rio ou até Havana, rezando como nunca e esperando que o dito animal se portasse condignamente.

Mas aquela cidade que provoca estas minhas saudades, esta vontade imensa em regressar é a bela e sedutora Nova Iorque, da qual esperava eu muito menos do que realmente ela me deu...

Nova Iorque seduziu-me inexplicavelmente, pejada de luz e cheiros, de uma multiculturalidade impressionante, formigas por entre a multidão mas incrivelmente acolhedora, numa espécie de museu constante misturado com o ritmo acelerado de uma festa interminável.

Aquela magia envolvente que não esperava, esse amarrar de alma num banho intenso aos pés do Rio Hudson...

Aproveitaria também para dar uma escapadinha a Boston, sentir um pouco daquele espírito Irlandês que ainda subsiste em cada bar e por aquelas ruas.

E terminaria a minha viagem nos Hamptons, numa bela casa de praia, bebendo um bom vinho branco gelado enquanto aqui escrevia mais um post...

Que saudades de Nova Iorque e das malditas oito horas de viagem.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

No Fundo Do Mar!

Filipe Vaz Correia, 09.04.17

 

No fundo do mar, descubro um mundo impregnado de magia, de poesia perdida em cada coral, em cada barco naufragado, em cada planta aquática, em cada recanto escondido do nosso terrestre olhar...

Prendo-me sem senãos, sem receios de me perder por aqueles caminhos que parecem não ter fim, diante daquele horizonte azul, daquela imensidão sem fim, que nos parece abraçar, acolher e convidar a ali permanecer, para nunca mais partir.

Ali no fundo do oceano, o silencioso ruído, daquele ruidoso silêncio que nos inebria, como uma dança contemporânea, num qualquer palco, de uma qualquer cidade europeia...

As luzes que não existem, as cores que nos invadem, os animais que nos observam respondendo com os seus olhares ao nosso curioso olhar.

Como é belo, este novo mundo...

Como flutuo no fundo daquele oceano, sem verdadeiramente flutuar, como deslizo, sem que realmente deslize, como me sinto solitário, sem que na verdade, sozinho ali esteja...

O tempo ausenta-se, desaparece, deixa de ser prioridade, pois tudo corre como deve, como se supõe, por entre a leveza existente em cada momento de calmaria, que sorri debaixo daquele mar.

Fecho os olhos por um momento, esse instante, segundo, onde me sinto um peixe mais, ou melhor, um mamífero, como um golfinho, serpenteando devagar, bailando numa espécie de vontade que se apodera, sem nos largar, sem nos abandonar, de não mais regressar.

E nesse vai-e-vêm, sinto um toque no meu ombro, o sinal para subir para o barco que nos esperava, terminando aquele sonho, tão intenso e real, que me fez acreditar por um momento que seria possível ali pertencer...

Subi...

Continuei a subir, deixando para trás as minhas lágrimas salgadas, misturadas com aquele pedaço de mar, que por um momento também foi meu...

Também me pertenceu.

 

 

Filipe Vaz Correia

A Minha Lisboa...

Filipe Vaz Correia, 15.03.17

 

Sentado no Nicola, no Rossio, contemplo a nova vida cosmopolita da minha cidade...

Da minha, Lisboa.

Encontro como gerente, um amigo de muitos anos, que antes trabalhava na mítica Mexicana e me convida a sentar, onde aproveitei para beber um belo café, acompanhado por um retemperador whisky, cheio de pedras de gelo, como convém num dia de tanto calor.

Aqui acompanhado por estas fachadas, por estas pedras da calçada, impregnadas de história, de histórias, voo pelo tempo, imagino rostos, emoções em cada uma daquelas pessoas.

Oiço Alemão, Inglês, Espanhol ou Chinês, intervalado pelas fotografias amarradas a cada Japonês que desfila por aqui, em tantos e tantos tuc-tuc, como pequenas formigas, serpenteando por entre os carros que passam sem parar...

Jovens e velhos, amigos e famílias, casais e gente sozinha, vislumbram ali, com espanto a beleza eterna, intemporal, desta cidade, com a tamanha luz que a embeleza, vezes sem conta, como nenhuma outra, como em nenhum outro lugar.

Aqui já esteve sediada a sede da Inquisição, há muitos séculos atrás, aqui Reis e Rainhas vieram ao teatro, escritores e artistas se reuniram em tertúlias e conspirações, aqui se conta grande parte da nossa história, da nossa alma...

Daqui vejo uma parte, do Castelo de São Jorge, escondido, meio envergonhado, o elevador de Santa Justa, imponente, altivo, por aqui observo a agitação insistente que tomou conta desta nova cidade...

A velha Lisboa.

E assim, sentado no Nicola, envolvido por esta nova alma, por tanta e tantas pessoas, sou mais um a contemplar, os segredos guardados em cada pedra desta calçada, em cada fotografia pintada, nesta tela viva, em que se tornou a minha cidade...

A Lisboa, de todos nós!

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

 

Viajando Pelas Estrelas!

Filipe Vaz Correia, 23.02.17

 

A noite brilhante, com o seu céu estrelado, que iluminava o imenso lamaçal que tenho de subir...

Atolados os meus pés, numa fuga destemperada por entre este caminho que enfrento sem fugir.

Caminhando, viajante, pelos gostos envelhecidos da sabedoria estampada, nos rostos daqueles que observam o meu destino...

Não o quero saber, continuo a subir em busca da beleza escondida, em cada estrela presa ao imenso céu que contemplo nesta noite cintilante.

Sinto os cheiros daquelas casas vazias, de gente, de cor, com alma...

Contemplo no cimo daquele lugar, a imensidão que por debaixo de mim existe, ignorando os ruídos, os gemidos, as intensas contradições insistentes.

E nesse instante, em cada estrela um sorriso, em cada rosto uma esperança, em cada olhar encontrado, um pedaço de alegria, de vida.

Um pequeno campo de futebol, iluminado por esses candeeiros encardidos, empoeirados, onde rejubilam os meninos, enquanto chutam aquela pequena bola de trapos, como se tratasse da sua maior recompensa...

E se calhar, seria!

Olhei novamente para aquela imensidão, guardando simplesmente na memória, a pequenez dos nossos destinos...

E assim observo a constante rotação daquelas estrelas, que sobrevoam os sonhos daquelas vidas, com aquela lua como companheira, discreta, tímida, presente...

Mas naquele momento, perdido naquela imensidão, aquelas estrelas eram só minhas e do meu desejo de sonhar.

 

 

Filipe Vaz Correia