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Caneca de Letras

Caneca de Letras

25
Fev17

A Barcaça da Esperança!

Filipe Vaz Correia

 

 

Uma jangada molhada, cheirando o medo que se apoderou de todos nós, daqueles desventurados que impelidos por essa vontade maior, não deixaram de acreditar.

Os olhares baixos, cerrados, apenas ouvindo o bater daquela ondulação, dessas ondas de esperança que amiúde chegam, levando com elas esse futuro que anseio encontrar.

Ao meu lado uma jovem mulher, com um lenço à volta da cintura, onde adormece aquele menino, seguro, nos braços de sua mãe...

A noite se apodera do nosso destino, os sons que se calaram no meio de tantas bocas, ali fechadas, cumprindo as ordens, daqueles rudes mercenários, que nos guiam perante a incógnita escondida, desta lotaria a que chamamos de vida.

O barulho do motor é o único ruído permitido, naquela imensidão ruidosa, compassadamente reunida por entre o silêncio de tantos medos, que insistem em ficar...

Deixei tanto para trás...

Tanta miséria, tamanha fome, desespero e lágrimas mas também o amor por minha mãe, banhada na intranquila saudade, que já sentia antes mesmo de eu partir, a voz emocionada do irmão que ensinei a caminhar, os amigos que escolheram a certeza de ficar, no mesmo lugar, na mesma violenta obrigação de ceder à vontade, de algo melhor.

- Calados! Ouvia se a voz daquele homem com os olhos encovados e o rosto marcado pelas cicatrizes, de uma vida de contrabando...

Luzes apareciam ao longe, distantes e ao mesmo tempo, cada vez mais perto, mais presentes, no desespero que se instalava...

Por incrível que pareça, só ali no meio daquele mar, pela primeira vez se apoderou de mim, este pensamento de que era possível algo correr mal...

Algo impedir o mirífico momento em que pisasse terra firme, neste sonho por cumprir, chamado:

Europa!

Um tiro e depois outro...

Um grito e depois muitos outros...

Um terramoto naquela noite sombria, que irrompia sem cantar as doces fábulas da minha eterna esperança.

Abanava a barcaça...

Abanavam a barcaça, qual casca de noz engolida por aquelas ondas que aparentavam ser maiores do que o céu estrelado que por cima de nós, silencioso, observava.

Pés pisavam o meu rosto, sensação de um desgosto que ainda não chegara, mãos que insistiam em me prender os movimentos, sacudindo essa mistura de sentimentos, gritando em mim, vozes sem fim, nesse salto que nunca quis dar...

E no meio desse salto, amarrado àquela barcaça de esperança, entre vozes e mar, cai naquela água gelada, naquele negrume refletindo a noite, na calmaria que outrora ali estivera.

Vozes cada vez mais silenciosas, ruídos cada vez menores, engolidos na imensidão daquele mar.

Misturava me com aquela água, que me envolvia, circundava, seduzindo-me numa espécie de abraço que me esmagava o coração, acelerado, desnorteado, desiludido...

Adormeci, deixei-me levar, desaparecendo nas profundezas solitárias, gélidas e salgadas, deixando enfim, que o destino tomasse conta deste seu filho...

Até que uma mão me agarrou, resgatou, nessa distância que parecia minha, só minha...

Ao respirar novamente, o mundo chegou até mim, acordou-me, despertou novamente os meus sentidos, a minha eterna gratidão.

Mas ao olhar em meu redor, apercebi-me, que no meio de tantos gritos, de tantas vozes, de tantos olhares, de tantas vidas, de tamanha esperança...

Apenas eu, sobrevivi!

E agora, aquela barcaça de esperança, era apenas eu...

O legado de tantas almas, com os sonhos perdidos nesse mar.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

09
Fev17

América: A Perigosa Legitimação do Ódio!

Filipe Vaz Correia

 

Os primeiros dias de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos vieram confirmar os receios de muitos e os anseios de alguns, acerca das suas promessas eleitorais e o seu comportamento pós eleições.

No entanto, quero aqui retirar a parte folclórica da personagem, a parte teatral dos gestos, do tom, da forma, que não considero de somenos importância, apenas não a considero principal questão.

A parte principal deste perigoso caminho está nas palavras, que por estes dias continuaram a trazer ao mundo várias realidades, reconfortantes e assustadoras...

Reconfortantes pela maneira como dentro e fora dos Estados Unidos se tem respondido à política delineada por este grupo de lunáticos que rege os destinos daquele país, desde anónimos a famosos, de jovens e velhos, empresas pequenas ou grandes grupos empresariais ( Google, Amazon, Apple, entre outras), de homens e mulheres, de todos os quadrantes políticos.

Assustadora, pela forma como esta mesma política, nos poderá guiar para uma armadilha sem precedentes, acabando por legitimar aqueles contra quem, tanto combatemos, nos últimos anos.

As palavras do Ayatolla Ali Khamenei, seguem precisamente nesta direcção, de fazer crer aos seus seguidores e aos moderados de todo o mundo muçulmano, que a radicalização do discurso deste novo Presidente Americano, é na verdade, o pensamento intrínseco que sempre guiou os Estados Unidos da América e por conseguinte, todo o ocidente.

É por isto, que é relevante dizer não!

Estas palavras encontram, na realidade eco, nas atitudes irrefletidas de Donald Trump e da sua Administração, carregada de cólera, que não desiste de criar este ambiente de perseguição constante dentro e fora de "muros".

Este perigo de legitimarmos aquilo que mais contestamos nestes radicais, o ódio profundo por aqueles que nos são diferentes, deixará pouca margem de manobra para um dia voltarmos atrás, nesta batalha auto-destrutiva.

Assim hoje, mais do que nunca, aqueles que se levantam para defender o legado Americano, fazem-no em nome de todos nós, ocidentais, e desse passado que importa recordar, é feito de erros, mas também de virtudes inapagáveis, na construção de sociedades plurais e mais fortes.

Calar ou consentir perante os desmandos da Administração Trump, é por isso a legitimação de um discurso de ódio, segregador, e que se transformará numa gigantesca armadilha, que reforçará o discurso das organizações terroristas e seus aliados...

Por isso importa recordar, insistentemente, por esse mundo fora, que a América não se vergará diante daqueles que a querem radicalizar e com isso radicalizar, ainda mais, o mundo.

Citando Churchill:

" A atitude é uma coisa pequena que faz uma grande diferença".

E será essa atitude, essa resistência, que resgatará a América destes dias cinzentos que a assolam.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

24
Jan17

Quo Vadis, Europa?

Filipe Vaz Correia

 

O mundo parece avançar a um ritmo vertiginoso para um abismo, inebriado por uma vozeria trauliteira, que a todo o custo, urge evitar.

A eleição de Donald Trump, as eleições Francesas que estou convicto se travarão entre Le Pen e Fillon, a posição Russa nas manobras que envolvem hoje em dia o panorama estratégico no Médio Oriente e claro está o império Chinês, cada vez mais preparado para impôr a sua vontade, caso a isso, seja obrigado...

E a Europa...

Quo vadis, Europa?

Como poderá responder um aglomerado de países, União Europeia, que caminha sem liderança, sem rumo há mais de década e meia?

O projecto Europeu não foi colocado em causa pelo Brexit, confirme-se ou não, foi precisamente a falta de rumo desse projecto que potencializou a vitória desse movimento.

Assim como nos Estados Unidos, a revolta de muitos cidadãos está a minar o processo democrático, fragilizado pelo abrandar de muitas economias e com isso o degradar da vida desses mesmos cidadãos.

Se por algum motivo a Europa não conseguir responder a estes inquietantes sinais e deixar degradar cada vez mais, a relação dos seus cidadãos com as instituições que os representam , então Donald Trump terá razão e o fim deste projecto Europeu será inevitável.

Marine Le Pen, Farage, Victor Orban e outros populistas que começam a crescer de maneira avassaladora, não o fazem indicando as soluções para os problemas que tanto afectam as respectivas populações, mas sim indicando os males que afectam realmente essas sociedades democráticas envolvidas em escândalos sem fim, desacreditadas entre os seus pares.

Por isso insta repensar este modelo, estas prioridades que sendo lógicas para o Status Quo de Bruxelas, são incompreensíveis para as respectivas populações e que fazem aumentar o descontentamento em pessoas que votarão no desespero ao invés do mesmo encurralado sistema.

Os conservadores cristãos terão neste processo um papel fundamental, na minha opinião, pois em parte, partirá desse espectro político a solução que possa fazer frente à demagogia populista que hoje crassa em grande medida pelas mais variadas democracias.

A Direita Cristã ou Conservadora tem de revitalizar os seus princípios fundadores, recuperando a ligação com as pessoas e demonstrando uma genuína preocupação em construir as pontes necessária entre aqueles que se consideram excluídos e as novas gerações sedentas por uma incontornável globalização. 

Isso só poderá ser alcançado com a melhoria da vida das pessoas, com o sentimento de bem-estar fundamental para que os avanços não esmaguem a esperança e os desejos inerentes à condição humana.

Assim espero que a Europa possa mudar o seu rumo e ver neste extremar de posições que nos chega do outro lado do Atlântico, uma oportunidade para ser ela a liderar os acontecimentos e não os acontecimentos a ditarem o seu destino.

Isso será determinante para o caminho Europeu, consciente das diferenças nacionais que sempre existirão, mas inclusivo, global, integrante, com valores Humanistas que certamente nos guiarão ao encontro de um futuro onde a Europa possa resgatar a importância que sempre teve.

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

05
Dez16

Matteo Renzi: E Ora Itália? E Agora, Europa?

Filipe Vaz Correia

O Não venceu em Itália, com quase 60% dos votos, no referendo requerido por Matteo Renzi, para tentar mudar o sistema político Italiano e a sua eterna contradição...

A democracia Italiana vive aprisionada a este sistema há décadas, levando a que os rostos desse sistema se perpetuem, ad aeternum, num emaranhado de cargos e contra-poderes, que não permitem a quem governa as competências legislativas suficientes para reformar verdadeiramente o País.

Renzi jogou com tudo o que tinha, colocando mesmo o seu futuro político como trunfo, para uma vitória que acreditava poder alterar o rumo da sua Nação, no entanto, ameaçando demitir-se em caso de desaire, Matteo Renzi conseguiu unir todos os seus adversários, na expetactiva de assim o conseguirem afastar do quadro político Italiano.

Renzi perdeu e cumpriu...

Para Itália, já não está mal.

Numa recente entrevista ao 60 Minutos, Matteo Renzi admitiu que havia errado, ao elevar a fasquia, pois em caso de derrota ele colocaria em causa todo o seu trabalho, o seu papel e o papel do seu governo, mas era tarde demais para recuar, para fugir das palavras que o acorrentavam à promessa que havia dado.

Muitos políticos Italianos ao longo de décadas disseram o mesmo e o seu contrário, percorrendo todos esses cargos e lugares públicos que agora Renzi queria extinguir ou restringir, por isso tenho a expectativa que com o seu exemplo Matteo Renzi possa, mesmo depois desta derrota, conseguir demonstrar um novo caminho para este velho País.

A Europa vê assim nascer uma nova questão:

O que fazer, se o populista movimento Cinco Estrelas, de Peppe Grillo, assumir o poder numas novas eleições em Itália?

Mais um movimento Anti-Europeu, para implodir o ideal criado pela UE.

A Europa tem de a todo o custo, tentar inverter esta imensa contestação que cresce dentro de si, pois caso contrário, esta irá implodir através desses mesmos governos eleitos em cada País, que se unirão para combater o progressivo avanço de uma União Europeia.

A queda de Renzi é na minha opinião um passo dado nesse desconhecido rumo.

Por fim não posso deixar de notar a derrota da extrema direita na Áustria, o que contrariando a maioria das sondagens veio dar uma pequena esperança, de que afinal ainda é possivel combater os Radicalismos crescentes em toda a Europa.

Mude-se as politicas, fale-se ao coração das pessoas e ouça-se o que estas tem a dizer...

Escutando-as, estaremos mais perto de desarmar os populismos e as demagogias.

Assim depois de mais uma noite eleitoral e vendo o discurso de Matteo Renzi, fico com a esperança de que um dia, este ainda possa ter uma palavra a dizer sobre o futuro do seu Pais...

Da nossa Europa.

Por isso, Arriverdeci e Buona Fortuna, Signor Matteo Renzi... 

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