Cartas Ao Vento...
Uma carta ao vento...
Ao mesmo vento que sempre afagou a minha face, nas manhãs de inverno da pequena infância, ao mesmo vento que soprava na praia de Odeceixe no fim de tarde, ao mesmo vento que soltava a figueira no "meu" Monte Alentejano, ao mesmo vento que sacudia a bandeira do Sporting no velhinho estádio de Alvalade ou até mesmo...
Àquele vento que tantas vezes secou as minhas lágrimas e com ele levou as tristezas que povoavam a minha alma.
Uma carta carregada de desejos, de ansiedades e saudades, de tanto e tão pouco...
De tamanha ventania e esperança, querença ou singela alegria solitária.
Uma carta leve e sentida, sem mágoa ou ferida, amarrando a si, o olhar de um passado que já não volta...
Mas talvez através do vento, num acto de fortuna, possa reencontrar, por um acaso, um desses fugazes momentos e com ele abraçar olhares perdidos, vozes silenciadas, afagos que partiram deixando um vazio, outrora, repleto de tudo.
Num derradeiro rabisco, deixo esvoaçar pelo vento, pelas nuvens, esses desejos e vontades, à deriva, como mensagens no mar, para que noutro século, noutra vida, possam ser reencontrados...
E aí, nesse reencontro, talvez possa reconhecer, num outro destino, a mesma face, o mesmo pedaço de alma.
Numa outra vida...
Ao sabor do mesmo vento.
Filipe Vaz Correia
