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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Piano...

Filipe Vaz Correia, 27.12.16

 

O meu piano...

De encontro à janela;

Aguardando a minha alma,

Como se estivesse de sentinela.

 

Aguardando sem tocar;

Esperando calado,

Esse regresso, despertar,

De um tempo e de um passado...

 

Não sinto as minhas mãos;

Queria voltar a sentir,

E contar ao meu coração,

Esse medo de sorrir...

 

Temo o que um dia fui;

Fujo desse reencontro,

Dessas pautas, pautadas,

Imagens passadas...

 

Nessa lágrima, em forma de nota musical;

Sinto a dor na minha mente,

O que sobrou dessa vida,

Desse som, nesse presente...

 

Já não posso mais tocar;

Já não sou um pianista,

Pois tremo sem parar,

Sem as minhas mãos controlar...

 

Dói sem doer;

Esse teu silêncio ruidoso,

Piano meu, quero morrer,

Ao som do teu sorriso...

 

Pois só ele preenche as memórias, dessa vida que um dia foi minha!

 

O que esconderia eu?

Filipe Vaz Correia, 26.12.16

Se cada palavra tivesse valor;

Se cada olhar fosse importante,

Se cada sorriso fosse apenas dor,

Então o que esconderia eu?

 

Se cada cheiro significasse algo;

Se cada beijo fosse verdadeiro,

Se esse sentimento fosse inteiro,

Então o que esconderia eu?

 

Se em cada gesto fosses tu;

Se fosses tu em cada momento,

E se eu pudesse voltar atrás no tempo,

O que esconderia eu?

 

E se eu escondesse alguma coisa;

Perdida no meu pensamento,

Ruidoso sentimento,

E um dia te pudesse revelar...

O que diriam os teus olhos?

 

Talvez se perdessem nos meus.

 

Quem disse que o Pai Natal não existe?

Filipe Vaz Correia, 24.12.16

 

Há mais de 30 anos que deixei de acreditar no Pai Natal...

Deixei de crer nessa fábula cheia de magia, nesse homem de barbas brancas, barrigudo, que durante a noite de Natal, percorre o mundo no seu trenó, puxado por renas trabalhadoras, descendo chaminés, para que nenhum menino fique sem os presentes por que tanto haviam sonhado, durante o ano.

Acreditava tanto nesse mágico mundo, que ficava acordado tentando espreitar pela porta da cozinha, na casa da minha Tia em Santa Luzia, na esperança de poder vislumbrar esse herói que povoava a minha tenra mente.

Nada era mais encantador que este pensamento, deste velhinho barbudo e os seus Duendes, trabalhando todo o ano para que naquela noite, todos os meninos do mundo tivessem direito à sua pequena parte de felicidade.

Como qualquer criança, existe um dia em que somos confrontados com essa imensa desilusão, com essa realidade que esventra o sonho e nos desperta para a racionalidade que povoa o mundo dos crescidos...

Dos adultos.

O Pai Natal não existe!

Frase chocante porém verdadeira e que nos faz deixar de sonhar...

Assim cresci, senti-me adulto, já não uma criança, pois havia ultrapassado aquele conto para meninos pequenos.

Assim se passaram trinta anos, a contar a mesma história a sobrinhos, a ver crianças a passar pelo mesmo sonho irrealista...

Mas a serem felizes.

Até que um destes dias, na minha televisão o Pai Natal apareceu...

Um homem de barbas longas e brancas, despido do seu fato encarnado, de lágrimas nos olhos e com uma história para contar:

Morrera o seu Duende mais querido...

O número um.

Um menino de cinco anos, que agonizava na cama de uma unidade hospitalar, pedindo a presença do Pai Natal...

E ele chegou.

Eric Schmitt-Matzen, o nome do Octogenário que se abeirou da cama daquela pequena criança, moribunda e que através daquela imagem sentada na beirinha do seu leito, voltava a sorrir.

O medo de não saber para onde iria, passara, o receio dessa famigerada morte que certamente inquietava o seu coraçãozinho, amenizava, a esperança de um encontro há muito desejado ganhava vida.

Num último abraço, aquele Pai Natal acolhia no seu regaço toda uma vida, curta, passageira, mas a esperança e alegria que este mesmo abraço representava era maior do que os medos, o tempo, o sonho...

Era maior que tudo!

Naquele instante o menino soube, através dos seus olhos e do seu coração que o Pai Natal existia, era real, estava ali com ele.

Assim morreu, acochegado por aquelas longas barbas brancas, daquele homem que muitos dizem não existir.

Para trás, ficavam as lágrimas que escorriam pelo rosto daquele velho homem, que descera a chaminé daquele hospital, para trazer um pouco de magia a um cenário carregado de tristeza.

Através destas imagens, das palavras de Eric, também eu voltei a acreditar, a ter essa certeza...

O Pai Natal existe e estava ali diante dos meus olhos.

Pois só o Pai Natal poderia ter uma história destas para contar.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

Poeta...

Filipe Vaz Correia, 23.12.16

 

Ser poeta é...

Cantar sem ter voz;

É voar sem ter asas,

É nunca estar só,

Mesmo estando...

 

É ver longe, sendo cego;

É nadar sem ter água,

É dizer que sim, não nego,

Ao amor, à dor, à mágoa...

 

É crer em Deus, sendo descrente;

É beijar na boca, não tendo lábios,

É viver o presente, ausente,

Aguardando versos sábios...

 

É escrever sem palavras;

É chover no verão,

Noites quentes, amargas,

Estimulando a imaginação...

 

É chorar, é sorrir;

É amar, é sentir,

Abraçar ou pedir,

Uma emoção a fugir...

 

Ser poeta é enfim;

Um pouco de tudo e de nada,

É pedir à folha em branco,

Uma vida emprestada...

 

E assim sem parar;

Em cada traço desenhado,

Desenhando um pensamento,

Em cada poema imaginado.

 

Burka

Filipe Vaz Correia, 22.12.16

 

Escondem-me debaixo de um véu;

Um véu imposto, desgosto,

Um tabu que me cobre o rosto,

Um terror imposto...

 

Sou refém deste manto;

Que quebra a minha vontade,

E que atira para um canto,

A minha sonhada liberdade...

 

Só os meus olhos sobrevivem;

Aos olhares que me circundam,

A essas regras que me dominam,

Às mentes que violentam o meu destino...

 

Debaixo deste céu;

O mesmo mas tão distante,

Desse mundo, do meu véu,

Que me consome,

Asfixiante...

 

 Não tenho escolha;

Não tenho querer...

 

Não tenho pele;

Não tenho sorriso...

 

Tenho apenas a minha alma;

Para silenciosamente,

Sonhar.