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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Vidas...

 

Recordo-me de tantos rostos, de tantas vozes...

Revejo em mim tanta gente, pessoas que encontrei neste destino sem fim, que percorreram por um momento o mesmo caminho que eu, que a minha alma.

A noite cai...

Chega...

Despudorada.

Sentado na janela da minha sala, sala de estar, observo as estrelas ausentes, o brilho que se esconde por entre as nuvens que teimam em cobrir esse céu.

Uma e outra luz que se acendem, brilham nas janelas, como deveriam as estrelas brilhar nos céus...

São vidas em caixas, cubículos compartimentados, impregnados de sorrisos e lágrimas, de gentes e pensamentos, alegrias e desgostos.

Tantas e tantas vidas percorrendo os seus destinos, pais e filhos, avós e netos, jovens ou velhos...

A noite cai...

O dia finda.

E continua a correr o tempo, continua a soltar-se o infinito, por entre os que morrendo desaparecem, os que nascem irrompendo, os que permanecem...

Permanecendo.

Revejo em mim tantos rostos, tantas vozes...

Tantas vidas passadas, reencontradas nesta, somente nesta, certeza única.

A noite teima em cair...

O radio continua a tocar, a janela aberta continua deixando o frio entrar, enquanto observo o céu, buscando imperfeitamente as razões para que o meu coração continue a bater descompassadamente.

A vida continua...

E vida após vida, buscarei reencontrar-te.

 

 

Filipe Vaz Correia