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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Vidas A Correr!

 

 

 

As bombas ensurdeceram o meu sentir;

A dor emudeceu o meu carpir,

A mágoa escureceu esse intenso colorir,

Fugindo sem fugir...

 

O sangue pintou cada morte,

Cada desaparecer ensurdecedor,

Destino sem sorte,

Fétido fedor...

 

Cada olhar,

De uma vida vazia,

Intenso desesperar,

Dia após dia...

 

Ainda não fiz doze anos;

Nem sei se os farei,

Por entre feridas e danos,

Perdendo tantos que amei...

 

E continua a vida a correr;

A vida a correr,

E eu parado,

No meio deste meu eterno sofrimento.

 

 

 

Como Posso?

 

 

 

Como posso amar o impossível;

Esse amor que não me quer,

Querendo, se torna invisível,

Desejando, malmequer,

Sentindo o indiscutível,

Bem querer...

 

Como posso continuar a amar;

A sentir esse pulsar,

Querendo gritar,

O aprisionado desejar,

Da minha alma...

 

Como posso insistir;

Num singelo sentimento,

Maior do que o sentir,

Do que o mar ou o vento,

Do que o ardor a ferir,

Esse meu amargurado sofrimento...

 

Como posso?

 

 

 

Aborto...

 

Tive o teu destino, em meu poder;

Decidi nada fazer,

Acabei por te perder,

Dei esse dinheiro, para te esquecer...

 

Fui eu que paguei;

Essa morte, a tua vida,

E achei que apaguei,

Sem apagar, tamanha ferida...

 

Era jovem, inconsciente;

Com a consciência de um cobarde,

E agora, bem presente,

Esta terrível verdade...

 

Tive medo, sem saber;

Ou talvez sabendo temer,

Que o destino não me iria perdoar,

Essa tristeza a recordar...

 

Penso sempre, neste vazio;

Que me persegue constantemente,

Esta dor, esse desafio,

De te saber ausente...

 

Como poderias ter sido;

A tua cara, minha expressão,

O orgulho hoje perdido,

Que invade o meu coração...

 

Se eu pudesse voltar atrás;

E apagar este arrependimento,

Preferia eu morrer,

Do que meu filho,

Não te ter!

 

 

 

Auschwitz...

 

Atrás desses portões;

Onde se escondeu tanto sofrimento,

Tantas mortes sem caixões,

Servindo de ensinamento,

A um mundo de interrogações,

Espelhados nesse tempo...

 

Em cada gota de chuva;

Caindo desse céu,

Fica uma lágrima por chorar,

Por aqueles que nessa história,

Acabaram por deixar,

Uma vida por cumprir...

 

Nesse pedaço de terra;

Naquele cheiro a morte,

Essas memórias que encerram,

Tantas vidas sem sorte,

Às mãos de um malfadado destino...

 

Chaminés sempre a queimar;

Meninas e meninos gaseados,

Almas a escapar,

Por entre o fumo, desse passado,

Daquele presente a recordar,

Para que nunca mais seja tentado...

 

E assim, importa voltar a dizer;

Que foi verdade, tamanho horror,

Para que ninguém se atreva a esquecer,

Aqueles esqueletos, aquela dor,

Aqueles uniformes às riscas!