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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Já Foste Feliz?

 

Tantas vezes me questiono...

Onde será que fui feliz?

Verdadeiramente feliz...

Sentimento esse que mistura mistério, com a interrogação constante ou a busca insana pelo desejo impossível.

Tantas palavras, segredos presos à alma, momentos e instantes que se somam, sem que o tempo pare, sem que nos seja permitido voltar atrás, e novamente pintar esse quadro que eternamente fará parte de nós...

Será o nosso infinito destino.

Essa palavra, felicidade, que estranhamente rima com saudade, lugar imenso mas distante, onde ao longe, num mirifico horizonte, o tempo se encarrega de embelezar a memória.

Por vezes fica um bater mais acelerado do coração, um respirar mais ofegante por entre uma errante lágrima, por outras vezes, apenas um solitário reencontro com a perdida alma que nos completa.

É tão difícil explicar à infeliz felicidade, felicidade presente, o quão feliz estou neste instante...

Ou o quão triste estarei, por o tempo insistir em não parar...

Não ter parado.

Por vezes seria imensamente belo, parar por segundos o presente, degustando cada cor, cada cheiro, cada pedaço de nós, misturado com o contentamento maior que nos sufoca...

Seria tão bom, pedir ao futuro que aguardasse por um momento, para regressando ao passado, beijar alguém ausente nesta viagem finita.

Tantas coisas boas...

A mão segura de minha Mãe, o seu cheiro, o seu ternurento olhar...

A voz austera mas aconchegante de meu Pai, perdendo-se por entre as infindáveis histórias, que ainda hoje me moldam.

As saudades que eu tenho dos natais, em casa de meus Pais.

A praia de Odeceixe, onde passei maravilhosas férias de verão, onde me apaixonei e sorri, chorei e fugi..

Odeceixe.

Tantas e tantas vezes, tantas e tantas pessoas, tantos e tantos momentos, entrelaçados com essa palavra dificil de decifrar...

Felicidade.

Uma música a tocar, o abraço de um amigo, o beijo da pessoa amada, o olhar escondido e reflectido no espelho, só teu...

Somente teu.

Tantas e tantas vezes pensei ser feliz...

Tantas e tantas vezes me esforço por recordar que fui feliz, nestes pedaços de história, que fazem parte de mim.

Tantas e tantas vezes fui feliz...

Mas sempre passou.

Viva o futuro...

 

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

Perdida Inocência...

 

 

 

Vagas de mar;

De espuma e areia,

Ondas a gritar,

Essa força inteira,

Que invade devagar,

A dor derradeira,

Da minha perdida inocência...

 

Imagens escondidas;

Arrepios segredados,

Palavras repetidas,

Em quadros pintados,

Lágrimas esquecidas,

Amores adiados...

 

E secretamente;

Por entre as linhas de uma carta,

Discretamente,

Pelos traços de um quadro,

Insanamente,

Nos coloridos desejos de um sonho...

 

Vou recordando;

A perdida inocência,

Que me fugiu.

 

 

 

Adeus Adolescência...

 

Estive na festa de anos de um grande amigo, um almoço descontraído, bem aproveitado, 40 anos de histórias e recordações...

Um dia de encontros, reencontros, pessoas que há muito havia perdido, nos havíamos desencontrado, neste labirinto chamado vida.

Por entre conversas e opiniões, uma me desarmou, deixou estupefacto, desarmadamente incrédulo, perante a memória dessa minha meninice:

- Fechou o T-Club!

- Fechou... Deixei sair de dentro da minha espantada alma...

Perdoem-me o desabafo, mas aqui vai:

Cresci em Lisboa, e parte dessa minha descoberta da noite alfacinha, foi feita no T-Club de Lisboa, nesses momentos guardados por entre os segredos de uma adolescência feliz, pejada de amizades, de vagabundas imagens.

Há muito que havia compartimentado o trauma do adeus ao T-Club de Lisboa, assim como ao Stones, no entanto, juro que jamais me passou pela cabeça, que seria possível o T-Club da Quinta do Lago ou a Trigonometria encerrarem...

Na minha mente isso era impossível.

Era impossível na mente e no coração, por tudo o que ali vivi, por tamanhas histórias guardadas de tantos de nós, que perfazem a minha vida.

Mas fechou...

Mostraram-me o leilão de coisas à venda na Internet, pedaços de memórias minhas, de histórias de outros, de vidas.

Como se atrevem a desarmar o meu passado, num futuro, que jamais adivinharia?

Como encerram, os amores e desamores que vivi na varanda da trigonometria, os momentos em que o mundo me pertencia, na pista do T-Club?

Naquele espaço guardo pessoas que estimo sem tamanho:

Meu Pai, Jaime, Manel, Zé Miguel, Bordini, Daniela...

Não esquecendo o meu querido Tio Jaime, com quem ali partilhei algumas das melhores histórias da minha vida.

Tantos e tantos momentos, encerrados numa frase, num momento, numa vontade dos tempos, em alterar o que jamais imaginei ser alterado.

Ficam as memórias, os tempos áureos, a saudade que ninguém poderá apagar...

Mesmo que tenha de, finalmente, dizer adeus à minha feliz adolescência.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

O Primeiro Amor!

 

Queria que esta noite não acabasse;

Que a musica não parasse de tocar,

Que esta dança continuasse,

Sem parar,

Eternamente...

 

Queria que os teus olhos não mais me fugissem;

Que o tempo ficasse suspenso,

Que os segundos resistissem,

À viagem do futuro...

 

Queria prender-te junto a mim;

E não mais te deixar partir,

Neste ardor sem fim,

Que insiste em se fazer sentir...

 

Queria ter a certeza;

Que não me roubaria o destino,

O encanto e a beleza,

Deixando-me a tristeza,

Desse meu primeiro amor...

 

Queria tanto;

Como queria...

 

 

Aborto...

 

Tive o teu destino, em meu poder;

Decidi nada fazer,

Acabei por te perder,

Dei esse dinheiro, para te esquecer...

 

Fui eu que paguei;

Essa morte, a tua vida,

E achei que apaguei,

Sem apagar, tamanha ferida...

 

Era jovem, inconsciente;

Com a consciência de um cobarde,

E agora, bem presente,

Esta terrível verdade...

 

Tive medo, sem saber;

Ou talvez sabendo temer,

Que o destino não me iria perdoar,

Essa tristeza a recordar...

 

Penso sempre, neste vazio;

Que me persegue constantemente,

Esta dor, esse desafio,

De te saber ausente...

 

Como poderias ter sido;

A tua cara, minha expressão,

O orgulho hoje perdido,

Que invade o meu coração...

 

Se eu pudesse voltar atrás;

E apagar este arrependimento,

Preferia eu morrer,

Do que meu filho,

Não te ter!

 

 

 

Juventude...

 

Tenho saudades;

De não ter sono mas sonho,

De não ter medo mas coragem,

De nada me ser enfadonho,

Do horizonte me parecer risonho,

Sem dor, ardor...

 

Tenho saudades;

De tantas noites e de tantos dias,

Desse desejo ardente,

Me preencher de alegria,

E de voar constantemente...

 

Tenho saudades;

De estar sol ou a chover,

Dessas histórias a escrever,

Numa vida a viver,

Sem ter medo de morrer,

Tendo amigos para fazer...

 

Tenho saudades;

De olhar para o meu espelho,

E reconhecer aquele reflexo,

Aquele pedaço tão complexo,

De mim...

 

Tenho saudades, tuas;

Minha imensa inquietude,

Minha perdida juventude...