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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Todas as Noites......

 

 

 

Fujo todas noites;

De mim,

Dos pesadelos que me acorrentam,

Das mágoas que regressam sem fim,

Ou das dores que me sufocam,

Indefinidamente...

 

Fujo todas as noites;

Dos medos que me controlam,

Dos fantasmas que me circundam,

Das vozes que gritam,

Sem parar...

 

Fujo todas as noites;

Daquela criança assustada,

Que insiste em chorar,

Daquela voz embargada,

Que não pára de soluçar...

 

Todas as noites fujo;

Do escuro,

Dos medos,

De tudo o que se esconde,

Em mim...

 

E que sendo meu;

Desesperadamente me persegue.

 

 

 

Verões Da Minha Infância!

 

 

 

Um mergulho tão fundo;

No despertar do verão,

Um prazer vagabundo,

Vagueando pela ilusão,

Reencontro profundo,

Com a distante recordação,

Da minha infância...

 

Este ar quente;

Este sol abrasador,

Reflexo de um tempo já ausente,

Passado acolhedor,

Por entre as memórias da minha mente...

 

E em cada pedaço deste mar;

Onde me pareço perder,

Perdendo-me nesse reencontrar,

Intenso reviver,

Desses verões que já não voltam...

 

A esse tempo,

Onde fui criança.

 

 

No Cimo Daquela Árvore!

 

 

 

No cimo daquela árvore;

Estão guardadas as palavras,

Com que fingia,

Ser feliz...

 

No cimo daquela árvore;

Estão escondidas,

As lágrimas,

As feridas,

Da minha meninice...

 

No cimo daquela árvore;

Daquela e só daquela,

Estão desassombradas,

As amarguradas,

Fantasias,

Que não consegui alcançar...

 

No cimo daquela árvore;

Está um pedaço de mim,

Do que fui,

E não fui capaz de resgatar...

 

No cimo daquela árvore!

 

 

Infância!

 

 

 

Resgatei do passado;

Um quadro tão antigo,

Um esboço traçado,

De um tempo perdido...

 

Reencontrei esse pedaço de mim;

No fundo da memória,

Uma espécie de abraço sem fim,

Descrevendo a minha história...

 

Descrevendo o que um dia esqueci;

Alegrias e ternuras,

Momentos que perdi,

Traquinices e aventuras...

 

Pinceladas de amizade;

Carregadas de emoção,

Impregnadas de saudade,

Invadindo o coração...

 

E regressando a esse tempo;

Onde fui criança;

Recordando por um momento;

Esse pedaço de esperança,

Da minha infância.

 

 

 

 

 

 

O Menino Dos olhos Tristes...

 

O menino dos olhos tristes;

Não sabia bem esconder,

Aquela chuva no olhar,

Meio tristeza a chover,

Insistindo em chegar,

Sempre que via reaparecer,

Aquele triste recordar,

Ausente reviver...

 

O menino dos olhos tristes,

Tristonhos e entristecidos,

Carregando um passado,

Coração bem ferido,

Dolorido, amargurado,

Por esse amor esquecido,

Nunca antes encontrado...

 

E nessa ausente infância,

 No aconchego que nunca chegou,

Perdido nessa distância,

Naquela dor que carregou,

Solitário...

 

E assim continuou;

O menino dos olhos tristes!

 

 

 

A Bailarina...

 

Era uma vez uma menina, que sonhava poder voar, repetindo nos seus sonhos, essa crença a soletrar, através das palavras que cresciam alegremente no olhar, cada vez, que via aquele recital...

Todas as noites ao adormecer, fechava os seus olhos, esperando poder sentir esse vento a chegar, como os pássaros, esvoaçando sem fugir, desse destino que tanto ambicionava.

Noite após noite, intocáveis pensamentos, que tomavam conta desses desejos impossíveis, difíceis de realizar...

No seu olhar encantado, uma esperança que não cabia dentro da sua alma, alvoraçando inquieta as angústias insistentes, guardadas secretamente, na expressão daquela imagem, sempre presente.

Tantos anos se passaram, desde que aquela menina, com os braços abertos, julgava poder cobrir os céus, na imensidão da sua dor, que alimentava os sonhos imaginados...

E nesse dia, naquela história, no cimo daquele palco, em cima daquelas tábuas de madeira, o passado regressava, para se fundir com o seu coração.

Abriam-se finalmente as cortinas, deparava-se com aqueles olhares indiscretos, das gentes sentadas, naquele teatro lotado da sua infância...

E ali de pé, com aquela música como pano de fundo, abria novamente os seus braços, a menina, agora mulher, saltando eternamente diante do infinito, enquanto abraçava esse destino, que tanto desejara tocar.

Voando por entre as nuvens e os desejos da sua terna infância, encontrava-se submersa, no imenso contentamento da sua alma.

E assim, uma bailarina, menina, mulher, ganhava naquele momento, naquela vontade, as asas com que sempre sonhara...

Bravo!

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

Os teus Olhos!

 

Pelos teus olhos;

Vejo o mundo,

E revejo enternecido,

Esse passado distante,

Outrora vivido,

Saudade constante,

Num presente perdido...

 

Através dos teus olhos;

Recordo tantos sonhos que se perderam,

Tantas vontades ausentes,

Que ficaram lá atrás,

Em cada lágrima por chorar...

 

E nesses olhos de criança;

Em cada passo aprendido,

A cada palavra de esperança,

Em cada gesto já vivido,

Nesse tempo, minha herança,

Daquele menino,

Que um dia fui...

 

 

 

Debaixo da minha cama...

Era uma vez um menino, que tinha medo dos pesadelos que se escondiam debaixo da sua cama, à noite, no seu quarto, naquela escuridão imensa que assombrava a imensidão da sua pequena alma.

Aquele quarto pequeno, aquele tecto trabalhado, aquelas sombras meio perdidas, escondidas que ameaçavam polvilhar aquela tenra imaginação...

Tinha medo que o levassem, que o aprisionassem nesse mundo obscuro escondido debaixo da sua cama e de onde era possível sairem os monstros mais terríveis alguma vez imaginados.

Nem a luz de presença o tranquilizava, nem os passos dos adultos o reconfortavam, nem a esperança sem fim de que a sua mãe o viesse tapar o deixava tranquilo, menos nervoso...

Tanto medo num pequeno coração, num menino que se escondia debaixo dos lençois.

A coragem que ele queria ter, por vezes parecia se apróximar, encher a sua alma e numa força sem fim, dar-lhe aquele pedaço de determinação para sorrateiramente espreitar para debaixo daquela cama, às vezes navio, buscando corajosamente encontrar o vazio que racionalmente ali teria de estar...

Mas essa determinação passava, esse medo regressava, voltava, vindo do nada, preenchendo novamente esse receio imenso que teimosamente insistia em não se calar.

Esse menino cresceu, esse quarto já não lhe pertence, essa cama já não existe, esse medo desapareceu...

Esse menino guardado no fundo da minha alma, já não chora com medo dos monstros que se escondem debaixo da sua cama, já não receia a escuridão que se instalava no seu quarto...

O menino que um dia fui, apenas sente saudades, desse tempo, desses medos próprios de uma irrequieta imaginação, dessa imensa angústia de perder aquilo que tanto estimava...

A infância que não regressa.

 

Filipe Vaz Correia

A inocência do primeiro beijo

 

Pela primeira vez;

Sempre primeira,

Para sempre inteira...

 

O primeiro embaraço;

Pequeno desenho,

Pequeno traço...

 

Um instante, senão;

De um calor que então,

Me fazia tremer...

 

Queria ceder, responder;

Parar de estremecer,

Poder saber o que fazer...

 

Pela primeira vez;

Fechei os olhos e acreditei,

Nessa imagem, que imaginei,

Nesse beijo, que guardei...

 

Entreguei-me finalmente;

Numa travessura jovial,

Desejando inocentemente,

Esse momento intemporal...

 

Assim foi o meu primeiro beijo;

Nesse canto do meu quarto,

Onde ainda hoje me vejo,

Inocente.

 

 

 

 

Ruas do Tempo

 

Estas mesmas ruas, tão diferentes;

Os mesmos caminhos que não esqueci,

As mesmas esquinas, agora ausentes,

De uma vida que vivi,

Foi minha,

Mas já perdi...

 

As mesmas casas;

Os mesmos rostos envelhecidos,

O mesmo tempo sem asas,

Percorrendo esse destino,

Que um dia foi o meu...

 

Crianças como um dia fui;

Velhos como ainda não sou,

Pessoas e gentes,

Nesse percurso que não mente,

Trazendo com ele o tempo que me escapou...

 

Procuro os caminhos da minha vida de menino;

Esse que ainda se esconde em mim,

Procurando eternamente,

Esse labirinto sem fim,

Que deixei para trás,

Nas ruas da minha perdida infância.