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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Terra Queimada

 

 

 

Terra queimada;

Dor abrasadora,

Cheiros de nada,

Mágoa destruidora...

 

Terra queimada,

Ao som de um ardor,

Vidas ceifadas,

Desnudado pudor...

 

Terra queimada;

Vazio que sobrou,

Tragédia cantada,

Que na memória ficou...

 

E já não voltam os mortos;

Filhos ou Pais,

Amigos ou amores,

Eternamente perdidos,

Por entre chamas de horrores...

 

Nesta nossa terra queimada,

Descansará um pouco de todos nós,

Num silêncio Lusitano,

Num imenso grito sem voz.

 

 

 

 

 

 

Um Mar De Chamas!!!!!

 

Portugal está a arder, esventrado por um mar de chamas que parece não ter fim...

Um vermelhão ao longe, no horizonte, perdendo-se por entre o desespero das gentes, das pessoas, de vidas.

O pior dia do ano, no que diz respeito a incêndios,  com estradas cortadas, localidades isoladas, aldeias e cidades cercadas, tantos e tantos sítios, no meio de um pesadelo.

Como poderemos nós, cidadãos, aceitar que tudo isto ocorra, sem que nada se altere?

Basta, por uma vez, basta!

Existe por trás destes fogos mãos criminosas, uma espécie de quadrilha que actua concertadamente para construir estes cenários de horror.

Sei perfeitamente que este clima para Outubro é excepcional, que as alterações climáticas são uma realidade, que o território Nacional está em parte, ao abandono...

Sei de tudo isso, mas não consigo acreditar que seja possível este tipo de fogos, esta dimensão descontrolada, sem que exista acção humana.

Por último, independentemente dos estudos que quiserem fazer, julgo que a Ministra da Administração Interna, assim como a equipa que a acompanha, terá de abandonar o cargo, demitir-se ou ser demitida.

Não me interessa se é directamente responsável, até pode não o ser, no entanto, em última instância tem verdadeiramente muito azar...

E uma Ministra com azar, também não se recomenda para o cargo.

Que venha a chuva, para que se extinga este mar de chamas.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

Os Mortos de Pedrogão!

 

As notícias e o aproveitamento sensacionalista deste tempo, atingiu um patamar de mediocridade absolutamente indescritível...

Os mortos de Pedrogão, fazem neste momento as manchetes de quase todos os jornais, são o tema de comentário de quase todas as televisões, deixando para trás a dignidade daqueles que partiram mas também a nossa que supostamente os deveríamos respeitar.

De 64 já passaram para 80, de 80 já ouvi 100 e de 100 se calhar poderemos ter 64...

O Autarca daquele Município veio numa tentativa desesperada por um pouco de respeito, pedir que se acabe com a boataria, com esses rumores que alimentam esta espécie de diz que disse, em versão mórbida e canalha.

Evitei ao máximo escrever sobre o tema pois apesar de muitas vezes pertinente, sempre me pareceu que atirar palavras num triste acontecimento como este, não repunha a dignidade roubada àqueles que ali infelizmente tombaram, no entanto, depois de horas e horas de verborreia sem nexo, desabafo aqui a minha perplexidade com a leviandade com que alguns se entretêm a ganhar audiências com tamanha desgraça.

Se morreram mais pessoas do que estava contabilizado, convêm que se concretize, se denuncie a quem de direito mas por favor deixem as parangonas para assuntos onde o debate possa permitir alguma dignidade e não para acrescentar vozearia ao desaparecimento de tanta gente...

De tantas famílias que ali se perderam.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

E Por Falar Em Suicídio...

 

A decadência de um político é muitas vezes confrangedora, muito mais nesta época mediática em que nos encontramos, no entanto, aquilo que ontem se passou com Pedro Passos Coelho, líder do PSD, vai muito para além deste nível...

O que fez o actual líder do PSD é nada mais do que o ultrapassar de todos os parâmetros da indigência humana, numa flagrante utilização de uma catástrofe para disputa política, comportando-se de maneira reles e deplorável.

Mesmo que na verdade, algumas pessoas tivessem se suicidado em consequência desta tragédia, muitas delas familiares, decorrente do incêndio de Pedrogão Grande, seria mesmo assim muito discutível, a utilização deste drama no contexto do combate político e na busca de obtenção de dividendos públicos com isso, no entanto, tendo em conta que o anterior Primeiro Ministro nem sequer se deu ao trabalho de verificar a informação, o seu gesto tornou-se ainda mais irresponsável...

O facto de a noticia ser falsa e baseada num rumor contada por um verme qualquer, por sinal seu correligionário, demonstra apenas o desnorte e o desespero em que se encontra o actual líder da oposição, mostrando também a falta de dignidade e de carácter que norteiam o seu pensamento.

Como pode alguém trazer para a praça publica este tipo de argumentação, sem que esta tenha de ser analisada com os critérios de um oportunista medíocre?

O pedido de desculpas que Passos Coelho mais tarde se viu obrigado a fazer, é curto, pequeno demais para o acto abjecto que cometeu, sendo também um sinal de que no meio de toda esta história, existiu mesmo um suicídio...

O seu.

Se porventura alguém tinha dúvidas, deixou de ter...

Pedro Passos Coelho, morreu politicamente.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Estrada da Morte!

 

 

 

Uma estrada silenciada;

Cheia de almas carbonizadas,

Uma estrada desgraçada,

Pintura amaldiçoada...

 

Pinceladas de cinzento;

Num quadro de sofrimento,

Pintando o tormento,

Soprado por aquele vento...

 

Uma estrada vazia;

Esvaziada naquele dia,

De gente que outrora sorria,

E num instante partia...

 

Tantas lágrimas escondidas naquele alcatrão;

Tantos sonhos que ali ficaram perdidos,

Tantos desgostos cravados no coração,

Por entre tamanho fogo maldito...

 

E continuam as chamas a arder;

Naquela estrada,

Naqueles corações,

Eternamente.

 

  

 

 

Pedrógão: As Lágrimas De Portugal...

 

 

 

Chovem lágrimas em forma de labaredas,

Gritos que ardem silenciados,

Rostos carregando as tristezas,

De pesadelos amargurados...

 

Nuvens impregnadas de terror,

Fumo que envolve sem parar,

Vidas que se escapam num ardor,

Num instante a flagelar...

 

Poeirentos pedaços de história,

Esvoaçando através do vento,

Trazendo na memória,

Tantas mortes e sofrimento...

 

E nas ruas de Pedrógão,

Nesses caminhos de Portugal,

Vai chorando o coração,

Deste povo sem igual...

 

Vai chorando,

Vai rezando,

Vai continuando a lutar.

 

 

Isto Às Vezes, Não Faz mesmo Sentido...

 

Ainda não consigo compreender como foi possível tamanha tragédia, como num instante tantas vidas foram roubadas, tantas famílias foram destruídas, tamanha tristeza tomou conta deste nosso País...

Ao ver as imagens que nos chegam através das televisões, em reportagens algumas delas a roçar a invasão da dor e privacidade daqueles que neste instante sofrem, não consigo parar de me questionar:

Poderá isto fazer sentido?

Que ensinamento poderemos nós retirar, de tamanha tragédia?

As histórias ali contadas, o desespero incutido nelas e nos rostos daqueles que ali encontram a dúvida e a incerteza do que perderam, é deveras demolidor para quem como eu assiste atónito, sem saber o que  escrever ou como imaginar aquele maldito inferno...

As emoções descontroladas, os silêncios diante da grandeza daquelas labaredas, daquele vermelhão que irrompe noite dentro, ceifando vidas, almas, recolhendo por entre os gritos os sonhos que certamente muitos ansiavam ainda cumprir.

Tanta imponência, incontrolada demência num quadro de terror...

É por isso que por vezes parece não fazer sentido.

É por isso que às vezes temos que procurar bem fundo, no interior da nossa alma para poder acreditar que em algum momento, fará sentido tamanha crueldade, tamanha dor num destino incompreensível.

Infelizmente o nome de Pedrogão jamais será esquecido por todos nós e com ele esta maldita recordação dos muitos que desapareceram.

 

 

Filipe Vaz Correia