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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Os Meus Olhos!

 

 

 

Se os meus olhos;

Te dissessem,

O que não podem dizer,

Se descrevessem,

O que não querem descrever,

Se gritassem,

O silêncio a doer,

Se revelassem,

As feridas a arder...

 

Se os meus olhos;

Reflectissem em ti,

Essa parte de mim,

Que ainda te ama...

 

Então;

Desesperançadamente,

Por entre a solidão,

Talvez voltasse a bater,

Descompassadamente,

Este apaixonado coração.

 

 

 

 

 

Estranha Forma De Viver

 

 

 

As palavras nesta carta;

Que te escrevo;

Escrevinhando com a alma,

A desdita de uma vida...

 

De um destinado destino,

Descrito de maneira indescritível,

Lágrima sem tino,

Desenho inexplicável...

 

Sincera forma de amar,

Perdida por entre segredos,

Amargura a guardar,

Os receios e medos...

 

Porque nesta estranha forma de dor;

Aprisionado doer,

Sobra tinta neste amor,

Nessa estranha forma de escrever...

 

E escrevinhando;

Sem parar,

Libertando,

Sem calar,

As letras pequenas em mim mesmo,

Me reinvento,

Reinventando,

Esta estranha forma de viver....

 

Que vive em mim.

 

 

Indecifrável...

 

 

 

Saberia o destino;

Esse que destinadamente me desencontra,

Saberia a desatino,

O caminho insolente,

Coração sem tino,

Do ardor ardente...

 

Saberiam as linhas deste poema;

Meio amarrado;

Enigma ou teorema,

Sofrimento improvisado,

Inexplicável dilema,

Da alma...

 

Saberia esse Deus;

Que tanto magoaria,

Esse maldito adeus,

Que eternamente ficaria,

Entre nós...

 

Pois apenas isso;

Sobrará,

Como epitáfio,

Do nosso olhar...

 

De um amor;

Indecifrável!

 

 

Pedaço Despedaçado...

 

 

 

Libertem-me das amarras;

Soltem-me destes gritos que me perseguem,

Arranquem os grilhões que me aprisionam,

Apaguem as imagens que me atormentam,

Tirem dentro de mim os olhares despedaçados,

Os pedaços de gente esventrados,

As almas desalmadas,

Que enfim se encontravam perdidas,

Naquelas estradas,

Reféns do seu destino...

 

Pedaços de gente;

Despedaçados...

 

Despedaçados;

Pedaços de gente...

 

Caminhei sem parar;

Olvidei sem olvidar,

Ousei continuar,

Deixando para trás,

O meu coração...

 

Viajando no meio da poeira;

Da cinzenta tristeza tão minha,

Vendo mortos na fogueira,

Num fogo interminável...

 

Fugi desse terror;

Mas aprisionado a cada um,

Daqueles que comigo se cruzaram,

Ali ficou também,

Um pedaço despedaçado,

De mim.

 

 

 

Mar

 

Os rituais repetem-se como um jogo de imagens que frequentemente reaparecem, num misto de recordações que ao sol me parecem preencher.

Os mesmos cheiros, as mesmas vozes, o mesmo rebuliço de verão.

Sinto-me outra vez criança, se é que algum dia o deixei de ser...

O sabor do verão sempre teve em mim essa espécie de nostalgia de algo que por vezes me inquieta, noutras vezes me serena e outras ainda me agita como se estivesse permanentemente a navegar.

O mar exerce em mim essa expressão maior da alma, uma agitação intrínseca que não consigo descrever.

Faz parte de mim, pertence-me, assim como, a ele pertenço.

Esta atracção que me acompanha desde a meninice, reporta-me ao olhar ternurento de minha mãe, aos ensinamentos de meu pai e a essa saudade infindável de tempos que fugiram.

No meio do mar, entrelaçado com a água salgada desse mar imenso que me aguarda, voo na imensa viagem da minha vida.

E com ela, de todos aqueles que guardo na alma.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

Desesperança

 

 

 

Sempre que revejo o teu olhar;

Reacende-se a esperança,

Não consigo negar,

Que se renova a querença,

De te amar...

 

Sempre que oiço a tua voz;

Quer o meu coração voar,

Partir por esses céus,

Sonhando navegar,

Por entre as ondas,

Deste amor...

 

Sempre que volto a acreditar;

Sempre que insisto em sonhar,

Sempre que pareço te reencontrar,

Sempre mas sempre...

 

Reaparece aquela lágrima;

Que me recorda aquele ardor,

Que tantas vezes me sobrou,

Como companhia...

 

E aí;

Volto a preferir a solidão,

Como companheira,

Derradeira,

Da minha desesperança.

 

 

Eras...

 

 

 

Ajoelhada e devastada;

Vai correndo,

Desbragada,

Vai gemendo,

Desengonçada,

Vai temendo,

Desamparada,

Vai querendo,

Desperançada...

 

E vai continuando a sorrir;

Enquanto arde aquela dor,

Vai continuando a sentir,

Que já não sente aquele amor,

Que escapou...

 

Deixando um nada;

Do tamanho de um tudo,

Assim como tudo,

Eras tu para mim.

 

 

 

 

 

Melodiosa Infelicidade...

 

Uma estrada longínqua, distante, caminhada interminável sem olhar para trás, esquecendo as amarguras, as dores que a alma insiste em recordar, recordando ansiosamente esses eternos momentos que para sempre nos definirão...

Em cada momento, a cada sentido sentimento, buscando em olhares perdidos, os reencontros que se foram, que parecendo eternos se diluíram nessa realidade sofrida ou no sofrimento real que nos invade.

Uma estranha beleza poética descrita por palavras, por vezes omitidas, outras ainda silenciadas, num repetido afastamento, quase bailado, num cenário cristalino, imaginário, tão inexpugnável como a fortaleza de areia que outrora se encontrava altiva, numa qualquer praia...

Palavras amarradas umas às outras, aprisionadas numa corrente de memórias, desconexas, embaciadas pelo tempo, o mesmo que outrora nos fizera voar e percorrer sem amarras os mundos escondidos, na irrealidade imortal de um destino...

Os céus pejados de nuvens, de medos e anseios, de gritos e receios, de futuros adiados, numa esperança interminável, de reencontrar em cada olhar, em cada pessoa, o mesmo sorriso, a mesma expressão, que sem recordar ainda guardo sem saber.

E pincelando com letras, a folha de papel, escrevinhando soletradamente as divagações entrelaçadas que parecem se libertar secretamente, numa melodiosa desesperança, tornada canção...

Uma a uma, pintadas nesse quadro como o som de um piano, a leveza de um violino, a simplicidade de uma lágrima tão discreta como infeliz.

Mas sempre poética, sempre guardada na beleza verdadeira de um singelo e sentido querer, que nunca deixou de o ser...

Verdadeiro.

 

 

Filipe Vaz Correia