Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Caneca de Letras

Caneca de Letras

Nove Andares De Um Milagre!

 

São estes os momentos em que reencontro a minha crença interior, a mesma, que por vezes ouso questionar...

Este terrível desastre que aconteceu em Londres, naquele prédio transformado em inferno, mar de chamas que insistiu em devastar vidas e mais vidas, que ali em suas casas buscavam apenas mais um momento de conforto entre os seus, fez me suster a respiração e voltar a suster.

Como é possível?

Nestes momentos olho para o céu e pergunto-me vezes sem conta:

Como foi possível?

E depois ouve-se uma história, escuta-se o espanto transformado em realidade daquela Mãe triste e desesperada, que atira o seu filho de um nono andar, embrulhado em lençóis na esperança de pelo menos esse pedaço de si, poder sobreviver...

Descendo pelos céus, através da gravidade descontrolada, ali vem uma criança tal e qual como um pássaro sem asas, descendo por entre a estrada do seu destino, amparada pelo amor de sua mãe e certamente...

Pela intervenção divina.

É aqui, nestes momentos que a minha alma regressa ao que intrinsecamente acredita, àquele reencontro com a fé.

E num milagre sem explicação, um homem, nove andares depois, segura com as suas mãos aquela criança que lhe fora entregue pelo desespero daquela mãe, viajando através do amparo de Deus...

Pois só Deus poderá garantir que tal viagem corra bem.

Assim, pensando naquela Mãe, imaginando aquela criança, recordando esta história, escolho sempre o milagre pois existe sempre nele incluído, uma espécie de esperança em que vale a pena crer.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

Chapecoense: Viajar pela eternidade...

 

Domingo à noite deixei-me levar pela festa do grande Palmeiras, Clube Paulista que muito gosto, desde os tempos do seu goleiro Marcos...

Desde os tempos de Felipão.

Naquele estádio cheio de gente, de esperança, 22 anos depois, por uma festa que já nem sabiam como comemorar, diante dos meus olhos, onze jogadores se opunham à minha vontade, à vontade de tantos Palmeiristas de fazer história.

Esses jogadores eram da equipa do Chapecoense, daquele pequeno clube que se transformara em grande, depois de uma época de sonho.

Sonhar não é impossível, diriam muitos ao ver a carreira destes jogadores, em nome daquele pequeno clube, chegando até ao Olimpo sem pedir permissão a ninguém...

Final da Copa Sul Americana de futebol.

Dois dias depois, fica em todos nós esta triste sensação que neste caso o sonho fugiu, por entre as nuvens e as asas que sobrevoavam o céu de Medellin.

O que pensei primeiro?

Marcelo...

Marcelo Boeck!

Sempre acompanhei Marcelo Boeck, desde os tempos do Maritimo e ainda mais quando assinou pelo Sporting Clube de Portugal, clube da minha vida...

Foi por ele que comecei a ver jogos do Chapecoense, a me interessar pelos seus resultados, pela caminhada que empreendiam.

Marcelo Boeck sobreviveu, mas tantos morreram...

Caio Junior, que fez parte do meu imaginário de menino, naquelas equipas do Vitória, com Neno, Ademir, Paulinho Cascavel, N'Dinga, Paulo Bento, Pedro Barbosa, Carvalho, Silvinho,Chiquinho Carlos entre outros, e muitos outros que agora, noutra etapa de uma vida, se esforçavam para registrar o seu nome no imaginário de tantos outros meninos, que certamente acompanhavam esta caminhada em direcção aos seus sonhos.

A vida é complicada, dificil de discernir, de descodificar, trazendo com essa benção que é viver, muitos enigmas, incertezas...

Como tão perto do Olimpo, foi possível aterrarem num inferno?

Honre-se estes homens que de uma forma diferente daquela que esperavam, se transformaram em lendas para o resto da eternidade, tal como:

A equipa do Torino, Manchester United, da Zâmbia ou Allianza de Lima entre outras...

Não irão festejar, não estarão presentes mas jamais serão esquecidos.

Ainda recordo aquele jogo, aquela festa, aqueles jogadores...

Aquela festa, aquela euforia, que deixou de fazer sentido, de ter lugar.

Como é pequena a vontade dos Homens, perante os desígnios que desconhecemos...

Viva o Chapecoense, viva a sua memória.

 

Filipe Vaz Correia