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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Eternamente Criança...

 

A imaginação sempre me aproximou de um mundo só meu, guardado por entre os monstros que me acompanham desde criança, dos amigos imaginários que sempre estiveram presentes, nas milhares de aventuras que percorri no recato do meu quarto ou nas correrias por aquelas ruas de Santa Luzia...

Ainda hoje quando fecho os olhos facilmente me transporto para uma sala escura, pejada de cortinados feitos de asas de morcegos, com as paredes cravejadas de olhos, atentos, que parecem me observar, enquanto eu aguardo...

Esperando que o mistério se desfaça e possa finalmente me bater num duelo com um qualquer rival.

Ou mesmo, um campo florido a perder de vista onde cavalgo no meu cavalo branco, de crina castanha e com as asas recolhidas, preparadas para voar se necessário for.

Como regressar por instantes a tempos onde podemos ser quem queremos, como queremos, sempre que queremos...

Momentos onde a vida não esmagava essa criança interior que por vezes insiste em permanecer, insistindo em ficar, nesse estranho direito que temos de não deixar de brincar.

Como pode ser estranho neste mundo tão sério e enfadonho, deixar que dentro de nós, ainda viva uma criança?

Aquela criança que um dia fomos?

Por vezes sinto-me assim...

Ou melhor, recordo como me sentia, nesses tempos distantes.

Será que assim permanecerei, se chegar aos 90 anos?

Ou será que acharão que se tratará de uma qualquer loucura, própria da idade?

Pois bem, até lá, prefiro percorrer os trilhos da minha imaginação, sonhar acordado, buscando através destas linhas o reencontro com esse pedaço de mim, que se nega a deixar de ser criança.

 

 

Filipe Vaz Correia

Nove Andares De Um Milagre!

 

São estes os momentos em que reencontro a minha crença interior, a mesma, que por vezes ouso questionar...

Este terrível desastre que aconteceu em Londres, naquele prédio transformado em inferno, mar de chamas que insistiu em devastar vidas e mais vidas, que ali em suas casas buscavam apenas mais um momento de conforto entre os seus, fez me suster a respiração e voltar a suster.

Como é possível?

Nestes momentos olho para o céu e pergunto-me vezes sem conta:

Como foi possível?

E depois ouve-se uma história, escuta-se o espanto transformado em realidade daquela Mãe triste e desesperada, que atira o seu filho de um nono andar, embrulhado em lençóis na esperança de pelo menos esse pedaço de si, poder sobreviver...

Descendo pelos céus, através da gravidade descontrolada, ali vem uma criança tal e qual como um pássaro sem asas, descendo por entre a estrada do seu destino, amparada pelo amor de sua mãe e certamente...

Pela intervenção divina.

É aqui, nestes momentos que a minha alma regressa ao que intrinsecamente acredita, àquele reencontro com a fé.

E num milagre sem explicação, um homem, nove andares depois, segura com as suas mãos aquela criança que lhe fora entregue pelo desespero daquela mãe, viajando através do amparo de Deus...

Pois só Deus poderá garantir que tal viagem corra bem.

Assim, pensando naquela Mãe, imaginando aquela criança, recordando esta história, escolho sempre o milagre pois existe sempre nele incluído, uma espécie de esperança em que vale a pena crer.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

Um Sonho De Criança!

 

 

 

Era uma vez;

O sonho de uma criança,

Sempre preparada para voar,

Levando nos olhos a esperança,

De um dia o concretizar...

 

E foi crescendo a sonhar,

Com essa constante ilusão,

Por entre o eterno viajar,

No cockpit da sua imaginação...

 

E um dia ao acordar;

Já não era um menino,

E estava a realizar,

O sonho do seu destino...

 

E assim nesta esplanada;

Vive concretizada,

A ilusão imaginada,

Do que um dia,

Aquela criança sonhou.

 

 

 

 

Os teus Olhos!

 

Pelos teus olhos;

Vejo o mundo,

E revejo enternecido,

Esse passado distante,

Outrora vivido,

Saudade constante,

Num presente perdido...

 

Através dos teus olhos;

Recordo tantos sonhos que se perderam,

Tantas vontades ausentes,

Que ficaram lá atrás,

Em cada lágrima por chorar...

 

E nesses olhos de criança;

Em cada passo aprendido,

A cada palavra de esperança,

Em cada gesto já vivido,

Nesse tempo, minha herança,

Daquele menino,

Que um dia fui...

 

 

 

Um Abraço Maior Do Que A Vida!

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O mundo carregado de ódios, de problemas, desigualdades, ameaçado por ensaios nucleares, por palavras fracturantes, por olhares temerosos...

E então chega, um retrato, uma imagem que nos faz compreender que nada disto faz sentido!

Bradley Lowery é um menino Britânico, de cinco anos, que tem uma doença terminal, uma rara forma de cancro ( Neuroblastoma ) e que vive apaixonado pelo seu Sunderland, clube inglês de futebol.

O jovem Bradley que se encontra internado num hospital, sujeito aos tratamentos que lhe garantem mais algum tempo de vida, recebeu extasiado a visita de alguns jogadores, do seu Sunderland, dando-lhe assim uns raros momentos de alegria, num caminho pejado de sacrifícios.

Mas um desses jogadores, representava mais do que qualquer outro, do que qualquer visita, do que qualquer brinquedo...

Jermain Defoe, avançado inglês que estando no ocaso da sua carreira, deve nesse dia ter recebido o maior troféu, que alguma vez imaginara...

O amor incondicional daquela criança.

O jovem Bradley, brincou até mais não conseguir, deleitou-se com aqueles ilustres convidados que só conhecera nos seus mais ambiciosos sonhos e quando a visita chegou ao fim, agarrou-se a Defoe não o deixando ir embora...

O que fica é a imagem desse famoso jogador, naquele momento apenas humano, deitado na cama daquele menino, naquele hospital, com os braços de Bradley envolvendo o seu ídolo e adormecendo, provavelmente sonhando, com um golo magistral marcado por si, a passe do soberbo Jermain Defoe.

E que golo deverá ter sido, no coração cansado daquele menino.

Ao ver esta fotografia, de facto tudo perde importância, nada de facto é mais importante do que estes valores da fé, do amor, do fraterno abraço com o outro...

Imagens como esta, despem-nos e despedaçam as incertas certezas mundanas que por vezes tomam conta do nosso quotidiano.

Assim uma singela bola de futebol, pode mover vontades, num simples gesto arrebatador que valerá muito mais, do que  mil decretos, fatwas ou discursos...

Porque nada terá mais valor, do que a fraternal leveza do ser!

Que Deus te proteja, meu querido Bradley!

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

Sem-Abrigo...

 

Porque te chamam sem-abrigo?

Velho que já foste criança,

Só porque não tens um amigo,

E perdeste essa esperança...

 

Esse vazio no teu olhar;

Esse desespero no teu rosto,

Tantas mágoas a contar,

Uma vida de desgosto...

 

Pesadelos sem pudor;

Disfarçando embriagado,

Recordando um amor,

Que ficou preso nesse passado,

Que atormenta sem parar...

 

Já não volta, não regressa;

Esse tempo que te restou,

A essa história já perdida,

Nesse coração que um dia, amou...

 

E por isso, bem agasalhado,

Entregue às ruas despidas,

Por entre um frio, bem gelado,

Tentando esquecer essas feridas,

Que te deixaram,

Sem-Abrigo!

 

 

 

Alma...

 

Revejo-me nesses teus olhos;

No que escondem, guardam,

Nesses mundos desencontrados,

No que contam, magoados...

 

Revejo-me nesse fundo, esconderijo;

Onde guardas a angústia e a dor,

Do que perdeste, te falhou,

Nessa amargura, esse temor...

 

Revejo-me na ternura, candura;

Na viagem que me querem contar,

Naquilo que foi a aventura,

De que tanto me querem falar...

 

Revejo-me nesse tamanho medo;

Na imensa ansiedade,

Esse reflexo, segredo,

Impregnado de saudade...

 

Revejo-me nessa alma de criança;

Nesses passos gravados na memória,

Nesse olhar que já foi de esperança,

Perdidos noutra história...

 

 Revejo-me nesses olhos;

Do menino que um dia fui,

Revejo-me nessa alma,

Do homem que hoje sou!

 

 

Debaixo da minha cama...

Era uma vez um menino, que tinha medo dos pesadelos que se escondiam debaixo da sua cama, à noite, no seu quarto, naquela escuridão imensa que assombrava a imensidão da sua pequena alma.

Aquele quarto pequeno, aquele tecto trabalhado, aquelas sombras meio perdidas, escondidas que ameaçavam polvilhar aquela tenra imaginação...

Tinha medo que o levassem, que o aprisionassem nesse mundo obscuro escondido debaixo da sua cama e de onde era possível sairem os monstros mais terríveis alguma vez imaginados.

Nem a luz de presença o tranquilizava, nem os passos dos adultos o reconfortavam, nem a esperança sem fim de que a sua mãe o viesse tapar o deixava tranquilo, menos nervoso...

Tanto medo num pequeno coração, num menino que se escondia debaixo dos lençois.

A coragem que ele queria ter, por vezes parecia se apróximar, encher a sua alma e numa força sem fim, dar-lhe aquele pedaço de determinação para sorrateiramente espreitar para debaixo daquela cama, às vezes navio, buscando corajosamente encontrar o vazio que racionalmente ali teria de estar...

Mas essa determinação passava, esse medo regressava, voltava, vindo do nada, preenchendo novamente esse receio imenso que teimosamente insistia em não se calar.

Esse menino cresceu, esse quarto já não lhe pertence, essa cama já não existe, esse medo desapareceu...

Esse menino guardado no fundo da minha alma, já não chora com medo dos monstros que se escondem debaixo da sua cama, já não receia a escuridão que se instalava no seu quarto...

O menino que um dia fui, apenas sente saudades, desse tempo, desses medos próprios de uma irrequieta imaginação, dessa imensa angústia de perder aquilo que tanto estimava...

A infância que não regressa.

 

Filipe Vaz Correia

Meu Querido Amigo...

 

Faltou-te tempo para viver;

Faltou-te tempo para amar,

Faltou-te tempo para crescer,

Faltou-te tempo...

 

Sobrou tempo para esta dor;

Sobrou tempo para tamanha Saudade,

Nesse tempo sem temor,

De levar esta amizade...

 

Destino ladrão;

Vagabundo,

Cancro maldito,

Sem vergonha,

Nesse grito profundo,

Que se liberta...

 

Caminho inacabado;

Uma vida por cumprir,

Planos, desejos imaginados,

Sonhos a fugir...

 

Ainda recordo o teu olhar;

A esperança e a frustração,

Que por vezes tinha lugar,

Dentro do teu coração...

 

Tantos anos se cumpriram;

Já não voltam,

Não regressam,

Desde essa tua despedida,

Que não sara, ferida...

 

Não consigo trazer-te de volta;

Nem voltar a te abraçar,

Nessa espécie de revolta,

Que por vezes quer escapar...

 

Ainda sinto a tua falta;

Ainda recordo aquele abraço amigo,

Aquelas travessuras de criança,

Que passei contigo...

 

Saudades, eternas, tuas;

Amigo que sempre quis,

Dessas lembranças nossas;

Luis!

 

Criança

 

Um, dois, Três;

Fechei os olhos com esperança,

De voltar, outra vez,

A ser de novo criança...

 

Um, dois, três;

Contei novamente a cantar,

O sorriso que se fez,

Naquela criança a brincar...

 

Quero regressar no tempo;

Aos momentos em que era quem queria,

Sem receio, julgamento,

Apenas sonho, alegria...

 

A correr sem parar;

A saltar sem temer,

A escorregar devagar,

A cair sem doer...

 

Quero voltar a crescer;

A ser criança e sonhar,

A voltar a aprender,

Que é possivel voar...

 

Um, dois, três;

Ver o mundo pela primeira vez;

Quero tudo outra vez...