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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Nem Sempre...

 

Nem sempre a incondicionalidade é incondicional, assim como, nem sempre a nobreza é nobre, a cobardia medonha, a coragem heróica, a verdade sincera.

Nem sempre o orgulho é essencial, nem sempre a esperança é verdadeira, nem sempre a certeza é certa, assim como, nem sempre a incerteza é constante.

Nem sempre o olhar diz tudo, nem sempre as palavras traduzem o olhar, nem sempre...

Nem sempre a eternidade é longínqua, nem sempre é longínqua a temporalidade dos afectos, nem sempre o abraço reconfortante, conforta.

Nem sempre é existencial, a ternura imensa que resiste e nem sempre é possível acreditar...

Nem sempre...

Nem sempre!

Nem sempre é forte o suficiente, esse desmedido amor que insiste em permanecer...

Nem sempre...

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

 

Sussurrando...

 

 

 

Sussurrando no meio da estrada;

Encontrei o meu coração,

Confuso gritava,

A embargada emoção,

De se ter perdido...

 

Desistido de tamanho destino;

Dessa imensa contradição,

Pedaço de desatino,

Gigantesca desilusão...

 

E desiludido trauteava;

Trauteando esses versos renegados,

Enquanto sozinho caminhava,

Por entre ventos desnorteados...

 

Sussurrando no meio da estrada;

Lá continuava,

Aquela que um dia,

Foi a minha alma.

 

 

Levantei-me...

 

 

 

Levantei-me tantas vezes;

Sozinho,

Desconhecendo a imensa escuridão,

O medo presente desse desconhecido...

 

Porque em mim,

Existia essa fé em ti,

Que abraçava a cobardia,

Emergente coragem,

Encapotada,

Da alma...

 

Levantei-me tantas vezes;

Apesar de não existir,

O que existindo se calava,

Embargando o coração...

 

Levantei-me tantas e tantas vezes;

E de cada uma delas,

Valeu a pena,

Sempre valeu...

 

Mas agora...

 

Deixemos o tempo correr;

A viagem continuar,

A memória esquecer,

Que um dia...

 

Existiu tamanho amar.

 

 

 

 

 

A Minha "Antiga" Casa!

 

Do lado de fora de casa, tudo parece igual...

Tantos anos depois e tudo parece igual.

Apenas parece...

As persianas corridas, as mesmas persianas, o mesmo branco nas paredes do prédio, a mesma porta de ferro verde.

Do lado de fora de minha casa, que não me pertence mais, até aquele cheiro que insisto em recordar, parece querer se reencontrar comigo.

Mas nada está igual...

Nada mais será igual.

Aquelas janelas estão vazias de mim, dos meus, aquelas paredes que talvez ainda me reconheçam, têm agora outros olhares, outras vozes, outras vidas como companhia.

E eu ali parado...

Expectante por amarrar em mim, aquele instante em que penso voltar no tempo, para esse momento, para tantos e tantos momentos onde fui feliz.

Mais de 30 anos, por entre aquelas escadas de madeira, por entre o barulho constante dos eléctricos que à minha porta passavam.

As minhas primeiras interrogações ali surgiram e ali morreram, os primeiros medos ali nasceram e por lá ficaram, os primeiros sorrisos que ali me surpreenderam e ainda ali devem ecoar...

Naquelas paredes estão cravadas as minhas primeiras lágrimas e em lágrimas dali me despedi.

Ainda ali estou, apesar de não estar, ainda ali estão sonhos e desilusões, conversas e desesperos, abraços e beijos, perdidos eternamente...

Sempre eternamente, assim como eterna, é esta memória que me envolve.

Do lado de fora desta casa que sempre será a minha, parto, despedaçadamente infeliz, buscando nessas memórias, o contentamento que tantas vezes senti.

Pois ali nasci, cresci...

E ali sempre ficará parte de mim.

Até um dia.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Houve Um Tempo Que Findou...

 

 

 

Tinha escrito numa folha de papel;

Há muito tempo atrás...

 

Há tanto tempo;

Que escrevera tais palavras;

Enganadoras palavras,

Que trazidas pelo vento,

Amarravam à esperança,

A inquietude...

 

Mas o tempo passou;

E com ele esvoaçaram as palavras,

Para um longínquo destino,

Onde esmoreceram abandonadas...

 

Abandonadas e esquecidas;

Solitários quadros,

De antigas feridas,

Que jamais sararão...

 

Houve um tempo;

Bem distante,

E ao mesmo tempo presente,

Onde a minha voz hesitante,

Queria gritar...

 

Houve um tempo;

Que findou.

 

 

 

As Grades Da Minha Cela...

 

As grades na janela, a escuridão meio encoberta que daqui vislumbro...

Encarcerado, aprisionado a este desgosto, destemperado gosto, de um passado que aqui me amarrou.

Não sou dono de mim...

Não me pertence este destino, dentro da alma que vive com os erros desmedidos, que desmedidamente tenho de abraçar.

As grades desta janela, que me separa do mundo e que ao mesmo tempo é a minha porta para ele...

É através dela que consigo respirar lentamente, vendo os pássaros no céu, livres, esvoaçando como se nada mais existisse.

Como tenho saudades...

Saudades de mim, dessa parte de mim mesmo que ainda é senhora de si, dessa liberta vontade de gritar.

Gritar loucamente, sem nada sufocando o sonho, que eu mesmo tratei de matar.

Sozinho...

Na madrugada gélida, silenciosamente ternurenta, sem grilhos, sem cárcere, sem algozes.

Nesse momento, levanto-me desta maltrapilha cama e aproximo-me dessa mirífica janela, ignorando as mesmas grades, sempre elas, que me impedem de voar...

Nesse momento volto a ser livre, volto a querer ser livre novamente.

Mas só nesse instante, pequeno instante em que pareço esquecer o que jamais poderá ser esquecido, por entre as lágrimas que me invadem, esmagam essa finita crença impossível.

As estrelas que brilham na noite fria, as vozes caladas que parecem saber o quão importante é para mim, aquele singelo segundo, onde me encontro desencontrado...

As grades da minha janela voltam a cintilar, a brilhar em contraste com o meu perdido olhar, recordando-me de que não passo de um número.

Um número sem vida, sem alma, sem nada.

Apenas a soma desses pecados que eternamente expiarei...

Que eternamente tentarei expiar, desde a janela, desta cela que me pertence.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Quantas Vidas Tem Um Amor?

 

Por vezes a vida escreve por nós o guião, mesmo que tenhamos a ilusão que não...

Que somos nós quem a redige, que é nossa a pena que traça as decisões de um momento, o olhar que se dirige por entre o horizonte.

Os encontros que se aproximam, programadamente ilusórios, de um destino que a muito custo tentamos amarrar aos planos imaginados da pequena alma.

No longínquo passado pejado de escolhas, mora a incerta dúvida que um dia se apresentou, a certeza intermitente que pareceu acertada, a convicção que somos senhores desse destino, tão nosso.

Mas não...

Por vezes não!

Por vezes e só por vezes, chove sem parar, desaba em nós a duvidosa expressão da alma, entrelaçada com a tristeza imensa que parece eterna, somente eterna, para sempre eterna.

Outras vezes, ela se atenua, essa mesma tristeza que desvanece, por entre um sorriso que se encontra ao virar de uma esquina, num reencontro desconhecido, naquele olhar repetidamente irrepetível.

A mesma empatia de sempre, mesmo que esse sempre, seja inexplicável, de tempos em que a memória não alcança, pois não consegue regressar ao lugar, onde se esconde o derradeiro enigma...

A vida!

Todas as vidas!

Cada vez que a morte reclama esse fim, que resgata para si todos os encontros de uma existência, se apagam na dor os pedaços desencontrados, desses mágicos momentos, onde se amou perdidamente...

Onde perdidamente se amou.

Mas por vezes, poucas as vezes, ultrapassando a razão que insiste em se afirmar, deixando para trás a noção terrena de finitude, se desamarra a imaginação, se liberta do universo a velha chama e se reencontra uma pequena parte de mim, que foste tu...

Ou uma imensa parte de ti, que um dia, me pertenceu.

Nesse momento, mágico instante, volta a fazer sentido o inexplicável olhar, a inacreditável dimensão da alma, sem se explicar, pois não tem explicação o que para lá da razão se encontra.

E apenas o amor...

O raro amor, poderá compreender o que se esconde por entre as nuvens do tempo.

O intemporal tempo, de tão infindáveis destinos...

Do nosso infindável destino. 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Entre Memórias E Sonhos!

 

Navegando em alto mar sobre o cristalino azul, esse azul cristalino que intermitentemente seduz, deslumbrando sem parar, essa parte que insiste em buscar, por entre as águas, um desencontrado pedaço de mim mesmo...

Um pedaço de passado, escondido no fundo do mar, que abrasadoramente descansa sem se perder, e se vai perdendo misteriosamente na alma, que me pertence.

Buscando pessoas e rostos, esquecidos, adormecidos reencontros, meio despertos na infinita recordação que se entrelaça, com aquela imensidão resplandecente.

Nada poderia ter mais sentido, fazer mais sentido...

A espuma ao passar do barco, deste barco em que me encontro, trilhando ali um desejado percurso, naquele lugar que parece eternamente meu, naquele horizonte por descobrir...

Parece que tudo me pertence, sem nunca ali ter estado, misturado com aquele sorriso perdido que esforçadamente desejo encontrar, abraçando desmesuradamente a contradição em mim mesmo.

Tantas e tantas palavras amarradas ao ondular daquele barco, ao constante perder por entre mar e céu, numa infinitude que assusta...

Assusta assustadoramente a pequenez do bater do meu coração, destemperadamente só, num singelo vazio, assemelhada solidão da fugacidade intemporal.

Desejo mergulhar...

Tão profundamente quanto me permitir o sonho, sonhando intensamente, num silêncio ruidoso que desvanece devagarinho.

Tão profundamente...

Que a alma pudesse reencontrar aquele outro olhar, outra vez.

Outra e mais outra.

Mas se calhar, é equivoco, é um desesperante equivoco.

Se calhar esse mar é sangue, assim como de sangue serão as lágrimas que salgam cada parte, discretamente ousada do pensamento.

Como é sangue cada partida tua, vida após vida, até ao inusitado momento em que à distância, voltamos a vislumbrar o desenho de uma nova vida...

Mas e se for a última viagem?

O último reencontro desta intemporal viagem?

Só no fundo daquele mar repousarão as respostas, morrerá a saudade, se esconderá infinitamente tamanha resposta, tamanha tristeza, desenhada em telas eternas.

E assim, continua o barco a navegar, o mar a reluzir e o sonho a esvoaçar como se nada mais fosse importante, como se por uma vez, o passado e o presente fossem um só...

Um só!

 

 

Filipe Vaz Correia

Alma Minha...

 

 

 

Na beira de uma estrada;

Longa e empoeirada,

Se esconde desesperada,

Esse pedaço de nada;

Em que se tornou a minha alma...

 

Na imensidão do mar;

Ondula sem parar,

Essa vontade de chorar,

Perdido aconchegar;

Desta minha alma...

 

Na ardente ferida;

Mágoa perdida,

Renasce sentida,

A dor outrora esquecida,

Em minha alma...

 

E ali aprisionada;

Como numa ilha encantada;

Se eterniza,

O retrato de uma velha alma.

 

 

 

 

 

 

 

Silenciosamente!

 

 

 

Nos silêncios se esconde a vontade;

Incessante forma de escrever,

Se escondem saudades,

Difíceis de esquecer...

 

Nos silêncios vivem memórias;

Desabitada consciência,

Velhas histórias,

Amargurada desistência...

 

Nos silêncios bem trancados;

Esmorecem as ilusões;

Desaparecerem desencantados,

Anteriores emoções...

 

Nos silêncios;

Na silenciosa folha de papel,

Vai escrevinhando a triste alma,

O que da triste alma se escapou...

 

Silenciosamente;

Sem voltar.