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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Através Dos Teus Olhos!

 

 

 

Através dos teus olhos;

Revejo nesse espelho,

O contraditório sentir da vida,

Complexo enigma,

De uma aventura desconhecida,

Que desconheço...

 

Através dos teus olhos;

Anseio voar,

Descobrir as interrogações,

Desse imenso navegar,

Que nos aprisiona...

 

Através dos teus olhos;

Vejo as vidas que passaram,

As viagens que fizemos,

Que juntos nos escaparam,

Noutros lugares...

 

Através dos teus olhos;

Vejo o mundo,

Vislumbro sem receio,

Esse abraço profundo,

Que eternamente nos une.

 

 

A Contraditória Aventura Da Alma!

 

 

 

Escrevendo desalinhadamente;

Juntando as letras descompassadamente,

Agrupando as ideias desorganizadamente,

Libertando as lágrimas que intrinsecamente,

Me sufocam intermitentemente,

Por esse destino insistente,

Na ausência que eternamente,

Se faz sentir ausente...

 

Escrevendo desalmadamente;

Os anseios que reticentemente,

A minha alma descrente,

Ainda sente...

 

Sentindo desmesuradamente!

 

 

 

 

Infância Perdida!

 

Um quarto escuro;

Tão escuro como o breu,

Num silêncio, sussurro,

Tão só, tão meu...

 

Uma casa abandonada;

De afetos, atenção,

Nessa infância desamparada,

Despertando essa sensação,

De abandono...

 

Despertando as lágrimas;

Amargurada insensatez,

As insensatas agruras,

Amarrada pequenez...

 

Tormento, desfavor;

Em cada imagem não esquecida,

Apunhalada dor,

Infância perdida...

 

Um quarto escuro;

Tão escuro como a minha alma;

Como os fantasmas que perseguem,

O destino que me sobra.

 

 

 

Abandono...

 

Cantarolei devagarinho;

Esta canção ao ouvido,

Sem saber que pelo caminho,

Encontraria meio perdido,

O meu coração...

 

Trauteei em segredo;

Os destinos desencontrados,

Receosos e com medo,

Desses verbos amarrados,

À esperança...

 

Caminhei sem parar;

Fugindo, viajante,

Das lágrimas a lembrar,

Cada passo hesitante,

Que deixei de dar...

 

E aprisionado ao vento;

Deixei escapar o sofrimento,

Desistindo desse tormento,

Em que se tornou,

O teu amor.

 

 

Apeadeiro da Vida!

 

Um comboio no apeadeiro;

Um mundo que nos aguarda,

Destino primeiro,

Que de soslaio nos observa,

Pedaço inteiro,

Da nossa caminhada...

 

Uma viagem;

Sem retorno;

Retornando vezes sem conta,

Numa aprendizagem, reencontro,

Com os nossos pecados...

 

Com as duvidas permanentes;

As hesitações constantes,

As encruzilhadas presentes,

Mágoas distantes,

Sempre próximas...

 

E em cada lágrima;

Uma emoção,

Resguardada aprendizagem,

Outra vida, estação,

Renovada carruagem...

 

No apeadeiro da vida.

 

 

Quantos Mundos Habitam a Minha Alma?

 

Tenho vozes dentro de mim;

Personagens a gritar,

Mundos sem fim,

Aventuras a desbravar,

A minha intensa imaginação...

 

Tenho dores que desconheço;

Angustias que não me pertencem,

Tristezas em que esmoreço,

Mágoas que não esquecem,

O desconexo desconhecimento, meu...

 

Tenho amigos imaginários;

Viagens nunca feitas,

Caminhantes, templários,

Sensações imperfeitas,

Caminhos extraordinários...

 

E escrevinhando sem parar;

Gritando sem gritar,

Libertando sem soltar,

Permito-me sonhar...

 

Sonhando com esses mundos;

Que polvilham,

A minha alma.

 

 

 

A Casa D'Aguarelas!

 

Estou sentado no mesmo cadeirão do meu pai...

Do meu avô...

Do meu bisavô.

Estou sentado na mesma sala de estar, com as mesmas janelas, com os mesmos quadros, com a mesma lareira acesa que há tantas gerações, acompanha os destinos da minha família...

Esta casa outrora cheia de vida, de luz, de histórias, onde revejo a correr os antepassados que não cheguei a conhecer, os filhos que tantas alegrias me trouxeram, as noites estreladas que iluminavam o jardim, as vozes que polvilhavam a minha vigorosa alma.

Aqui sentado revejo aquele menino de calções pelos joelhos, descobrindo em cada recanto daquela casa, o mundo imaginário que despertava a mente curiosa dessa minha infância...

Os beijos que troquei com aquela que seria a mulher da minha vida, nessa adolescência tão imberbe e ao mesmo tempo, tão repleta de memórias.

As primeiras certezas, nessa incerta vontade de crescer...

As primeiras tristezas, de um familiar a morrer e as inevitáveis facetas da vida humana.

Sentado neste cadeirão, recordo esses dias e noites, pincelando essa tela, misturando as aguarelas, nessa cor que acabaria por definir o rumo do meu destino...

Nesse quadro inacabado e em constante evolução, por essa estrada que se revelou, na mais bela viagem que algum dia vivi.

Agora aqui estou, sentado sozinho, no meio desta escuridão, apenas com a lareira acesa, as janelas fechadas, as cortinas descerradas e um copo de whisky gelado, aguardando o fim deste caminho...

Nesta casa vazia, despida dessa vida que um dia a preencheu, espero o reencontro com esse passado que apenas vive em mim e nestas paredes cansadas da minha velha casa.

E assim, sentado no cadeirão, que já pertenceu ao meu pai, ao meu avô, ao meu bisavô, aguardo a hora de serenamente partir...

Partindo por entre a última pincelada, colorindo esse quadro, por fim terminado...

Representando em cada traço nessa tela, em cada cor de aguarela, o meu colorido destino.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

Alma...

 

Revejo-me nesses teus olhos;

No que escondem, guardam,

Nesses mundos desencontrados,

No que contam, magoados...

 

Revejo-me nesse fundo, esconderijo;

Onde guardas a angústia e a dor,

Do que perdeste, te falhou,

Nessa amargura, esse temor...

 

Revejo-me na ternura, candura;

Na viagem que me querem contar,

Naquilo que foi a aventura,

De que tanto me querem falar...

 

Revejo-me nesse tamanho medo;

Na imensa ansiedade,

Esse reflexo, segredo,

Impregnado de saudade...

 

Revejo-me nessa alma de criança;

Nesses passos gravados na memória,

Nesse olhar que já foi de esperança,

Perdidos noutra história...

 

 Revejo-me nesses olhos;

Do menino que um dia fui,

Revejo-me nessa alma,

Do homem que hoje sou!

 

 

O que esconderia eu?

Se cada palavra tivesse valor;

Se cada olhar fosse importante,

Se cada sorriso fosse apenas dor,

Então o que esconderia eu?

 

Se cada cheiro significasse algo;

Se cada beijo fosse verdadeiro,

Se esse sentimento fosse inteiro,

Então o que esconderia eu?

 

Se em cada gesto fosses tu;

Se fosses tu em cada momento,

E se eu pudesse voltar atrás no tempo,

O que esconderia eu?

 

E se eu escondesse alguma coisa;

Perdida no meu pensamento,

Ruidoso sentimento,

E um dia te pudesse revelar...

O que diriam os teus olhos?

 

Talvez se perdessem nos meus.