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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Sotaques...

 

É impressionante como certas coisas mexem com o nosso imaginário, com as nossas memórias, as mais felizes, as mais escondidas dentro de nós.

Como já aqui escrevi passei férias em Monte Gordo, local aonde volto ano após ano, há décadas, onde me sinto feliz repetindo os mesmos sitios, jantando nos mesmos restaurantes, reencontrado caras familiares...

Os mesmos toldos de praia, as mesmas vozes, os mesmos rituais.

No meio de tamanhas recordações, resgato sempre ali em terras Algarvias, uma parte do meu Alentejo, deste Alentejano, desta criança que um dia fui, sendo eternamente o mesmo...

A praia de Monte Gordo, nesta altura do ano, é invadida por famílias Alentejanas, gente boa como tantas vezes ouvi à mesa de jantar, meus Pais e Tios afirmarem, gente nossa como em tantas e tantas ocasiões, senti na vida.

É ali nesta mistura de raízes, que este Alfacinha se mistura com a alma Alentejana que sempre em mim morou, parecendo por momentos, regressar aos tempos onde corria no Monte de meus Avós, de capote e botas alentejanas, por entre o sonho de uma bela popia caiada...

Nem posso falar de popias caiadas, sem que uma lágrima me invada, nessa saudade, intrinsecamente pessoal.

Num dos meus regressos a Lisboa, há anos atrás, num café na Mimosa, encontrei abandonadas, numa prateleira empoeirada as minha popias caiadas, tradicionais, feitas em Panoias, comprei todas, amarrando-as a essas imagens que infelizmente já não existem.

No entanto, voltando a Monte Gordo e à sua deslumbrante praia, reencontro sempre naqueles toldos, por entre aqueles rostos, aquele sotaque que também é meu...

Também me pertence!

E num instante, num segundo intemporal, ano após ano, recupero o meu sotaque Alentejano, serrado, orgulhosamente assente nos antepassados que fazem de mim aquilo que sou...

Neste meu lado Alentejano recupero o rosto de minha Mãe, os desejos de meus Avós e de tantos mais, que no meu sobrenome sobrevivem.

Sinto-me Alentejano novamente, sem nunca ter deixado de o sentir, de o recordar, mas verdadeiramente, ali recupero uma parte de mim, que certamente sorri...

Através de uma felicidade inesquecível, de uma época, infância, que felizmente vivi.

Foi minha! 

 

Filipe Vaz Correia