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Caneca de Letras

Caneca de Letras

As Grades Da Minha Cela...

 

As grades na janela, a escuridão meio encoberta que daqui vislumbro...

Encarcerado, aprisionado a este desgosto, destemperado gosto, de um passado que aqui me amarrou.

Não sou dono de mim...

Não me pertence este destino, dentro da alma que vive com os erros desmedidos, que desmedidamente tenho de abraçar.

As grades desta janela, que me separa do mundo e que ao mesmo tempo é a minha porta para ele...

É através dela que consigo respirar lentamente, vendo os pássaros no céu, livres, esvoaçando como se nada mais existisse.

Como tenho saudades...

Saudades de mim, dessa parte de mim mesmo que ainda é senhora de si, dessa liberta vontade de gritar.

Gritar loucamente, sem nada sufocando o sonho, que eu mesmo tratei de matar.

Sozinho...

Na madrugada gélida, silenciosamente ternurenta, sem grilhos, sem cárcere, sem algozes.

Nesse momento, levanto-me desta maltrapilha cama e aproximo-me dessa mirífica janela, ignorando as mesmas grades, sempre elas, que me impedem de voar...

Nesse momento volto a ser livre, volto a querer ser livre novamente.

Mas só nesse instante, pequeno instante em que pareço esquecer o que jamais poderá ser esquecido, por entre as lágrimas que me invadem, esmagam essa finita crença impossível.

As estrelas que brilham na noite fria, as vozes caladas que parecem saber o quão importante é para mim, aquele singelo segundo, onde me encontro desencontrado...

As grades da minha janela voltam a cintilar, a brilhar em contraste com o meu perdido olhar, recordando-me de que não passo de um número.

Um número sem vida, sem alma, sem nada.

Apenas a soma desses pecados que eternamente expiarei...

Que eternamente tentarei expiar, desde a janela, desta cela que me pertence.

 

 

Filipe Vaz Correia