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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Pequena Criança...

 

Já não vai cantarolando aquela criança, sentada no beiral da porta, onde todos os dias parecia se deixar perder, por entre melodias intermitentes.

Vai ficando o silêncio, o vazio de vozes, de vida, de um descompassado existir.

Uma montanha de cores, de cheiros, marcando as viagens de tamanhos caminhos, disposto através do olhar daquele menino, pedaço de vida sem igual.

Ali sentado, onde outrora estava, repito estava, apenas se encontra a memória daqueles que por ali passavam, sempre apressados, desatentos...

Essa memória desatenta, mas que melodiosamente era despertada por pequenos acordes, do acordeão encardido, raspado, vivido.

Para onde terás ido?

Porque nunca ninguém parou, para te perguntar?

Nessa ausência, impregnada de nada, vazia, a ferros arrancada das profundezas desta oca Humanidade, vai desalmadamente carregando de arrependimento, os que deixaram de ouvir, o pequeno trautear daquela voz infantil, tristonhamente irrequieta.

O mundo avança, o tempo voa...

E mais vazia aquela rua, mais despida aquela porta.

Já não vai cantarolando aquela criança!

Aquela criança, que poucos poderiam descrever, desatentos ao seu olhar, à expressão do seu rosto, à imensa vontade de ser mais um, como nós.

Mas aquele cantarolar, aquela tristeza inerente à sua voz, tristeza perdida de um destino amargo, essa...

Essa grita ao mundo, as palavras que ainda ecoam através do vento, naquela ruela, naquela porta, naquele pedaço de mundo.

Para onde foste, pequena criança?

Para onde foste?

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

 

Oceano...

 

 

 

Reflexo de ti;

Desmedidamente enternecedor,

Esta crença maior,

Sufocante ardor,

Misto de esperança,

Batimento sofredor,

Eterna querença,

Deste singelo amor...

 

Reflexo de mim;

Em cada pedaço de vento,

Sorriso sem fim,

Instante, momento,

Frenético frenesim,

De tão valioso sentimento...

 

Porque não se encontram palavras;

Letras ou versos,

Escasseiam poemas,

Outrora submersos,

Neste imenso oceano,

Intemporal amor...

 

 

Simplesmente Amor...

 

 

 

Soa baixo o palpitar;

Do meu coração,

Tão baixinho,

Baixinho ao serão...

 

Soa baixo a tamanha emoção,

Perdida em cada sorriso teu,

Desmesurada sensação,

De amor...

 

Soa baixo sem partir;

Ao de leve no olhar,

Verdadeiro sentir,

Desmedido amar...

 

E vai se perdendo devagarinho;

Em cada destino entrelaçado,

Amarrando este destino,

Este amor encantado...

 

Soa baixo;

E vai soando,

Por entre as linhas desta poesia...

 

Vai soando;

Bem baixinho,

Cada pedaço,

Deste tamanho amor.

 

 

 

Maior Do Que A Vida!

 

 

 

Nunca renegarei este amor;

Esta imensa vontade de te amar,

Amor sofredor,

Capaz de ultrapassar,

Por vezes o enganador,

Verso a poetizar...

 

Nunca deixarei de te olhar;

De saber caminhar,

Por entre esse intenso acreditar,

Acreditando sem falar,

Que é dor esse balançar,

Da alma...

 

Que esmaga sem esquecer;

Aperta sem dizer,

Amarra sem ceder,

Esvoaça sem morrer...

 

Porque é maior do que o vento,

Do que se tornou tormento,

Estranho sofrimento...

 

É maior este amor;

Do que a vida.

 

 

 

 

 

Velho Poeta...

 

Dizia o velho poeta:

" Que o sofrimento é o sal da alma, que gritado na folha de papel, se tornará em cada uma das letras que formarão, a  intensa verdade poética."

Teria razão o velho poeta?

Valeria a pena ter razão?

Acalentado silêncio que permite prolongar, sem atenuar, as tamanhas agruras da alma, dessa parte do poema, onde apenas a alma chora...

Onde apenas é permitido a essa amargurada alma, chorar.

A mistura poética desta prosa, entrelaça a enviesada dor, que esmagada por entre as lágrimas que não querem mais se esconder, vão sussurrando ao malfadado vento, tudo o que guardado em tantas linhas, se vai soltando sem querer.

A magia de um poema, poesia salgada, mágoa libertada de um amor sem fim, termina soletrada, com um ardor sufocante, sufocando ardentemente, sem queixume...

Pois quem ama não se queixa, ou melhor, vai queixando a velha esperança, de encontrar por entre essa balança de um intemporal amor, o mesmo olhar, do que um dia fomos.

Talvez não voltemos a ser...

Talvez não saibamos que com o passar do tempo, vai ficando apenas a sensação perdida, do que um dia nos pertenceu.

Ao partir...

Morrer.

Ao chegar o infinito momento dessa eterna finitude, buscando tantos olhares que cumpriram o desfiado destino, no mesmo tempo existencial, sobrando o vazio, repleto da tamanha insensatez da alma, questionada estupefacção do coração.

Conseguiremos reencontrar, sem saber, o que se perdeu?

Conseguiremos voltar a amar, aquele amor que um dia perdido, jamais se voltará a cruzar?

E nesse momento, instante derradeiro, descansará o velho poeta.

" Já não sofre o meu coração, não chora o destino por cumprir, mas silenciosamente, vai continuando a soletrar as letras que constroem esse nome, que é o teu."

Já não chora o velho poeta, nem o seu malfadado destino.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

A Caminhada De Um Sem Abrigo...

 

O que estará por trás, do olhar de um Sem-Abrigo?

Daquele Sem-Abrigo?

Quantas dores permanecem encobertas, por aquele ar austeramente abandonado, enlameadamente escurecido, quase ofensivamente perturbador desta vida "normal", das pessoas "normais"...

Barba toda branca, amarelada, cabelos igualmente brancos, encardidos, com a sujidade presente na pele, nas unhas, na roupa.

Tudo me perturba...

Tudo deveria perturbar.

Caminha só, acompanhado pelas palavras que insiste em debitar alto, prometendo continuar sussurrando o malfadado destino que parece se ter cumprido, amarrado à infelicidade presente, na ausente vontade de ser "normal...

Gente comum.

A tristeza e a revolta parecem ter ali espaço, só ter ali espaço, naquele homem, naquele insistente olhar, que por mais que me esforce custo a esquecer.

Um olhar vazio, apesar de ser negro, presente apesar de nada nele existir, tem vida, reflectindo o nada, sempre o nada, que ganha expressão naquele rosto.

Esse vazio assustador, mistura de dor, de mágoa, de um abismo transformado em vida.

Aquele homem, aquela vida, ou o que dela resta, caminha só...

Continua percorrendo a rua, as ruas e os meus olhos acompanham-no, vão acompanhando os seus passos, até desaparecer no horizonte e se tornar para mim, o que antes havia sido...

Nada!

Mas no fundo da minha alma, no recanto do meu coração, aquela imagem permanece, aquela solidão que parecia ser sua companhia, arrepiou esta parte de mim que aqui desabafa...

Querendo vos escrever.

Quem terá feito parte daquela vida?

Como se perderam os desamores e amores daquele homem?

Como ficou vazia uma vida?

Abandonado no meio de tanto mundo, de tanta gente, de todos nós.

Perguntas que esvoaçam por entre as linhas e letras deste post, ficando sem as respostas, que porventura acompanham aquele homem, descendo a rua, prosseguindo o seu destino...

Aquele destino, que há muito, o abandonou.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

Já Foste Feliz?

 

Tantas vezes me questiono...

Onde será que fui feliz?

Verdadeiramente feliz...

Sentimento esse que mistura mistério, com a interrogação constante ou a busca insana pelo desejo impossível.

Tantas palavras, segredos presos à alma, momentos e instantes que se somam, sem que o tempo pare, sem que nos seja permitido voltar atrás, e novamente pintar esse quadro que eternamente fará parte de nós...

Será o nosso infinito destino.

Essa palavra, felicidade, que estranhamente rima com saudade, lugar imenso mas distante, onde ao longe, num mirifico horizonte, o tempo se encarrega de embelezar a memória.

Por vezes fica um bater mais acelerado do coração, um respirar mais ofegante por entre uma errante lágrima, por outras vezes, apenas um solitário reencontro com a perdida alma que nos completa.

É tão difícil explicar à infeliz felicidade, felicidade presente, o quão feliz estou neste instante...

Ou o quão triste estarei, por o tempo insistir em não parar...

Não ter parado.

Por vezes seria imensamente belo, parar por segundos o presente, degustando cada cor, cada cheiro, cada pedaço de nós, misturado com o contentamento maior que nos sufoca...

Seria tão bom, pedir ao futuro que aguardasse por um momento, para regressando ao passado, beijar alguém ausente nesta viagem finita.

Tantas coisas boas...

A mão segura de minha Mãe, o seu cheiro, o seu ternurento olhar...

A voz austera mas aconchegante de meu Pai, perdendo-se por entre as infindáveis histórias, que ainda hoje me moldam.

As saudades que eu tenho dos natais, em casa de meus Pais.

A praia de Odeceixe, onde passei maravilhosas férias de verão, onde me apaixonei e sorri, chorei e fugi..

Odeceixe.

Tantas e tantas vezes, tantas e tantas pessoas, tantos e tantos momentos, entrelaçados com essa palavra dificil de decifrar...

Felicidade.

Uma música a tocar, o abraço de um amigo, o beijo da pessoa amada, o olhar escondido e reflectido no espelho, só teu...

Somente teu.

Tantas e tantas vezes pensei ser feliz...

Tantas e tantas vezes me esforço por recordar que fui feliz, nestes pedaços de história, que fazem parte de mim.

Tantas e tantas vezes fui feliz...

Mas sempre passou.

Viva o futuro...

 

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

Angústia...

 

 

 

Palavras ocas;

Na intensa escuridão,

Orelhas moucas,

Maldita solidão,

Dos que sonham,

Sós...

 

Vozes esquecidas;

Lágrimas ensurdecedoras,

Mágoas antigas,

Imagens demolidoras,

Recordando velhas feridas,

Devastadoras...

 

Histórias aprisionadas;

Aprisionando a estranha razão,

Razão desencontrada,

Deste desencontrado coração...

 

Silenciosa amargura;

Expressa em cada linha deste poema,

Outrora ternura,

Desventurado teorema,

Do que um dia foi aventura,

Do que agora é dilema,

Eternamente angústia...

 

Eternamente angústia.

 

 

 

 

Ruas...

 

 

 

Ruas estreitas;

De estreitos destinos,

Caminhadas imperfeitas,

Imperfeições e desatinos...

 

Ruas perdidas;

Perdidos receios,

Becos e feridas,

Escondendo anseios...

 

Ruas de dor,

Viagem imortal,

Mágoas de amor,

Desejo infernal...

 

Ruas e ruelas,

Com cheiros de jasmim,

Sonhos de canela,

Agruras sem fim...

 

Ruas e mais ruas,

Alma desnudada,

Verdades nuas,

Palavras tuas,

Silêncios meus...

 

Eternamente meus!

 

 

Sou...

 

 

 

Sou prisioneiro dos meus sentimentos;

Das vozes e sonhos que gritam,

Cartas trazidas pelo vento,

Palavras que se eternizam...

 

Sou refém de mim mesmo;

Das algemas e dos grilhos,

Dos pesadelos bem trancados,

Lágrimas sem trilhos...

 

Sou um enigma presente;

Na penumbra adormecida,

Memória ausente,

Da insistente ferida...

 

Sou esse pedaço de nada;

Tão vazio, tão vazio,

Pedaço de nada,

Nadando num rio...

 

Sou esse pedaço de nada...

De nada..

Nada!