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Caneca de Letras

Caneca de Letras

Os Meninos do Mediterrânio...

 

A Unicef, divulgou um relatório, onde revela que durante 2016 morreram no mediterrâneo, perto de 700 crianças, nessa fuga migrante de miséria e desgraça...

700 crianças.

Diante destes números é impossível não sentir, a vergonha imensa perante o desenlace encontrado, por estas pequenas vidas, cheias de esperança e de desespero, misturado nesse imperioso desejo, de encontrar um local seguro para sonhar.

Não existe revolta suficiente para descrever esta tragédia, não existe raiva suficiente para contar tal destino, não existem palavras suficientes para gritar ao vento, que naquele mar, cemitério, aqueles meninos se transformaram em despojos da humanidade...

Apenas sobeja a tristeza silenciosa, envergonhada, derrotada, naqueles que possuem coração e que sentem através dele, que nada, poderia ser tão cruel.

É aqui que cada um de nós, poderá fazer o pequeno exercício, de olhar à nossa volta, de fechar os olhos por um instante e pensar em algum menino ou menina, que nos seja querido, nos seja próximo...

Pegar nessa imagem e levá-la através das nuvens que atravessam os pesadelos, os receios e transportá-la até àquele mar, àquela praia, onde repousam tantas crianças sem vida...

Mudar o rosto desses desafortunados, despejados de esperança e imaginar que são os nossos, as nossas crianças.

Nesse momento talvez sintamos, o quão impossível será viver aprisionado por esse horror que provavelmente se repetirá enquanto leem este artigo...

E o mundo continua, continuará, relatório após relatório, a lamentar, a escrever, como aqui faço, mas verdadeiramente a esquecer estes pedaços de destino, abandonados à sua sorte.

Como é triste, tristemente imaginar, o rosto de Deus...

Esse Deus de todos nós, que talvez complete com as suas lágrimas, aquela imensidão de água que forma esse mar, com esse nome...

Mediterrâneo!

Que Deus vos proteja, meninos do mediterrâneo, porque a Humanidade não o fará.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

Intensamente...

 

Amar perdidamente;

Sonhar permanentemente,

Descobrir desesperadamente,

Querer insistentemente,

Esse desejo que tresloucadamente,

Habita em mim...

 

As palavras nunca ditas;

As vontades interditas,

As cartas que não foram escritas,

Perdidas, sem retorno...

 

Os ventos que não chegaram,

Os momentos que escaparam,

Os sentimentos que passaram,

Os sofrimentos que me sobraram,

Sem nunca me esquecer, de ti...

 

As memórias perdidas,

As história nunca vividas,

As emoções esquecidas,

No meio de tantas feridas,

Que ainda não sararam...

 

E assim continuo a caminhar;

Sem saber como explicar,

Esse amor que sem parar,

Arrebata a intensa esperança,

Da minha alma!

 

 

Pijamas Riscados...

 

Sempre que via um comboio partir;

Imaginava esse mundo,

Descobrindo sem fugir,

Esse longínquo e profundo,

Desejo de sentir,

O meu ausente destino...

 

Sempre que abriam os portões;

Daquele campo maldito,

Imaginava os corações,

Daqueles interditos,

Olhares que me fugiam,

Dos que um dia amei...

 

Sempre que chegava o amanhecer;

Desconfiado caminhava,

Querendo adormecer,

A esperança que em mim habitava,

De que podia ser diferente...

 

E seguindo amordaçado;

Amordaçando a alma já cansada,

Presa nesse corpo desanimado,

Naqueles pijamas riscados...

 

E assim a cada partida;

A cada fuga perdida,

Em cada dia, ferida,

Até que chegou a minha vez...

 

E aí descobri que me haviam roubado tudo;

Mas apenas eu, 

Era o dono da minha alma!

 

 

 

 

 

 

 

Porquê?

 

Porque tenho de ceder;

Porque devo esmorecer,

Porque devem em mim desaparecer,

Essas memórias amarguradas,

De vidas já esquecidas,

Mágoas passadas,

Noites perdidas,

Amarradas,

A tamanhas feridas,

Que ainda doem...

 

Porque devo responder;

Porque tenho de esquecer,

Porque sou obrigado a sorrir;

Se esta dor aqui permanece,

Nessa lágrima a ferir,

Que não adormece,

O meu imenso sofrer...

 

Porque não posso gritar;

Gritando intensamente,

Libertando sem parar,

Essa voz que desesperadamente,

Me insiste em sufocar,

Sufocando insistentemente,

A vontade de resgatar,

 As ilusões que invadiram a minha alma...

 

Sobrando enfim;

Tantas palavras,

Para descrever a minha história,

Ficando apenas este poema,

Para guardar nessa memória,

Esquecida pelo tempo...

 

Por esse tempo,

Que não consigo descrever!

 

 

 

 

 

 

Tejo!

 

 

Deitado aos pés de Lisboa;

Gaivotas como companhia,

Almas e pessoas,

Caminhando e voando,

Contemplando a sua imensa beleza...

 

Cruzando as margens desta cidade;

Empurrando o tempo para a frente,

Amarrando a saudade,

Sempre presente,

Neste destino tão português...

 

Refletindo como um espelho;

As amarguras presas ao céu,

As gotas de chuva caindo,

Irrompendo esse véu,

Tão secreto, deslumbrante...

 

Intensamente guardadas;

As lágrimas desses navegadores,

Que em vidas passadas,

Viagens anteriores,

Daqui partiram,

Com essa esperança de um dia regressar...

 

E assim, tantas vidas neste rio;

Histórias refletidas em cada um de nós,

Nesse intenso corropio,

Segredando nessa voz,

Secretamente o seu nome...

 

Tejo!

 

 

 

 

Amigo Imaginário...

 

Questiono aquela voz que me acompanha;

Aquela estranha certeza que em mim habita,

Aquele imaginário amigo,

Conselho antigo,

Que sei só meu...

 

Por entre as palavras escondidas;

Os olhares imaginados,

A história descrita,

Nesses sonhos passados,

Em cada imagem escrita,

Na vontade da minha querença...

 

Sempre soube que não existias;

Que eras fruto dessa tortuosa imaginação,

Da vontade insegura,

Que comanda esse coração,

Alma nua,

Que se esconde por detrás da minha emoção...

 

Mesmo assim;

Não saberia imaginar,

Poder enfim,

Caminhar,

Sem a certeza,

De contar,

Com esse amigo imaginário,

Que acompanha o meu destino!

 

 

A Bailarina...

 

Era uma vez uma menina, que sonhava poder voar, repetindo nos seus sonhos, essa crença a soletrar, através das palavras que cresciam alegremente no olhar, cada vez, que via aquele recital...

Todas as noites ao adormecer, fechava os seus olhos, esperando poder sentir esse vento a chegar, como os pássaros, esvoaçando sem fugir, desse destino que tanto ambicionava.

Noite após noite, intocáveis pensamentos, que tomavam conta desses desejos impossíveis, difíceis de realizar...

No seu olhar encantado, uma esperança que não cabia dentro da sua alma, alvoraçando inquieta as angústias insistentes, guardadas secretamente, na expressão daquela imagem, sempre presente.

Tantos anos se passaram, desde que aquela menina, com os braços abertos, julgava poder cobrir os céus, na imensidão da sua dor, que alimentava os sonhos imaginados...

E nesse dia, naquela história, no cimo daquele palco, em cima daquelas tábuas de madeira, o passado regressava, para se fundir com o seu coração.

Abriam-se finalmente as cortinas, deparava-se com aqueles olhares indiscretos, das gentes sentadas, naquele teatro lotado da sua infância...

E ali de pé, com aquela música como pano de fundo, abria novamente os seus braços, a menina, agora mulher, saltando eternamente diante do infinito, enquanto abraçava esse destino, que tanto desejara tocar.

Voando por entre as nuvens e os desejos da sua terna infância, encontrava-se submersa, no imenso contentamento da sua alma.

E assim, uma bailarina, menina, mulher, ganhava naquele momento, naquela vontade, as asas com que sempre sonhara...

Bravo!

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

Santa Luzia!

 

Santa Luzia;

Que fazes parte de mim,

Como uma vela que alumia,

Alumiando sem fim,

O caminho da minha vida...

 

Em cada recanto da minha aldeia;

A cada história dos meus avós,

Permanecendo na minha mente,

Essa orgulhosa voz,

Da minha herança...

 

Pelos cheiros;

Impregnados nos meus sentidos,

Pelas gentes;

Em gestos vividos,

Pelas memórias,

Em momentos perdidos,

Guardados num tempo que não regressa...

 

Por cada pedaço de mim mesmo;

Por essa lembrança dos meus antepassados,

Recordo intensamente,

Os destinos desencontrados,

Desse Alentejo,

Só meu!

 

 

A Barcaça da Esperança!

 

 

Uma jangada molhada, cheirando o medo que se apoderou de todos nós, daqueles desventurados que impelidos por essa vontade maior, não deixaram de acreditar.

Os olhares baixos, cerrados, apenas ouvindo o bater daquela ondulação, dessas ondas de esperança que amiúde chegam, levando com elas esse futuro que anseio encontrar.

Ao meu lado uma jovem mulher, com um lenço à volta da cintura, onde adormece aquele menino, seguro, nos braços de sua mãe...

A noite se apodera do nosso destino, os sons que se calaram no meio de tantas bocas, ali fechadas, cumprindo as ordens, daqueles rudes mercenários, que nos guiam perante a incógnita escondida, desta lotaria a que chamamos de vida.

O barulho do motor é o único ruído permitido, naquela imensidão ruidosa, compassadamente reunida por entre o silêncio de tantos medos, que insistem em ficar...

Deixei tanto para trás...

Tanta miséria, tamanha fome, desespero e lágrimas mas também o amor por minha mãe, banhada na intranquila saudade, que já sentia antes mesmo de eu partir, a voz emocionada do irmão que ensinei a caminhar, os amigos que escolheram a certeza de ficar, no mesmo lugar, na mesma violenta obrigação de ceder à vontade, de algo melhor.

- Calados! Ouvia se a voz daquele homem com os olhos encovados e o rosto marcado pelas cicatrizes, de uma vida de contrabando...

Luzes apareciam ao longe, distantes e ao mesmo tempo, cada vez mais perto, mais presentes, no desespero que se instalava...

Por incrível que pareça, só ali no meio daquele mar, pela primeira vez se apoderou de mim, este pensamento de que era possível algo correr mal...

Algo impedir o mirífico momento em que pisasse terra firme, neste sonho por cumprir, chamado:

Europa!

Um tiro e depois outro...

Um grito e depois muitos outros...

Um terramoto naquela noite sombria, que irrompia sem cantar as doces fábulas da minha eterna esperança.

Abanava a barcaça...

Abanavam a barcaça, qual casca de noz engolida por aquelas ondas que aparentavam ser maiores do que o céu estrelado que por cima de nós, silencioso, observava.

Pés pisavam o meu rosto, sensação de um desgosto que ainda não chegara, mãos que insistiam em me prender os movimentos, sacudindo essa mistura de sentimentos, gritando em mim, vozes sem fim, nesse salto que nunca quis dar...

E no meio desse salto, amarrado àquela barcaça de esperança, entre vozes e mar, cai naquela água gelada, naquele negrume refletindo a noite, na calmaria que outrora ali estivera.

Vozes cada vez mais silenciosas, ruídos cada vez menores, engolidos na imensidão daquele mar.

Misturava me com aquela água, que me envolvia, circundava, seduzindo-me numa espécie de abraço que me esmagava o coração, acelerado, desnorteado, desiludido...

Adormeci, deixei-me levar, desaparecendo nas profundezas solitárias, gélidas e salgadas, deixando enfim, que o destino tomasse conta deste seu filho...

Até que uma mão me agarrou, resgatou, nessa distância que parecia minha, só minha...

Ao respirar novamente, o mundo chegou até mim, acordou-me, despertou novamente os meus sentidos, a minha eterna gratidão.

Mas ao olhar em meu redor, apercebi-me, que no meio de tantos gritos, de tantas vozes, de tantos olhares, de tantas vidas, de tamanha esperança...

Apenas eu, sobrevivi!

E agora, aquela barcaça de esperança, era apenas eu...

O legado de tantas almas, com os sonhos perdidos nesse mar.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

 

 

Psicanálise!

 

Insegurança;

Palavra vã,

Que me tolda a esperança,

Deitado naquele divã,

Onde espero encontrar,

As respostas escondidas na minha alma...

 

Olho para o fundo da sala;

Aguardando que a minha mente se revele,

Que os meus segredos se desnudem,

Que me dispa dessas capas,

Que me envolvem,

Ali, diante de mim...

 

Fecho os olhos;

Numa espécie de revelação,

Viajo por entre as mágoas que me esforço por perder,

Pelas agruras deste coração,

Que insisto em esquecer,

Temendo a ilusão,

A aparecer,

Recordando a lembrança,

De mim mesmo...

 

Naquele divã;

Reencontro a essência que me foge,

Reencontrando os pesadelos e os sonhos,

Que me moldam,

Moldando nessa forja,

As dores que formam as minhas lágrimas...

 

E aí, descobrindo a razão desses pecados;

Que aprisionaram o meu destino,

Descubro em cada explicação,

Um enigma resolvido,

Nessa eterna equação,

Da minha alma! 

 

 

 

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