Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Caneca de Letras

Caneca de Letras

O Meu Tio...

 

Procuro as palavras;

Escondidas nestas linhas,

Para poder descrever,

Essa imagem na minha mente,

De um amigo, de uma vida...

 

O tio que me viu menino,

E talvez ainda veja,

Neste tempo que teima em passar,

Sem esquecer ou calar;

Os momentos, as memórias,

As muitas histórias...

 

Recordações que guardo com carinho;

Num abraço que nunca me faltou,

Sempre forte, apertado,

Nessa amizade que ficou...

 

Onde aprendi e sorri;

Onde escutei e cresci,

Onde sempre me senti querido...

 

Assim por entre a tinta deste poema;

Escolho essa palavra,

Que o possa descrever,

Sem hesitação ou dilema,

Vou finalmente escrever...

 

Familia!

 

 

 

As Árvores da Minha Rua...

 

Dou por mim a pensar, nestas árvores que ladeiam a minha rua, no esvoaçar dos seus galhos, no cair das suas folhas, na vida que se esconde para lá da sua aparência...

Quantas vidas passaram por elas?

Quantas almas se cruzaram com o bater das suas folhas?

Quantas histórias ficaram cravadas no tronco da sua idade?

Perguntas que me invadem enquanto as observo e me interrogo...

Nesta constante repetição, ano após ano, elas crescem, ao encontro desse céu, para nós divino, guardando memórias, esperanças, tristezas, vidas que um dia ali se cruzaram.

Quantos namorados ali fizeram juras de amor?

Quantas lágrimas regaram as suas raízes?

Quantos momentos ou tormentos presenciaram...

Serei mais um, que as contempla, que as admira...

Serei mais um que escreve sobre a sua beleza, as suas emoções?

Terão memória estas árvores?

Chorarão elas a cada partida de um simples Homem, que um dia conheceram?

Viram Filhos transformarem-se em Pais, Avós que já foram Netos, Vidas que ainda não nasceram, mortes que ainda não chegaram.

Nestas questões que me perseguem, nestas dúvidas que me assolam, vejo uma vez mais, essas folhas que insistem em cair como se de lágrimas se tratassem, tombando sem receio de tocar o chão da minha rua...

Fecho a janela de minha casa e deixo para trás aquela imagem, aquele pensamento que tantas vezes me preenche a alma, acreditando no entanto, que mais uma memória terá ficado nas Árvores da minha rua.

 

Filipe Vaz Correia

 

O Mundo...

 

Sustenho a minha respiração;

Suporto o mundo calado,

E observo...

 

Sustenho, uma vez mais, a respiração...

 

Uma vela acesa, iluminando;

Por entre os meus passos numa sala vazia,

Aguardando numa noite fria,

Que seja dia...

 

Uma lágrima que me escapa;

Com a tristeza que carrego sobre os ombros,

Entre um medo que afasta,

Os estreitos caminhos desse futuro,

E um passado que me arrasta,

Por entre o sonho e a ilusão...

 

Abro os olhos e vejo-te;

E tudo volta a valer a pena...

 

Aylan: O Pequeno Refugiado...

 

Uma criança morta;

Estendida numa qualquer praia,

Sem vida, desperdiçada,

Numa gigantesca vaia...

 

Morreu a Humanidade;

Este mundo absurdo,

De preconceitos, inverdades,

Num imenso grito surdo...

 

Sem sentido, cruel;

Destino malfadado,

Que repete com fel,

Um horror já passado...

 

Revivo tempos de outrora;

Histórias que julgava perdidas,

Sentimentos, sofrimentos,

Dores e feridas...

 

Como podem tentar fugir?

Povo, pessoas, miséria,

Criaturas a partir,

Sem saberem para onde ir...

 

Causa dor tamanha loucura;

Indiferença, arrogância, desprezo,

Nesta imensa tortura,

Essa roda dos desafortunados...

 

Despido, desprotegido, morto;

Longe dos seus, desacompanhado,

Nem na morte foste feliz,

Ó pequeno refugiado...

 

Porque deste nome não vais escapar;

Pois o que sofreste, já não importa,

O que andaste a penar,

Ó criança morta.

 

Refugiado, sofredor;

Imagem que ninguém quer ver,

Recordando uma dor,

Que todos desejam esquecer...

 

Assim ao mundo vieste chocar;

Trazendo espanto, mágoa e indignação,

Só não sei quanto tempo irá durar,

Até à próxima repetição...

 

Ó pequeno Aylan;

Podias ser meu filho!

 

Marcelo: O Rei Repúblicano...

 

Muitas vezes durante estes longos dez anos em que tivemos como Presidente da República Anibal Cavaco Silva, me questionei sobre a importância deste cargo e a sua necessidade na envolvência política de um regime democrático.

O anterior morador de Belém era inadequado, incapacitado para o cargo, inapto na ligação com as pessoas e consequentemente com o País.

Falava na altura errada, dizia as coisas de maneira errada e parecia adormecido perante a evolução trágica que o País teve de enfrentar.

Era mesmo uma espécie de agonia Presidencial aquela a que todos assistimos durante este interminável período.

O casal Cavaco Silva representava algo bafiento, poeirento, sem vida...

Sem ofensa para as boas intenções de ambos.

Marcelo é o oposto...

Ele consegue incutir uma energia, dedicação, disponibilidade que parecem intermináveis, inesgotáveis, trazendo uma nova visão para a política, absolutamente imprescindível para a sua reabilitação...

As pessoas estão fartas destes homens institucionais, donos da razão, distantes da realidade do dia a dia e das dificuldades que as mesmas enfrentam.

As pessoas estão rendidas não é apenas aos beijinhos e selfies de Marcelo, como muitos comentadeiros por aí apregoam, as pessoas renderam-se foi ao olhar, ao que por de trás destes aparentes gestos populistas, está:

Preocupação, atenção, estima.

Marcelo sabe chegar àqueles que com ele privam, sejam Reis ou Peixeiras, Mães ou Sem-Abrigo, Velhos ou Crianças, de esquerda ou direita.

Esse é o seu segredo, é humano...

Apenas humano.

E já estava na hora de termos alguém assim, na política portuguesa.

 

Viva o Rei Marcelo.

 

Filipe Vaz Correia  

Piano...

 

O meu piano...

De encontro à janela;

Aguardando a minha alma,

Como se estivesse de sentinela.

 

Aguardando sem tocar;

Esperando calado,

Esse regresso, despertar,

De um tempo e de um passado...

 

Não sinto as minhas mãos;

Queria voltar a sentir,

E contar ao meu coração,

Esse medo de sorrir...

 

Temo o que um dia fui;

Fujo desse reencontro,

Dessas pautas, pautadas,

Imagens passadas...

 

Nessa lágrima, em forma de nota musical;

Sinto a dor na minha mente,

O que sobrou dessa vida,

Desse som, nesse presente...

 

Já não posso mais tocar;

Já não sou um pianista,

Pois tremo sem parar,

Sem as minhas mãos controlar...

 

Dói sem doer;

Esse teu silêncio ruidoso,

Piano meu, quero morrer,

Ao som do teu sorriso...

 

Pois só ele preenche as memórias, dessa vida que um dia foi minha!

 

O que esconderia eu?

Se cada palavra tivesse valor;

Se cada olhar fosse importante,

Se cada sorriso fosse apenas dor,

Então o que esconderia eu?

 

Se cada cheiro significasse algo;

Se cada beijo fosse verdadeiro,

Se esse sentimento fosse inteiro,

Então o que esconderia eu?

 

Se em cada gesto fosses tu;

Se fosses tu em cada momento,

E se eu pudesse voltar atrás no tempo,

O que esconderia eu?

 

E se eu escondesse alguma coisa;

Perdida no meu pensamento,

Ruidoso sentimento,

E um dia te pudesse revelar...

O que diriam os teus olhos?

 

Talvez se perdessem nos meus.

 

Quem disse que o Pai Natal não existe?

 

Há mais de 30 anos que deixei de acreditar no Pai Natal...

Deixei de crer nessa fábula cheia de magia, nesse homem de barbas brancas, barrigudo, que durante a noite de Natal, percorre o mundo no seu trenó, puxado por renas trabalhadoras, descendo chaminés, para que nenhum menino fique sem os presentes por que tanto haviam sonhado, durante o ano.

Acreditava tanto nesse mágico mundo, que ficava acordado tentando espreitar pela porta da cozinha, na casa da minha Tia em Santa Luzia, na esperança de poder vislumbrar esse herói que povoava a minha tenra mente.

Nada era mais encantador que este pensamento, deste velhinho barbudo e os seus Duendes, trabalhando todo o ano para que naquela noite, todos os meninos do mundo tivessem direito à sua pequena parte de felicidade.

Como qualquer criança, existe um dia em que somos confrontados com essa imensa desilusão, com essa realidade que esventra o sonho e nos desperta para a racionalidade que povoa o mundo dos crescidos...

Dos adultos.

O Pai Natal não existe!

Frase chocante porém verdadeira e que nos faz deixar de sonhar...

Assim cresci, senti-me adulto, já não uma criança, pois havia ultrapassado aquele conto para meninos pequenos.

Assim se passaram trinta anos, a contar a mesma história a sobrinhos, a ver crianças a passar pelo mesmo sonho irrealista...

Mas a serem felizes.

Até que um destes dias, na minha televisão o Pai Natal apareceu...

Um homem de barbas longas e brancas, despido do seu fato encarnado, de lágrimas nos olhos e com uma história para contar:

Morrera o seu Duende mais querido...

O número um.

Um menino de cinco anos, que agonizava na cama de uma unidade hospitalar, pedindo a presença do Pai Natal...

E ele chegou.

Eric Schmitt-Matzen, o nome do Octogenário que se abeirou da cama daquela pequena criança, moribunda e que através daquela imagem sentada na beirinha do seu leito, voltava a sorrir.

O medo de não saber para onde iria, passara, o receio dessa famigerada morte que certamente inquietava o seu coraçãozinho, amenizava, a esperança de um encontro há muito desejado ganhava vida.

Num último abraço, aquele Pai Natal acolhia no seu regaço toda uma vida, curta, passageira, mas a esperança e alegria que este mesmo abraço representava era maior do que os medos, o tempo, o sonho...

Era maior que tudo!

Naquele instante o menino soube, através dos seus olhos e do seu coração que o Pai Natal existia, era real, estava ali com ele.

Assim morreu, acochegado por aquelas longas barbas brancas, daquele homem que muitos dizem não existir.

Para trás, ficavam as lágrimas que escorriam pelo rosto daquele velho homem, que descera a chaminé daquele hospital, para trazer um pouco de magia a um cenário carregado de tristeza.

Através destas imagens, das palavras de Eric, também eu voltei a acreditar, a ter essa certeza...

O Pai Natal existe e estava ali diante dos meus olhos.

Pois só o Pai Natal poderia ter uma história destas para contar.

 

 

Filipe Vaz Correia

 

Poeta...

 

Ser poeta é...

Cantar sem ter voz;

É voar sem ter asas,

É nunca estar só,

Mesmo estando...

 

É ver longe, sendo cego;

É nadar sem ter água,

É dizer que sim, não nego,

Ao amor, à dor, à mágoa...

 

É crer em Deus, sendo descrente;

É beijar na boca, não tendo lábios,

É viver o presente, ausente,

Aguardando versos sábios...

 

É escrever sem palavras;

É chover no verão,

Noites quentes, amargas,

Estimulando a imaginação...

 

É chorar, é sorrir;

É amar, é sentir,

Abraçar ou pedir,

Uma emoção a fugir...

 

Ser poeta é enfim;

Um pouco de tudo e de nada,

É pedir à folha em branco,

Uma vida emprestada...

 

E assim sem parar;

Em cada traço desenhado,

Desenhando um pensamento,

Em cada poema imaginado.

 

Burka

 

Escondem-me debaixo de um véu;

Um véu imposto, desgosto,

Um tabu que me cobre o rosto,

Um terror imposto...

 

Sou refém deste manto;

Que quebra a minha vontade,

E que atira para um canto,

A minha sonhada liberdade...

 

Só os meus olhos sobrevivem;

Aos olhares que me circundam,

A essas regras que me dominam,

Às mentes que violentam o meu destino...

 

Debaixo deste céu;

O mesmo mas tão distante,

Desse mundo, do meu véu,

Que me consome,

Asfixiante...

 

 Não tenho escolha;

Não tenho querer...

 

Não tenho pele;

Não tenho sorriso...

 

Tenho apenas a minha alma;

Para silenciosamente,

Sonhar.

 

 

 

 

Pág. 1/3